Crítica | Twin Peaks – The Return: Part 2

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estrelas 5,0

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Uma das coisas que sentíamos na série original de Twin Peaks é que mesmo com toda a horda de mistérios e questões sobrenaturais então revolucionárias na TV americana, havia um chão para o espectador pisar, um lugar seguro que lhe permitia respirar e se relacionar com o “mundo normal” que, por motivos posteriormente conhecidos, estava mudando. Pois bem. Nesta 3ª Temporada da série (o nome oficial é Twin Peaks – The Return, só para deixar claro), David Lynch e Mark Frost simplesmente resolveram abandonar qualquer tentativa de suavizar as coisas para o espectador. Não existe nada, absolutamente nada nestes dois primeiros episódios do retorno que soe normal.

Até mesmo blocos que poderiam se enquadrar nessa categoria, como o reencontro no bar, que acontece no final do capítulo, tem referências ao Gigante que apareceu para o Agente Cooper na 2ª Temporada, de modo que assistimos toda a sequência — com um ritmo tão preciso, excelente escolha para a trilha sonora, cortes bem realizados e direção tão limpa que não queremos que acabe, mesmo que não aconteça nada ali — já pensando em coisas ruins, em momentos trágicos para os indivíduos que um dia foram tocados, direta ou indiretamente, por BOB.

Se o Episódio #1 serviu para mostrar as primeiras ações das forças do Black Lodge 25 anos depois de sua manifestação ligada a Laura Palmer, este Episódio #2 serve para mostrar como o passado e o presente se relacionam no mundo espiritual e qual é a aparência que o presente tem, antes de ser descortinado, desmascarado. É aí que entram os melhores pontos do episódio: a não entrega de coisas óbvias e, ao mesmo tempo, a sugestão de pistas importantes para pensarmos alguns personagens, como os vividos por Kyle MacLachlan; um, fisicamente semelhante a BOB (o chamado Sr. C); e outro, o Agente Cooper que divisamos no Salão Negro recebendo as visitas de Leland, Laura, MIKE e encontrando pela primeira vez a Árvore da Evolução, uma formação de galhos secos eletrificados e com uma cabeça que tem um pedaço de carne (ou algo parecido com o “bebê” de Eraserhead e com a cabeça da criatura que atacou os jovens no episódio passado) que diz para Cooper ficar de olho em sua réplica.

Agora vejam que mesmo com toda a loucura, temos uma referência importante no enredo, que é a ação do DUPLO. Da literatura de Poe (William Wilson, 1839) e Dostoiévski (O Duplo, 1846) aos tempos da descrição de modelo do estádio do espelho, de Lacan [1. Aquele que eu vejo me olhando no espelho é um outro. 2. Aquele que eu vejo me olhando no espelho não é um outro, mas uma imagem. 3. Aquele que eu vejo me olhando no espelho é a minha imagem. Agora posso brincar com ela.], temos aqui um episódio não só visualmente estonteante — Lynch sabe muito bem como criar uma atmosfera de terror e como colocar a câmera nos lugares mais improváveis de um cenário –, mas um excelente trabalho dramático com essa questão da cópia, que em um só tempo começa a costurar a Série Original com The Return e sugerir que estamos de volta ao jogo das múltiplas dimensões, onde não só Tempo & Espaço são manipuláveis, mas também a percepção de mundo e da realidade que temos entram em parafuso.

A aparição do Cavalo Pálido e a citação do Major Briggs aparecem em uma boa hora, assim como o início das sugestões sobre quem é a pessoa por trás dessa busca por outras dimensões, um bilionário temível que mantém o experimento da Caixa e, ao que tudo indica, outros projetos sobrenaturais em andamento. Em paralelo temos a cópia de Cooper se mostrando consciente de que “será sugada” para o Black Lodge, mas se recusa a isso. Notem que na cena onde Cooper abre a cortina do Salão Negro e, na rodovia abaixo, vemos este Sr. C passando de carro na mesma hora, a Árvore da Evolução (do braço de MIKE, pelo visto — mas ela representa “a voz das cópias” nesse Universo) fica amarela e agressiva, como se estivesse doente, infectada, influenciada por algo maligno. É justamente neste momento que Cooper é expulso do Black Lodge e vai parar na Caixa que vimos no episódio anterior, não necessariamente fechando, mas dando coerência ao círculo de mistérios que rondam este começo de temporada.

Insano, cheio de humor negro (impossível não rir de nervoso quando a árvore faz o barulho com a “boca”), mergulhado em questões transcendentais, instalações artísticas, psicanálise, drama de mistério e conceitos éticos e/ou esotéricos para o bem e o mal, este episódio é a prova de que nem Lynch e nem Frost estão a fim de fazer concessões e que nesta Temporada eles nos farão passear por pesadelos dentro de pesadelos. The Return é claramente uma continuação mais sombria e mais surrealista (se é que isto é possível) de Twin Peaks. As nossas definições de cérebros explodidos após episódios e de uma temporada de cartazes mentais com letras garrafais escritos “O QUE É QUE ESTÁ ACONTECENDO???” foram atualizadas.

Twin Peaks – The Return (3ª Temporada): Part/Episode #1.2 (EUA, 21 de maio de 2017)
Direção: David Lynch
Roteiro: Mark Frost, David Lynch
Elenco: Kyle MacLachlan, Joe Adler, Mädchen Amick, Steve Baker, Brent Briscoe, Gia Carides, Catherine E. Coulson, Neil Dickson, Patrick Fischler, Balthazar Getty, George Griffith, Cornelia Guest, Michael Horse, Nicole LaLiberte, Sheryl Lee, Jennifer Jason Leigh, Matthew Lillard, James Marshall, Walter Olkewicz, Ben Rosenfield, Frank Silva, Al Strobel, Jessica Szohr, Jake Wardle, Ray Wise, Grace Zabriskie, Madeline Zima
Duração: 55 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.