Crítica | “Tupi, Or Not Tupi” – Fabio Brazza

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estrelas 4

Tupi, Or Not Tupi (2016), título vindo do Manifesto Antropofágico, de Oswald de Andrade, é o segundo disco do rapper paulistano Fabio Brazza, um álbum que apresenta grande crescimento musical e lírico do artista, em relação ao seu já ótimo primeiro CD, Filho da Pátria (2014). Inicialmente marcado por uma sonoridade crua, verborrágica (no bom sentido, mas que às vezes incomodava por não dar espaço para a canção respirar no momento certo), o músico cresceu e utilizou sua experiência de ter morado fora do Brasil por um tempo, e então, passou em revista suas raízes familiares — ele é neto do poeta concreto Ronaldo Azeredo — e sua visão da riqueza cultural do Brasil para compor e idealizar um dos discos nacionais mais interessantes de 2016.

Com produção de Léo Casa 1 e Marcelo Calbucci (na faixa De Volta Para o Futuro), o álbum não nega o orgulho que tem da música brasileira e une o hip hop a vertentes da nossa safra, como forró, repente, moda de viola, samba, lundu e música indígena, além de gêneros miscigenados que vieram de fora, como o reggae e o R&B. A produção rica, muito bem executada musicalmente e com letras que vão do ufanismo patriota à crítica dura ao Brasil contemporâneo, lembra um álbum relativamente recente de rap, que apostou não só na mistura de gêneros e estilos, mas também no olhar majoritariamente voltado para aquilo que o Brasil tem de bom, apesar dos políticos e da situação econômica e social atuais, o ótimo Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa (Emicida, 2015).

Trazendo a Antropofagia modernista para o rap nacional, Brazza segue germinando, com muita competência, um ramo da nossa música contemporânea mais reflexiva, provocativa e plural. Superada a crítica tacanha de que sua condição social privilegiada o impediria de fazer rap (já vimos esse filme, no passado, em relação a Gabriel, o Pensador), o músico voltou sua atenção para aquilo que sabe fazer de melhor: psicografar escrever, refletir, poetizar. E com isso, estabeleceu um ciclo encabeçado pela primeira e última faixa, Mistura Aê (Intro / Final), uma exposição do povo, sangue, riquezas e pobrezas entoadas num cântico indígena e negro com direito a declamação e trecho de rap ao final, trazendo versos de pluralidade cultural imensa, como esses aqui: Do Oiapoque ao Xuí / Hip-Hop Tupi, tropicália tupã / Xangô chamou Xamã, oh xente O rap aqui sempre foi cururu embolada e repente. A faixa final é quase uma repetição da primeira, só que bem mais curta e com um arranjo levemente diferente (mais africano), marcado por um beat box e um vocal de apoio estrondoso. Excelente sacada para fechar a roda cultural sem fugir ao tema do álbum.

Hip-Hopnotizado é o desabafo e, ao mesmo tempo, declaração de amor de um “rapper do samba” que sabe brincar como ninguém com palavras parônimas (relação que apresentam um sentido diferente e forma semelhante à outra, que provoca, com alguma frequência, confusão), como já é possível perceber do título. Durante todo o disco vemos esse exercício nas letras, cada um mais interessante que o outro. Nesta faixa, o samba vem leve, tirando sarro de si mesmo, abraçando o rap como um amigo improvável, quebrando a barreira que dá a oportunidade para a chegada de outro mais clássico, com raiz em Já Fui Uma Brasa, de Adoniran Barbosa. Uma Brasa tinha sido lançada como single pelo Rap Box, mas sem a intro de samba e com produção mais crua. O trabalho final, no disco, é de um imenso capricho, com uma ligação bela e coerente entre os dois gêneros. Com certeza, uma das melhores faixas de Tupi.

