Crítica | Twin Peaks – The Return: Part 14

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estrelas 4,5
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Um bom número de conversas que tive com leitores nas últimas semanas foram sobre o ritmo dos episódios desse retorno de Twin Peaks e o quanto isso tem sido progressivamente frustrante, apesar de a maioria de nós estar gostando do serial como um todo. Então chega a Parte 14 e o senso de unidade da série, mesmo com o ponto de contemplação (agora sim, correto) e “lentidão narrativa” (também utilizado corretamente) em evidência, ganha asas e começa a nos dar todos os indícios possíveis para se fechar o ciclo, o que é um ganho imenso para o programa. Considerando que os dois últimos episódios serão exibidos no mesmo dia, temos apenas mais 3 semanas de Twin Peaks e já era de se esperar que as coisas começassem a acontecer. É tarde. Mas é melhor que nada.

O primeiro grande momento do capítulo vem quando descobrimos sobre o primeiro caso Blue Rose, que se passou em 1975. Como estamos falando de uma fusão de tempos e parece que voltamos ao excelente dilema das “forças despertando”, algo que já havia sido sugerido nos episódios 1, 2 e 3 deste retorno, a conversa sobre os casos Blue Rose se torna orgânica e traz para análise algo que Tammy (Chrysta Bell) disse para Albert (Miguel Ferrer), referindo-se ao desaparecimento não natural da mulher que abriu o famoso caso da rosa azul. Tammy compara isso à Tulpa, que é um conceito dentro do misticismo que fala sobre um corpo ou objeto criado apenas através de poderes mentais, vindo do ideal tibetano de “emanação” e “manifestação”.

Levemos em consideração o portal entre mundos que aparece próximo ao Jack Rabbit’s Palace, para onde Bobby (Dana Ashbrook), Andy (Harry Goaz), Hawk (Michael Horse) e o Xerife Truman (Robert Forster) vão, cumprindo o esperado encontro marcado pelo Major. Para ser sincero, dado o estardalhaço feito em relação à data e ao espaço onde isto aconteceria, eu esperava que fosse algo mais impactante, mas não estou descontente com o que veio. O roteiro aqui está azeitado e foi organizado bem o bastante para fazer com que os 55 minutos do episódio estivessem plenamente conectados, dando importância conjunta para todos os blocos, exatamente como deveria ser. Neste lugar, os policiais encontram a personagem Naido (Nae Yuuki), a mulher sem olhos que ajudou Cooper em sua passagem do Black Lodge para a nossa dimensão e depois desapareceu no espaço, na Parte 3. Quem é ela? Qual o seu verdadeiro papel? Ela parece ter o mesmo tipo de bloqueio dos indivíduos fora de suas dimensões originais. É possível esperar daí algo importante nos próximos episódios.

A montagem desta Parte 14 conseguiu um dos melhores lugares em toda a temporada. E novamente destaco a organicidade dos eventos do roteiro, porque não adianta simplesmente uma boa presença técnica (como foi em toda a série, dede a estreia) e um texto que sofre de injustificável paralisia (como no caso de pelo menos 5 episódios até agora). A leveza com que a passagem de um momento para outro ocorre aqui é aplaudível, além do fato de todo o excesso ter sido cortado e dado lugar para algo objetivo, mesmo que suas indicações ainda estejam por se revelar de forma mais ampla, como o sonho de Cole com Monica Bellucci e a reflexão sobre sonhos dentro de sonhos e o próprio questionamento da realidade (a parcela de fãs que sustentam a ideia de que todo esse The Return está se passando na mente de Audrey, que está em coma, deve fazer festa nesse momento).

À medida que passamos de bloco para bloco a fotografia ganha mais contraste, até que em sequências noturnas temos dois acontecimentos de destaque. O primeiro, a conversa entre James Hurley (James Marshall), agora trabalhando como segurança no The Great Northern Hotel, e Freddie Sykes (Jake Wardle), o garoto da luva verde — o Punho de Ferro de Twin Peaks — que encontrou o “Bombeiro” (Carel Struycken) e recebeu dele uma direção, da mesma forma que Andy, ao ser levado para um dos Lodges, teve visões do cânone da história secreta de Twin Peaks e saiu resoluto do local, salvando Naido e abrindo as portas para um futuro mistério. A cena entre James e Freddie é simples, mas com boas informações; um diálogo muito bem levado pelos dois atores, com uma direção dinâmica e entorno mais escuro, acabando com um cliffhanger para o que James pode encontrar em sua ronda noturna. Teria alguma coisa a ver com o barulho que se ouvia dentro do Hotel? 

O segundo acontecimento se dá com Sarah Palmer (Grace Zabriskie), que “tira o rosto”, exatamente como Laura o fez, no Black Lodge, e provavelmente manifestou ali a criatura que devorou os dois jovens na sala com a caixa de vidro, logo no começo da série. Toda a sequência é tensa, com uma partitura suave e pontual acompanhando os eventos; uma fotografia de cor quente que nos confunde, poque ao mesmo tempo que indica boa recepção dos indivíduos no bar dá a entender uma ameaça vindoura, que se justifica pela “mordida” que o homem recebe no final, além de contar com uma excelente atuação de Grace Zabriskie.

Aqui descobrimos que Diane (Laura Dern) é meia-irmã de Janey-E Jones (Naomi Watts), apontando para mais um importante vínculo na série; e vemos também a recolocação de Philip Jeffries (personagem vivido por David Bowie em Os Últimos Dias de Laura Palmer) na história, indicando uma duplicidade num relato de Cole sobre sonhos do presente que trazem lembranças do passado. Esse agrupamento de variantes e a interessante forma como foi feito na Parte 14 acendeu as esperanças para um final cheio de imersão e mistérios, como nas duas temporadas passadas. Não falta muito para chegarmos ao fim e descobrir o que existe além da cortina. Se é que existe algo de novo lá.

Twin Peaks – The Return (3ª Temporada): Part 14 (EUA, 13 de agosto de 2017)
Direção: David Lynch
Roteiro: Mark Frost, David Lynch
Elenco: Grace Zabriskie, Chrysta Bell, Miguel Ferrer, Dana Ashbrook, Harry Goaz, Robert Forster, Michael Horse, Nae Yuuki, James Marshall, Jake Wardle, Carel Struycken, Laura Dern
Duração: 55 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.