Crítica | “Twin Fantasy” – Car Seat Headrest

“The ocean washed over your grave
The ocean washed open your grave”

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A transição da adolescência para a vida adulta já deu frutos maravilhosos para a o mundo da música. Um tema tão recorrente que talvez seja a crise de identidade mais profunda que temos durante nossa vida. Will Toledo, a grande mente por trás da alcunha de Car Seat Headrest, criou uma obra muito centrada nesse tema justamente quando passava por este período de questionamentos. Liberado no bandcamp em 2011 – onde se tornou um álbum lo-fi cultTwin Fantasy arquiva as dúvidas e sentimentos inquietantes de um jovem Toledo de 19 anos. Eis que 7 anos depois, o artista decide retornar para a obra e finalizar o trabalho com uma melhor produção e alguns ajustes nas letras, considerando a notoriedade que o Car Seat Headrest ganhou desde seu comentado Teens Of Denial (2016).

E logo nas duas primeiras faixas – My Boy (Twin Fantasy) e Beach Life-In-Death (que juntas passam de 15 minutos) – temos uma explosão de emoções. Uma série de versos de um personagem se descobrindo socialmente e sexualmente, desesperado por encontrar seu lugar, desabafando sobre o cotidiano, relacionamentos mal acabados e memórias perdidas. Há uma nostalgia exitante na forma de Will Toledo enxergar o passado, um ar de saudade que, ao mesmo tempo, não esconde arrependimentos. Apesar de não possuir uma performance feita para todos, o vocalista incorpora um vasto catálogo de interpretações mesmo através de sua voz tímida e distante, indo desde sussurros a gritos de desespero. “I never came out to my friends” (Eu nunca me assumi para meus amigos) – a honestidade na voz do cantor a cada confissão é algo tocante.

Toledo tem toda razão quando define seu trabalho como algo além do gênero indie rock. Embora muitos divulguem Twin Fantasy como uma chama de salvação para um gênero que anda parado, temos aqui um álbum que mistura múltiplas influências, um conteúdo que vai do pop dançante ao progressivo (faixas que vão de 13 a 16 minutos). Nervous Young Inhumans e Bodys parecem feitas para as pistas com seu ar dançante extremamente calcado em The Strokes (que por sua vez demonstra uma influência gritante por toda a obra) com linhas de guitarras parecendo feitas pelo próprio Albert Jr. Hammond. Cute Thing – que mescla perfeitamente linhas de guitarra com o teclado, provocando uma sonoridade catártica – garante um potencial hit através de seu refrão grudento e sua vibe animada e harmônica.

“These teenage hands/ Will never touch yours again” (Essas mãos de adolescente nunca tocarão as suas de novo), canta Will em Famous Prophets (Stars), a canção síntese de Twin Fantasy. É onde todos os dilemas do artista são confrontados, quando este abraça seu verdadeiro eu (“And when the mirror breaks/ I wouldn’t miss it for the world”). E tudo isso é apresentado através de um caos instrumental épico de 16 minutos, passando por momentos intimistas ao piano, tempestades arrebatadoras de guitarras, gritos de fúria e culminando com a citação perfeita para o tema explicitado: os versos de Coríntios 13:11 (“Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança...”).

A citação que abre esse texto – O oceano molhou o seu túmulo/ O oceano molhou e abriu seu túmulo – repetida em exaustão nas duas maiores canções do álbum serve como o grande argumento de Twin Fantasy. Não há como escondermos quem somos. Não importa quantas crises tenhamos que passar, algum momento nosso verdadeiro eu precisa ser enfrentado e com ele todos os problemas típicos de uma vida adulta. Esse era, sim, um trabalho que precisava ser regravado da melhor forma possível e o Car Seat Headrest demonstrou sensibilidade ao perceber o valor absurdo de sua obra. Um discurso sobre amadurecimento feito de maneira exemplar, de uma forma que só mesmo a primeira das artes saberia transmitir com tamanho impacto.

Aumenta!: Beach Life-In-Death
Diminui!: Stop Smoking

Twin Fantasy
Artista: Car Seat Headrest
País: Estados Unidos
Lançamento: 16 de fevereiro de 2018
Gravadora: Matador Records
Estilo: Indie Rock

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.