Crítica | Twin Peaks – The Return: Part 3

estrelas 4

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Dentre as muitas (e esperadas) manifestações de ódio que li desde a Parte Um desta 3ª Temporada de Twin Peaks, as que mais chamam a atenção vêm da cobrança por um sentido imediato do que se vê na tela. E isso espanta quando parte de leitores e espectadores que se denominam “fãs do cinema de David Lynch“. Banhados em didatismo, explicações e coisas fáceis o tempo inteiro, esses espectadores se sentem incomodados o bastante para diminuir uma obra ainda incompleta, e pior, uma obra que se define esotérica, surrealista e nonsense, colocando nesse meio alguns mistérios envolvendo teorias da conspiração, abdução, forças malignas e benignas, teorias do Duplo, psicanálise, filosofia e meditação transcendental.

A incoerência dessa recepção, todavia, não é uma surpresa. Primeiro, porque boa parte dos espectadores não estão acostumados com finais ou desenvolvimentos abertos, e olhem que nem precisa ser algo surrealista, basta não ter resposta de cara para que a incompreensão e a pressa cedam espaço ao ódio e a alvarás de atribuição de estados de espírito aos outros, dizendo: “vocês só gostam disso por obrigação nerd!“, como alguns manifestaram em seus comentários nos textos de Preacher e até mesmo da série original de Twin Peaks. Com tudo isso, a chegada ao selvagem e completamente insano território da Terceira Temporada não deveria ser algo suave, porque, sem amarras e sem a obrigação de se preocupar com a audiência, já que este ano do show foi pensado de maneira fechada, inicialmente sem renovação e com total apoio da Showtime para que Lynch e Frost fizessem o que bem entendessem, os criadores resolvem nos convidar para um passeio por diversas realidades, sem nos poupar bizarrices.

Assistir a um programa de cunho surrealista não é um exercício fácil ou confortável. É uma jornada tão incômoda e às vezes cômica, como assistir aos clássicos Um Cão Andaluz e A Idade do Ouro, ou mesmo caminhar pelo Universo de Lynch em Eraserhead, filme novamente referenciado aqui quando a cabeça do Major Briggs passa por Coooper, em uma das “dimensões espaciais dominadas pelas Forças do Bem”. A cabeça diz as palavras “Rosa Azul”, como uma espécie de aviso ou pista, e em pouco tempo, Cooper consegue passar do Black Lodge para a nossa realidade, um trajeto que o faz visitar diversos espaços, talvez como uma forma de fugir de BOB ou como uma forma de as Forças do Bem ganharem tempo e sugarem o Duplo maléfico de Cooper de volta para o Salão Negro.

Aqui, um outro corpo desse duplo — conceito desenvolvido na Parte 2 — também pode ser visto. Além do Sr. C, que tem suas dias contados na Terra, vemos Dougie, uma cópia benéfica de Cooper “criada para cumprir um propósito“, como diz o Homem de Um Braço, e que retorna para o “seio da criação” no momento em que Dale chega, atordoado, robótico e sem memórias, ao nosso mundo, cumprindo a profecia da mulher da Caixa Espacial, quando disse “no momento em que chegar lá, você já estará lá“. Como se reencarnasse no próprio Duplo (a inserção dos sapatos como “licença para caminhar” e o fato de ser um objeto de uma cópia sua, foi uma colocação genial dos roteiristas), Cooper começa a procurar por ajuda. E se a primeira parte do episódio foi estranha porque representou uma viagem dimensional de um corpo, imaginem a adaptação desse mesmo corpo após a difícil viagem, especialmente depois de ter passado 25 anos em um lugar como o Black Lodge.

O episódio perde um pouco a linha de narração quando há uma quebra para o Dr. Jacoby, que está dourando pás; e não consegue se encontrar muito bem na construção da busca de Hawk. Esta sequência, no entanto, tem um enorme significado para a missão do Delegado, seguindo as palavras da Senhora do Tronco. Pena que a exposição disso se dá de maneira menos interessante do que deveria. O que precisa ser destacado neste ponto é a figura do coelho. Presente e com significados importantes em praticamente todas as mitologias, o coelho (um animal considerado “lunar”) liga-se à antiga divindade da Mãe Terra, encarnando sua a renovação perpétua da vida. Como a Lua, o coelho (e especialmente a lebre), morre para em seguida poder renascer — pela reprodução, fecundidade ou repetição [ou seja, pelo Duplo], não como transfiguração, tal qual a Fênix –, sempre indicando dualidade (pobreza, abundância; loucura, sanidade). Eu conheço algumas simbologias indígenas ligadas ao coelho, mas como nenhuma delas está diretamente relacionada com a tribo dos Nez Perce, da qual Hawk faz parte; ou à religião e mitologias Blackfoot que ele acredita e pratica, é melhor deixar de fora e considerar apenas a simbologia clara que Lynch quis trazer para este episódio.

Como disse no início da crítica, é preciso ter paciência. Nada do que está aqui é colocado à toa (até o “anel perdido”, referência patente desde a autobiografia de Cooper e que também aparece na série original, vem selar essa afirmação). Claro que em alguns momentos, a execução pode não ter o mesmo brilho em todos os blocos narrativos — como é o caso aqui –, mas pelo menos por enquanto, a série vai de vento em popa, chegando ao fim do episódio com uma pausa estratégica para nos fazer pensar e digerir a trama com a The Cactus Blossoms cantando Mississippi, no Big Bang Bar. A volta de mais dois personagens do passado, Gordon Cole e Albert Rosenfeld, certamente tornará as coisas ainda mais interessantes a partir de agora. Novas buscas e uma adequação difícil estão a caminho.

Twin Peaks – The Return (3ª Temporada): Part 3 (EUA, 29 de maio de 2017)
Direção: David Lynch
Roteiro: Mark Frost, David Lynch
Elenco: Kyle MacLachlan, Phoebe Augustine, Chrysta Bell, Don S. Davis, John Ennis, Miguel Ferrer, Brian T. Finney, Meg Foster, Hailey Gates, Harry Goaz, Travis Hammer, Stephen Heath, Michael Horse, Sheryl Lee, David Lynch, Josh McDermitt, Linda Porter, Kimmy Robertson, Al Strobel, Russ Tamblyn, Bill Tangradi, Greg Vrotsos, Nafessa Williams, Nae
Duração: 58 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.