A primeira participação especial vem em Hey João (sem relações com Hey Joe), e traz Arnaldo Antunes e sua voz potente em uma lição de cidadania e incitação ao pensamento crítico, uma alfinetada em todos os que acham que política é como um contrato de software: não se lê o contexto, aceita-se o que acha que é, e sai usando, falando mal ou bem com base em uma experiência vendida por mídias partidárias e conjuntura que dá a entender uma melhora, mas executa um retorno de algo que já havia se provado ruim para a maioria [notadamente pobre], praticamente uma profecia sobre o resultado das eleições de 2016.

De Volta Para o Futuro é o momento em que Fabio Brazza olha para o lado podre do presente, mescla livros que estava lendo no momento (1984 e Admirável Mundo Novo) e cria uma versão sobre o mundo nos anos 3000. Apesar do refrão plácido, com participação de Isadora Morais, o clima é denso, acompanhando, como deveria, o peso da letra. É a faixa mais pesada do disco — considerando o todo — e uma das poesias mais inteligentes de Brazza. Na sequência, A Gente Gosta de Inventar, com participação de Caju e Castanha, quebra-se o clima apocalíptico e coloca-se em cena a música nordestina, mesclando forró e repente (revisitado indiretamente em Brasil de Norte a Sul, mas sem muito capricho e com excessos estranhos para um álbum tão bem produzido — a letra, no entanto, segue notável) e falando de apelidos e pseudônimos de uma série de artistas brasileiros. Em certa medida, me lembrou a aglutinação de nomes feita por Lenine em Todas Elas Juntas Num Só Ser, mas dentro de outro gênero e com os pés na nossa terra, com o nosso humor. A mudança leve na métrica, na parte final, mostra que Brazza realmente sabe o que está fazendo dentro do mundo da poesia e do cordel, e isso é encerrado com uma batalha de apelidos entre ele e os dois convidados. É genial!

Apesar do assumido clichê de Sabe, que traz Paula Lima para validar a tendência R&B da faixa, a mensagem é bonita e honesta, mesmo não estando entre as melhores do disco. As duas canções seguintes, Moda de ViolaAiyra Ibi Abá apresentam incursões em dois diferentes gêneros, o primeiro bem óbvio, porque o título já entrega a base (a faixa é realmente boa, mas a finalização grave dos versos poderia ter sido melhor pensada, para dar um corte da sílaba mais direto ou um fade out que servisse para todas as finalizações, o que não é o caso); e o segundo, o reggae, com a participação do Mato Seco, uma das faixas mais bem produzidas, principalmente pela interação coesa entre refrão e estrofes, mais a diversificação instrumental e vocal.

Ao lado do Grupo Reduto, temos Brasil Que Pode Dar Certo, um samba mais melódico, próximo ao pagode, com uma mensagem social valiosa (Um Brasil que não seja de poucos / Mas que seja de fato um pouco de nós), que se completa com a última faixa, antes da revisão de Mistura Aê, Imagina Como Seria, um bárbaro poema declamado ao som do violão, um tipo de sonho literário que mostra as raízes do compositor (tanto em música quanto em poesia) e olha com a devida desconfiança para o pop vazio que tem tomado conta da cena musical brasileira e mundial. Maneira simples e bonita de terminar o disco.

Tupi, Or Not Tupi é um disco que ouvimos com um sorriso no rosto. Sem nenhuma música que podemos chamar de ruim — apenas com algumas escolhas menos interessantes da produção, que no entanto, não estragam as faixas em que aparecem — o álbum mostra grande maturidade de Fabio Brazza em relação ao seu álbum de estreia e planta uma semente de mistura de gêneros que pode ser o início de uma elogiável fase em sua carreira. Como diz em A Gente Gosta de Inventar, além dele, quem ganha com isso é a música popular. E que ganho! Matheus Mangili, meu amigo, muito obrigado por me indicar a audição!

Aumenta!: Uma Brasa
Diminui!: —
Minhas canções favoritas do álbum: A Gente Gosta de Inventar,  De Volta Para o Futuro  

Tupi, Or Not Tupi
Artista: Fabio Brazza
País: Brasil
Lançamento: 23 de agosto de 2016
Gravadora: Independente / Berger Móbile
Estilo: MPB, Samba, Rap

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.