Crítica | Tudo Vai Ficar Bem

estrelas 3

É preciso falar com muito cuidado das produções de cineastas autorais como Wim Wenders. Existe toda uma aura que envolve a filmografia do diretor, um dos integrantes do cânone cinematográfico mundial, colecionador de críticas e prêmios ao longo da carreira, geralmente bem sucedido em tudo que faz. Em Tudo Vai Ficar Bem, Wenders mistura linguagens, emprega um estilo visual primoroso ao enredo, mas as tentativas de convencer o público sobre a trajetória de um homem amargurado pelo sentimento de culpa diante de uma tragédia não alcançam o êxito necessário.

Envolvido na seara dos documentários nos últimos sete anos, Wim Wenders retorna ao drama nesse filme sobre a forma como a vida de alguém muda diante de uma tragédia, bem como o processo de cura do luto e da luta contra a depressão. Ao longo dos seus 118 minutos, o cineasta nos oferece um festival de imagens bem captadas e a estrutura como base para o desenvolvimento (um pouco deficiente) dos personagens.

No filme, o escritor Tomas (James Franco) está em conflito com a namorada (a ótima Rachel McAdams) e resolve sair, após uma discussão, para desanuviar. No caminho, uma gélida estrada canadense adornada pela neve, o rapaz sofre um acidente. Fisicamente integro, descobre que a sua consciência se entrará em crise ao perceber que atropelou uma criança. O ponto de virada na sua vida é esse um acidente. Algo que inclusive o retira da inércia do tempo narrativo, pois Tomas parece um homem apático e de pouca firmeza na tomada de decisões.

O atropelo e morte desta criança causa uma reviravolta na vida da fria Kate (Charlotte Gainsbourg), personagem que ao longo do filme vai desenvolver uma relação (não sexual, adianto) com o ceifador da vida do seu filho. Afetado pela tragédia, Tomas adentra num processo depressivo e precisará, tendo em mira a ajuda da sua namorada e de alguns personagens que gravitam em torno da sua existência.

Filmado em 3D, Tudo Vai Ficar Bem é um espetáculo visual. O uso do recurso foi uma tentativa de misturar linguagens, pois a utilização da terceira dimensão é uma abordagem geralmente associada aos meandros da cultura do espetáculo: o resultado é excelente. A montagem se preocupa em evitar a dinamicidade comum ao cinema contemporâneo ao criar cenas longas e contemplativas, o que não é ruim, mas pede um hercúleo exercício de adequação por parte dos espectadores mais acostumados ao ritmo ligeiro dos dramas da atualidade. O trabalho musical de Alexandre Desplat não faz muita diferença, pois não embala o filme, tornando-se uma presença pouco expressiva, o que não significa que seja ruim.

O foco do filme é o visual deslumbrante, captado por uma câmera preocupada em apresentar a beleza de um mundo externo em oposição à mente turva dos personagens diante das tragédias em seus mais variados níveis: o luto (perda de um filho e o fim de uma relação amorosa), o sentimento de culpa (acidente trágico que destrói uma família) e a perda da criatividade (escritor com bloqueio criativo).

Paralelo aos sentimentos múltiplos descritos acima, os enquadramentos de Tudo Vai Ficar Bem captam instantes no tempo com determinação e muito foco. Através de planos longos, a câmera enquadra e se desloca vagarosamente pelos espaços, e assim, contempla a neve, os jardins, os parques públicos, o céu, o relevo suntuoso de algumas estradas, dentre outros espaços que no filme podem ser descritos como poesia imagética.

O problema do filme é a sua chegada em um momento de extrema dispersão e correria contra o tempo, fruto da relação do ser humano com a sociedade dotada da necessidade de pressa e pouco, quase nulo, espaço para contemplação das coisas. Os planos longos impacientam um pouco, incomodam em alguns instantes, pois Wim Wenders parece não ter interesse em ser dinâmico e focar no apelo dramático e nas lágrimas instantâneas. Nesse ponto, a culpa é toda nossa, pois nos tornamos, de certa forma, espectadores com pouco tempo para pensar e imersos na cultura frenética contemporânea: até na rua estamos com nossos celulares, respondendo e-mails, preenchendo formulários, enviando áudios via aplicativos, curtindo publicações nas redes sociais.

Por outro lado, há algumas falhas na construção do roteiro do filme. O personagem de James Franco não evolui o suficiente para nos relacionarmos com ele. A cena do acidente, a deflagração do conflito e o surgimento dos pontos de virada da produção não nos aproximam dos personagens para o bem do processo catártico. Algumas situações, propositais ou não, são captadas à distância, o que infelizmente também distancia o espectador da obra, pois um filme não é feito apenas de belas imagens: é preciso um roteiro coeso, seguro e convincente, recheado de bons diálogos, características que passam apenas na margem desta obra.

Tudo Vai Ficar Bem (Every Thing Will Be Fine – Alemanha, Canadá, França, Noruega e Suécia 2015)
Direção: Wim Wenders
Roteiro: Bjorn Olaf Johannessen
Elenco: James Franco, Rachel McAdams, Charlotte Gainsbourg, Peter Stormare, Patrick Bauchau, Robert Naylor, Jack Fulton, Julia Sarah Stone, Marie-Josée Croze.
Duração: 118 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.