Crítica | Turma da Mônica – Lembranças

plano critico turma da monica lembranças graphic msp

Este é um dos casos de quadrinhos com extras em que chegamos às páginas finais e pensamos: eu trocaria todas essas informações adicionais só para ter mais um pouquinho de história. E nesse caso, o pensamento não vem porque a história é tão incrível que seria interessante ver mais um pouco do plot. Ou até poderia. Mas desta vez, a questão é de necessidade narrativa mesmo. Falta algo no término de Turma da Mônica – Lembranças, o encerramento da trilogia com a Turminha (a pedido dos próprios artistas) levada a cabo por Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi para o projeto Graphic MSP.

Após o sucesso da excelente Laços (2013) e de sua ótima continuação, Lições (2015), os irmãos mineiros resolveram encerrar a sua participação nas graphic novels inspiradas nos personagens de Mauricio de Souza com um misto das duas histórias anteriores, embalando momentos tristes, delicados, tensos, sacanas, fraternos e cheios de alegria em toda a jornada do grupo. Aliás, é impressionante como a maturidade que o projeto ganhou com as histórias Mônica – ForçaBidu – Juntos, ambas de 2016, foram bem incorporadas aqui, fazendo o Universo funcionar de maneira bastante coerente sem nunca comprometer a identidade dos artistas envolvidos e dos personagens em destaque. Mas nem tudo são flores.

O projeto narrativo de Lembranças fica, para dizer o mínimo, bastante confuso quando procuramos a intenção geral dos autores diante do título. Não que a trama seja cifrada e o roteiro tão complexo que é impossível decifrar os diálogos. Nada disso. O caso aqui é de uma disparidade muito grande se compararmos a forma como os títulos dos volumes anteriores foram engatados, ou seja, não servindo apenas de alusão ou temática sugerida, mas com um significado particular para a Turminha, marcando fortemente este fase de seu desenvolvimento. Aqui, o título é quase uma citação simplória para o que temos de fato colocado no enredo, uma vez que os flashbacks não são novidades nas HQs dos Cafaggi com a Turma e nem a mescla de tempo passado e futuro sob um ângulo experiências emocionais e até de “moral da história”. Nesse caso, o título Lembranças e a forma narrativa escolhida pelos roteiristas, [quase] se encaixando no todo, parece ter sido eleito apenas pela referência gramatical, fazendo todas as revistas da trilogia começarem com a letra L e terminarem com Ç na última sílaba.

turma-da-monica-lembranças-vitor-cafaggi-lu-cafaggi-plano critico

Momento fofura: Mônica e Cebolinha bebês. Início de uma tradição que marcaria para sempre a relação entre a “golducha” e o “calequinha da língua plesa”.

Por um lado temos uma má ordenação das tais “lembranças“, embora com momentos muito bonitos do quarteto bebezinho, mas sem real funcionalidade dentro da história, o que foge completamente do rigor desse tipo de uso que os Cafaggi tiveram em Laços e Lições. Por outro, a graphic novel funciona muito bem ao retratar o momento presente, que é a parte de fato inspiradora e bem escrita de Lembranças (percebem a falta de coesão?). É muito bom — e triste também — vermos problemas sérios retratados no texto, como o bullying e o isolamento de algumas crianças da escola, tendo os dois casos uma participação bonita dos quatro amigos para resolver os problemas. Apenas a formação do Clubinho fica solta no final, embora este ponto não incomode tanto assim.

Há uma bela aplicação de cores, diferenciação nos traços e finalização para as cenas do passado e do presente. A paleta aqui é um tanto mais escura que a das obras anteriores, mostrando um momento à frente na vida dos personagens — ver o Cebolinha e Cascão na loja de gibis ou o Cebolinha demonstrando sua paixão pela Xabéu é simplesmente adorável –, salientando o clima de tensão na perseguição sofrida pelos meninos na escola e a atitude nada legal de Carminha Frufru em ralação à Mônica. Eu só não entendi o verdadeiro motivo da diagramação e escolhas nas seguintes páginas:

  • 28: é visível a intenção de ressaltar o isolamento na casa, mas aqueles dois quadros mixurucas no meio de uma página daquele tamanho e com uma fluidez visual tão grande nas páginas próximas simplesmente não combinam;
  • 40: o plano do Cebolinha para o Clubinho é incrível. Mas não era necessário gastar uma página inteira para mostrar todos os detalhes. Citações rápidas de uma coisa ou outra que ele fizesse teria até melhor efeito;
  • 47: simplesmente vergonhoso. Novamente, é clara a tentativa de mostrar isolamento, pequenez diante da situação, mas existem centenas de maneiras de dar esta sensação sem ter que colocar um só retângulo em uma página, quando este modelo não combina com o todo da HQ.
  • 64: esta página é linda. Mas convenhamos: ela não faz, esteticamente falando, nenhum sentido ali no meio da história.
  • 87: prova cabal de mal uso do espaço no decorrer do volume. Última página da história com uma conversa cheia de alusões e com colocações genéricas sobre o tema de “fazer coisas legais nas férias” que se tinha levantado antes.
turma-da-monica-lembranças-vitor-cafaggi-lu-cafaggi-plano critico-1

Já brinquei de tudo!“. Quem nunca?

Lembranças é uma história que tem acontecimentos muito bonitos no tempo presente e trabalha temas atuais com os quais crianças, adolescentes, jovens e até adultos podem facilmente se relacionar. Este ponto do roteiro de Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi é intocável. A captura das estranhezas emocionais da infância, a amizade e a quantidade enorme de momentos de fofura aquecem o coração do leitor. Todavia, o uso do elemento principalmente do volume, as lembranças, e algumas escolhas na diagramação das páginas nos fazem questionar se estamos realmente falando da dupla responsável por duas excelentes histórias anteriores da Turma da Mônica no selo Graphic MSP. Embora não se despeçam do projeto com tantos louros como se apresentaram, os irmãos terminam a trilogia de forma bem acima da média. Apesar dos erros, deixaram um final terno e realista. Mais um capítulo na história da Turma se encerra.

Turma da Mônica – Lembranças – Brasil, dezembro de 2017
Roteiro: Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi
Arte: Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi
Cores: Flávio Markiewicz, Paula Markiewicz, Vitor Cafaggi (presente), Eduardo Damasceno, Lu Cafaggi (flashbacks)
Editora: Panini Comics, Graphic MSP, Mauricio de Souza Editora
Páginas: 98

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.