Crítica | Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer

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estrelas 3

A série Twin Peaks teve dois grandes momentos durante a sua curta curação. A 1ª Temporada é um verdadeiro mar de criatividade e mistérios, com inserção de elementos espirituais ao longo da investigação do assassinato de Laura Palmer. Durante esse período, David Lynch e Mark Frost estiveram plenamente envolvidos com o show, garantindo a qualidade do produto televisionado e explicando o imenso sucesso que a série teve nos Estados Unidos e no mundo ao longo daquele ano. Já a 2ª Temporada é a que recebeu maior número de críticas negativas, e não é sem motivo. Primeiro, porque trata-se de um longo serial, com 22 episódios, sendo que apenas os 9 primeiros e os três últimos episódios fazem jus à fama e à qualidade esperada da série.

Apesar do fraco desenvolvimento do miolo da 2ª Temporada, seu término foi muito bom, abrindo uma série de portas para um terceiro serial, que só viria acontecer 25 anos depois, em The Return. Como uma forma de “ajustar” e “explicar” o máximo de coisas possíveis da série, Lynch e Frost produziram o longa Os Últimos Dias de Laura Palmer, que estreou em 16 de maio de 1992 no Festival de Cannes e recebeu vaias de praticamente toda a plateia. Seguiu-se aí uma imensa quantidade de críticas negativas à medida que o filme estreava ao redor do mundo e, para piorar a situação, o já esperado fracasso de bilheteria veio a reboque. Anos depois, como acontece com boa parte dos “filmes malditos” de bons diretores, Os Últimos Dias de Laura Palmer ganhou a exagerada e delirante tag de “obra-prima”, tornando-se um cult entre os novos espectadores de Twin Peaks.

É preciso considerar que embora não serja o horror que muitos críticos disseram na ocasião do lançamento, Os Últimos Dias de Laura Palmer não é nem de perto e nem de longe uma obra-prima. Tampouco é um excelente ou um inesquecível filme. Mesmo o mais facilmente impressionável dos espectadores é capaz de chegar à conclusão de que a obra possui muitos problemas de roteiro (a construção da história é picotada sem razão e tudo gira em torno de um desnecessário enigma narrativo; isso, quando deveria explicar e, em última instância, deixar uma linha de mistério subtendida, não fazer de toda a duração da fita uma coleção de grandes temas da série original); possui um problemático desenvolvimento de personagens e, ao menos como compensação, consegue ser realmente válido na parte final do bloco de Laura Palmer, com destaque para a sequência de seu assassinato, que é muito bem dirigida.

Mesmo com algumas ausências em relação ao elenco principal da série — a mais sentida é a da atriz Lara Flynn Boyle no papel de Donna, substituída por Moira Kelly –, toda a identidade e atmosfera das temporadas são sugeridas na película, mas falta algo para fazer com que essa atmosfera ganhe corpo e cresça na obra. Por se tratar de um prequel, o espectador espera que a trama forneça o máximo de elementos possíveis para sustentar o que vem depois, e exige-se que isto seja feito de maneira fluída, não por ser um prequel, claro, mas por ser uma das regras basilares de qualquer bom roteiro. E eis aqui um ponto indiscutível. Este filme tem um boa direção, tem boas atuações (Sheryl Lee é o grandioso destaque, pois está simplesmente maravilhosa!), excelente trilha sonora a cargo de Angelo Badalamenti, ótima fotografia, bons figurinos e direção de arte, mas o roteiro e a montagem simplesmente não funcionam. Aliás, são as duas coisas que se não fosse a âncora para a série, teriam feito deste filme algo definitivamente muito ruim.

Olhando o momento do lançamento, embora tenha havido muito exagero por parte da crítica, é perfeitamente possível compreender o por quê a opinião sobre o longa foi majoritariamente detratora. A truncagem do texto é tal, que chega um momento nas passagens entre blocos que o espectador se irrita por completo. Os cortes são uma verdadeira ciranda aleatória que só encontra uma maior força na linha de Laura Palmer e, ainda assim, sofre pela desnecessária interrupção para cenas claramente vindas de uma edição mal feita, oriunda de sequências maiores (o primeiro produto tinha 5 horas de duração, era óbvio que o corte para pouco mais de 2h sofreria na qualidade final).

A nossa sorte é que mesmo diante do caos, há informações valiosas fornecidas ao público da série, porém, quem nunca viu o programa simplesmente estará diante de um enigma. Este é um filme para iniciados e isso faz dele uma porta de entrada para a discussão de alguns mistérios de Twin Peaks. Pena que a intenção inicial, de ser um “primeiro contato” para novos espectadores, não tenha sido alcançada. A despeito disso, a obra ainda é uma marca interessante na filmografia de David Lynch.

Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer (Twin Peaks: Fire Walk with Me) — EUA, 1992
Direção: David Lynch
Roteiro: David Lynch, Robert Engels
Elenco: Sheryl Lee, Ray Wise, Mädchen Amick, Dana Ashbrook, Phoebe Augustine, David Bowie, Eric DaRe, Miguel Ferrer, Pamela Gidley, Heather Graham, Chris Isaak, Moira Kelly, Peggy Lipton, James Marshall, Jürgen Prochnow, Harry Dean Stanton, Kiefer Sutherland, Lenny von Dohlen, Grace Zabriskie, Kyle MacLachlan, Frances Bay, Catherine E. Coulson, Michael J. Anderson, Frank Silva, Walter Olkewicz, Al Strobel.
Duração: 135 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.