Crítica | Twin Peaks: Piloto – Versões Original e Internacional, com Final Alternativo (1990)

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estrelas 5,0

Bem-vindos a Twin Peaks. Meu nome é Margareth Lanterman. Eu moro em Twin Peaks e sou conhecida como a “Senhora do Tronco”. Há uma história por trás disso. Há muitas histórias em Twin Peaks. Algumas são tristes, outras são engraçadas. Algumas são histórias de violência, de loucura. Algumas são ordinárias, mas todas possuem um certo mistério. O mistério da vida. Às vezes, o mistério da morte. O mistério da floresta. A floresta ao redor de Twin Peaks. Para introduzir essa história, direi que ela inclui “O Tudo”. Vai além do fogo, apesar de poucos saberem o que isso significa. É uma história de muitos, mas começa com uma. E eu a conhecia. Aquela que nos leva a muitos é Laura Palmer. Laura é a escolhida.

Senhora do Tronco

No dia 8 de abril de 1990, Twin Peaks estreou na ABC. Vinda “do nada” e desde a sua estreia chamando a atenção de milhares de pessoas, demorou apenas uma semana para que o público televisivo dos Estados Unidos se visse fisgado, aprisionado, “conquistado pelo Fogo” e todos os mistérios da série.

A história começa na manhã do dia 24 de fevereiro de 1989, quando Pete Martell sai para pescar e descobre o corpo da jovem Laura Palmer, enrolada em um plástico. Começa aí o mistério do tipo “quem matou?” mais estranho da TV americana, pois não ficaria apenas na investigação do caso, no questionamento de suspeitos e perseguição de pistas, como em um puro programa policial. Já neste episódio, também conhecido pelo título de Northwest Passage (que deveria ser o título da série, aliás!), elementos sobrenaturais são apresentados e demora pouco para descobrirmos o que há por trás das faces inocentes e da até então pacífica e sociável cidade de 51.201 habitantes.

Construir um cânone é algo de grande responsabilidade para showrunners de uma série. É preciso investir não apenas em uma história que chame atenção, mas em um Universo do qual seja possível tirar informações sem que uma miríade de novos personagens sejam apresentados a cada minuto. Este, inclusive, é um dos grandes méritos do Piloto. Depois de introduzido o problema e apresentados os icônicos Xerife Harry S. Truman (Michael Ontkean) e o Agente Especial Dale Cooper (Kyle MacLachlan), os questionamentos dos suspeitos e a torrente de emoções vinda com a comunicação da tragédia para os pais e amigos de Laura, tomam conta da história e mostram camadas e mais camadas de possibilidades, já que todo mundo parece suspeito e, ao mesmo tempo, ter uma história interessante para contar, possivelmente alguma coisa que ligada à jovem assassinada.

Como grande criador de imagens, de personagens multifacetados e Universos dentro de Universos, mesmo em lugares e situações mais improváveis, David Lynch se viu “em casa” quando escreveu, ao lado de Mark Frost, o roteiro para o Piloto. O diretor já tinha provado o que sabia fazer com mistérios, horror e um tipo agressivo de misticismo em filmes como Eraserhead (1977) e Veludo Azul (1986), agora era a vez de por à prova a sua capacidade de erguer um cenário surrealista aos poucos, tendo como princípio um acontecimento violento e, como desenvolvimento, um tipo de crítica social que se mistura com uma ação quase espiritual para o diretor: tirar das pessoas as máscaras de bons cidadãos e mostrar para todos quem esses indivíduos realmente são. Este é um tipo de “revelação da verdade”, de “purificação pelo fogo” que em pouco tempo ganharia força na série e se tornaria parte dos “elementos escondidos de Twin Peaks”, alguns deles, conhecidos de fato apenas na 2ª Temporada.

