Crítica | Twin Peaks – The Return: Part 5

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estrelas 3,5

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Este quinto episódio da 3ª Temporada de Twin Peaks tem o papel de organizar algumas coisas (as pás de ouro do Dr. Jacoby ou o “dilema de BOB”, por exemplo); trazer personagens antigos (Nadine, Norma, Shelly) e dar algum rumo para os novos problemas, bem como adicionar mais e mais loucuras à saga cômica e já incômoda de Dougie, o Cooper que saiu do Black Lodge atordoado e que está sendo confundido com um de seus duplos — aquele que foi para o Salão Negro por engano, no lugar de outro duplo, o Sr. C, agora na prisão, usando de seu direito para dar um telefonema misterioso, direcionado a uma caixa em algum lugar de Buenos Aires, dizendo: “a vaca saltou sobre a Lua“.

Exceto pela belíssima cena com Amanda Seyfried, filha de Shelly e, a meu ver, mais uma candidata a Laura Palmer, fica difícil para o espectador encontrar um território seguro para pisar neste capítulo. Esta cena tem a mesma cadência melodramática (só que com menos poder, dada a nostalgia e a construção do exemplo a seguir) que a explosão emocional de Bobby na Parte 4, ou seja, algo próximo da vida comum, ao que podemos nos apegar e nos identificar. E convenhamos, dentre as muitas coisas que é Twin Peaks, o dramalhão é uma delas — notem que não digo isso de maneira pejorativa, em nenhum critério. Além de filmada com simplicidade e elegância — mérito do episódio inteiro –, a cena tem uma ótima escolha de trilha sonora, e por um breve momento nos retira da loucura que ao mesmo tempo nos explica e confunde-nos sobre os rumos da temporada.

Enquanto o Cooper bom (Dougie) vai aprendendo como se portar no mundo — o amor pelo café, o reconhecimento de algumas palavras como gatilho de memória e aqui ou a estátua de um cowboy são âncoras de memória que aos poucos faz com que ele desperte. A atuação de Kyle MacLachlan é memorável, não só aqui, mas também nas cenas com o Cooper mau (Sr. C), que agora sabemos estar possuído por BOB. Vale o destaque para a direção de fotografia e montagem na cena da prisão, desde o ponto em que o Sr. C sabe que a comida está vindo, até a bela cena do espelho, onde ele diz para BOB “você ainda está comigo. Isso é bom…“. Mas minha preocupação não é a atuação, porque a escalação do elenco é excelente e mesmo atores e atrizes ruins e medianos conseguem entregar bons trabalhos quando dirigidos por David Lynch. Minha preocupação é com a presença mais picotada e cada vez maior de eventos, fazendo com que existam muitas janelas abertas e confunda ou distraia desnecessariamente o espectador. Claro que isto não foi algo que se classifique como ruim neste episódio, mas também não foi a melhor decisão de roteiro de Lynch e Frost, certamente tendo peso negativo nesta parte do drama.

Mas de longe, creio que tudo isso é um pouco… “injusto” com os criadores o julgamento semana a semana dos episódios. Lynch e Frost disseram em entrevista que a concepção dos roteiros da série foi como para um filme de 18h, posteriormente, separado em blocos semanais. Desta forma, muita coisa se mostra solta ou pouco interessante, mas talvez tenha essa aparência justamente porque o formato de exibição não contribui para que a vejamos de modo diferente. Nenhum espectador é culpado por isto, claro, mas é algo para se considerar antes de tudo, mesmo que, no fim das contas, tenhamos que julgar a série pelo que ela apresenta em cada episódio, não por sua idealização.

Algo que me chamou a atenção aqui foram os carros, suas cores e a importância que eles têm para a persona de alguns indivíduos. Pretendo esperar mais um pouco para ver se este apontamento terá maior voz nos capítulos à frente, mas desde a Parte 3  este traço tem feito parte das cenas no Rancho Rosa (onde fica a casa de Dougie) e agora apareceu com a mesma importância de incremento de personalidade para o namorado de Rebecca ‘Becky’ Burnett. Mantenho todos os levantamentos que fiz sobre a ideia de ciclo e despertar das forças malignas na Parte 2 e entendo que mesmo mais cosmopolita e não exatamente Twin Peaks, este retorno ainda é, sem sombra de dúvidas, Twin Peaks. Com um pouquinho mais de soltura narrativa e liberdade de loucura.

Duas perguntas: Sonny Jim representa alguma coisa a mais dentro da trama, para vocês? Notaram que Dougie chorou ao olhar para o garoto dentro do carro? Outra: vocês acreditam que o “retorno” do Major Briggs (de quem já víramos a cabeça na viagem dimensional de Cooper) abrirá as portas para abduções e elementos alienígenas neste retorno? Ao que parece, há muito mais ligação com o final da 2ª Temporada do que imaginávamos.

Twin Peaks – The Return (3ª Temporada): Part 5 (EUA, 4 de junho de 2017)
Direção: David Lynch
Roteiro: Mark Frost, David Lynch
Elenco: Kyle MacLachlan, Jane Adams, Mädchen Amick, Tammie Baird, Chrysta Bell, Jim Belushi, Sean Bolger, Brent Briscoe, Wes Brown, Juan Carlos Cantu, Bailey Chase, Candy Clark, Grace Victoria Cox, Giselle DaMier, Josh Fadem, Eamon Farren, Robert Forster, Pierce Gagnon, Hailey Gates, Brett Gelman, Harry Goaz, Hank Harris, Gary Hershberger, Michael Horse, David Patrick Kelly, Sheryl Lee, Andréa Leal, James Morrison, Kimmy Robertson, Wendy Robie, Elena Satine, Amy Shiels, Frank Silva, Russ Tamblyn, Naomi Watts, Nafessa Williams
Duração: 58 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.