Crítica | Twin Peaks – The Return: Part 1

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estrelas 4,5

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Quando Twin Peaks foi cancelada pela ABC, em 1991, em sua 2ª Temporada, o público não necessariamente surtou com o cancelamento, devido ao mal desempenho da série na maior parte daquele ano, mas certamente lamentou porque os episódios finais trouxeram um grande número de possibilidades dentro da série, abrindo várias portas e deixando a curiosidade sobre o que poderia acontecer a partir dali. No ano seguinte veio o longa-metragem Os Últimos Dias de Laura Palmer (Fire Walk with Me), e o diretor David Lynch afirmou naquela ocasião que tinha mais dois projetos dessa franquia em andamento, um filme para continuar a 2ª Temporada e outro para concluir a saga.

No entanto, as coisas não saíram como ele previu. Envolvido em pequenos projetos televisivos e curtas, Lynch acabou voltando para os cinemas em 1997, com Estrada PerdidaMark Frost também seguiu o caminho, passando um período como roteirista da série Buddy Faro, em 1998. Daí em diante, entre períodos de pausas criativas, gravação de documentários sobre Twin Peaks e ocupações em cinema, TV e literatura, os parceiros chegaram à conclusão de que a franquia estava completamente morta, como disse o próprio Lynch à Empire, em 2001. Seis anos depois, a chama desta cidade misteriosa se reacendeu quando da preparação para o lançamento do Blu-ray The Complete Mystery, que nas entrevistas do elenco (especialmente na fala do ator Ray Wise — Leland Palmer), dava indícios de que algo estava acontecendo nos bastidores.

A informação definitiva veio no dia 6 de outubro de 2014. A Showtime anunciou que produziria 9 episódios (número depois aumentado para 18) de Twin Peaks, com Lynch e Frost no comando. Já neste momento, todos os envolvidos fizeram questão de frisar, dia após dia, que não era um reboot, mas de uma continuação. Alguns problemas de agenda e cachê para Lynch aconteceram em 2015, mas os acertos com a Showtime não só confirmaram seu total envolvimento com a nova série, como também aumentaram o número de episódios e, a pedido do diretor, trouxeram Angelo Badalamenti de volta como compositor.

Com a maior parte do elenco original envolvido e enorme expectativa de velhos e novos fãs, Twin Peaks retornou no dia 21 de maio de 2017, tendo exibição aqui no Brasil pela Netflix. O episódio faz um caminho muito importante para introduzir aos espectadores a continuação, 25 anos à frente de Além da Vida e da Morte, o último episódio da série original. A introdução é basicamente uma mescla de cenas vistas no passado com uma misteriosa sequência em preto e branco do Gigante (Carel Struycken) com o Agente Cooper (Kyle MacLachlan) no Black Lodge. Temos lapsos de uma garota correndo na parte de fora do Colégio; a foto de Laura Palmer; a região do Great Northern Hotel e a reintrodução de alguns personagens, como Dr. Lawrence Jacoby (Russ Tamblyn), que é um dos primeiros a aparecer e é um dos que mais a gente tem perguntas sobre e Ben Horne (Richard Beymer), que junto de seu irmão Jerry, tem o bloco mais fraco e desconexo dessa estreia.

A impressão que temos deste novo Piloto é que Lynch e Frost escreveram um roteiro que mistura o filme Eraserhead (1977) com os mistérios aparentemente adormecidos depois do último encontro de Cooper com Laura, no Black Lodge. Havia uma promessa: “nós nos reencontraremos daqui a 25 anos“. Diferente do que uma parte da crítica internacional andou escrevendo, não existe “desleixo” da parte dos roteiristas e muito menos da parte do diretor em reapresentar os mistérios. É simples entender que em um Universo cheio de simbolismos, é necessário tempo para que as coisas se desenvolvam. Não se esqueçam que temos aí manifestações malignas ou quase-malignas como BOB e MIKE/O Homem de Um Braço; “seres de luz” ou “seres das sombras” [não das trevas!] como O Gigante e o Homem de Outro Lugar; pessoas que se conectam como o mundo espiritual, como a Senhora do Tronco, o Delegado Hawk e o Major Briggs… e levando tudo isso em consideração, qual é a dificuldade em entender que as forças que moveram aquele período da história de Twin Peaks resolveram se retirar, fazendo uma promessa de que voltariam dali a 25 anos e… voilà, retornando de fato 25 anos depois! Onde está o furo de roteiro?

Posto o entendimento da passagem do tempo, é lícito encaixarmos todas as mudanças. Temos mais tecnologia e o episódio é entrecortado por cenas em diversos lugares, tudo, aparentemente desconexo, mas dirigido e editado com brilhantismo, sugerindo futuras conexões. E é aí que pululam as pistas, os novos significados, os novos personagens que passam a ser tocados pelas forças misteriosas. Os mais velhos sentem que algo está a caminho. O telefonema da Senhora do Tronco para o Delegado Hawk é um exemplo. A movimentação do Sr. C (seria Cooper, após desaparecer, conforme disseram Lucy e Andy?); um novo assassinato e a Caixa de Vidro também servem como sugestões nessa seara. Mais perguntas. Mais símbolos. Nenhuma resposta.

Ter uma Caixa de Vidro logo no primeiro episódio — como elemento de espera, vida e morte — é um recado importante da carga de coisas que vão aparecer e das conexões possíveis. Símbolo feminino, a caixa representa o inconsciente e o corpo materno (notem que Sam, o personagem de Ben Rosenfield, tem o trabalho de olhar para a Caixa e ver o que aparece lá dentro, ou seja, o momento em que ela “dará à luz”), sempre trazendo um segredo, “separando do mundo aquilo que é precioso, frágil ou terrível“, como define Chevalier em sua obra. A caixa protege, mas pode sufocar. Pode ao mesmo tempo trazer coisas boas e coisas ruins, como a famosa Caixa de Pandora.

É necessário, portanto, saborear o mistério dessa abertura e aguardar os nascimentos. Os espíritos do Black Lodge voltaram. E eles estão reiniciando um novo ciclo, quase repetindo coisas que deflagraram da “primeira” vez que se manifestaram. O assassinato é um exemplo, o fato gerador, o momento que corrompe a linha do tempo daquele espaço e que irá se espalhar, como um vírus, por toda a cidade, além de atrair e juntar várias pessoas aparentemente desconectadas do caso. Com hábil direção de David Lynch, atuações aplaudíveis e ritmo intenso, Twin Peaks retorna com um dourado e colossal ponto de interrogação. Que bom! Estamos de novo em casa.

Twin Peaks – The Return (3ª Temporada): Part/Episode #1.1 (EUA, 21 de maio de 2017)
Direção: David Lynch
Roteiro: Mark Frost, David Lynch
Elenco: Kyle MacLachlan, Jane Adams, Joseph Auger, Melissa Jo Bailey, Richard Beymer, Michael Bisping, Brent Briscoe, Bailey Chase, Catherine E. Coulson, James Croak, Kathleen Deming, Erica Eynon, Allen Galli, James Giordano, Harry Goaz, George Griffith, Cornelia Guest, Michael Horse, Ashley Judd, David Patrick Kelly, Dep Kirkland, Nicole LaLiberte, Sheryl Lee, Max Perlich, Kimmy Robertson, Ben Rosenfield, Emily Stofle, Russ Tamblyn, Redford Westwood, Madeline Zima
Duração: 60 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.