Existe um quê de nostalgia cinquentista no episódio, que confunde positivamente o público e que faz da cidade de Twin Peaks um lugar ainda mais especial. O elenco jovem e pouco conhecido dá um show de interpretações e já apontava para carreiras sólidas no cinema e na TV. Os atores e atrizes veteranos também entregaram-se por completo. Kyle MacLachlan, Jack Nance (Peter), Joan Chen (Jocelyn), Piper Laurie (Catherine), Ray Wise (Leland), Russ Tamblyn (Dr. Lawrence) e Grace Zabriskie (Sarah) possuem algumas das melhores interpretações e, entre o visualmente exótico à la Fellini e o insano e possuído típicos dos personagens de Lynch, nos dão a impressão de que Laura Palmer estava cercada de pessoas perturbadas. E que a cidade de Twin Peaks está sendo controlada por um esquema de corrupção e crimes de diversas ordens que, à primeira vista, ninguém jamais imaginaria. O sucesso do roteiro é o estabelecimento de todos esses dados sem entregar demais e sem deixar perguntas erradas para o público. É o tipo de enredo perfeito para fisgar o espectador e criar nele a vontade de descortinar a cidade.

A famosa versão internacional do Piloto exibido na TV americana foi feita por Lynch e Frost como uma alternativa, caso a emissora rejeitasse o produto e a série não fosse adiante. Os 22 minutos a mais da versão internacional fazem alteração apenas na parte final, com uma muitíssimo bem filmada sequência de sonho (que depois seria parcialmente utilizada por Lynch no mirabolante episódio 2 da série, Zen, or the Skill to Catch a Killer) e a revelação do assassino, mas de alguém que não havíamos conhecido antes, a dupla MIKE e Killer BOB, que retomam no futuro a frase O FOGO ANDA COMIGO, uma das linhas místicas da série.

A sequência final é praticamente um esquete, porque não se encaixa necessariamente em nada do que foi apresentado antes. Aí vemos a Sala Vermelha, que na temporada seguinte seria identificada ao mesmo tempo como uma passagem, a ante-sala de uma outra dimensão, o Black Lodge (sim, ela é tudo isso ao mesmo tempo). Nesta Sala Vermelha todos falam as palavras de trás para frente, dançam e geralmente andam para trás… a lei da gravidade não existe lá e coisas impossíveis acontecem naquele espaço. Ao fim dessa versão com final alternativo, vemos um cômodo de piso preto e branco, com cortinas vermelhas, sofás pretos, uma escultura grega (da deusa Vênus) e o título do “esquete”: VINTE E CINCO ANOS DEPOIS. Nesta sala, a defunta Laura Palmer e um anão conversam com o agente Dale Cooper (já velho), o responsável pela investigação da morte da jovem.

A pergunta “quem matou Laura Palmer?” é apenas um ponto dentre as muitas coisas excelentes que o Piloto de Twin Peaks nos apresenta e nos deixa questionando, pensando em possibilidades, tentando encaixar as peças de um quebra-cabeça dramático e transcendental. Dava-se aí o início de uma das séries mais corajosas e “fora da caixa” da TV americana. Uma pioneira ao mostrar a desgraça humana em grande estilo estético e narrativo. Nascia um marco histórico da televisão e um dos muitos gatilhos de medo para milhares de espectadores ao redor do mundo.

Twin Peaks: Piloto – Versões Original, Internacional, com Final Alternativo (Twin Peaks – Pilot) — EUA, 1990
Direção: David Lynch
Roteiro: Mark Frost, David Lynch
Elenco: Kyle MacLachlan, Michael Ontkean, Mädchen Amick, Dana Ashbrook, Richard Beymer, Lara Flynn Boyle, Sherilyn Fenn, Warren Frost, Peggy Lipton, James Marshall, Everett McGill, Jack Nance, Ray Wise, Joan Chen, Piper Laurie, Russ Tamblyn, Eric DaRe, Mary Jo Deschanel, Harry Goaz, Gary Hershberger, Sheryl Lee, Grace Zabriskie
Duração: 94 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.