Crítica | Twin Peaks – The Return: Part 8

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estrelas 3
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Algumas obras precisam apenas das coisas básicas para funcionar: um bom roteiro, boa direção, elenco e equipe técnica. Outras obras, além disso, exigem um contexto do espectador para que funcione. É o tipo de realização que se o público não tiver noção alguma do Universo que está vendo, não conhecer a proposta, o ambiente ou personagens, nada ali irá funcionar e, a rigor, a culpa não é da obra, mas isso é uma discussão para outro momento. Existe também um terceiro tipo de criação, na qual Twin Peaks está localizada, que além de todas as características já citadas, exige um nível de entrega e desprendimento tão grandes da plateia, que não raro termina por afastar quase todos, independente da excelência com que é executada. Este é o caso da Parte 8 desta 3ª Temporada da série.

Depois de um episódio pé no chão como a Parte 7, bem mais próximo do clássico dos anos 90, David Lynch e Mark Frost nos entregam um enigma macabro parcialmente em preto e branco e com cerca de 20 linhas de diálogo apenas, boa parte deles, com frases repetidas ou sem conexão aparente. O Sr. C sai da prisão ao lado de Ray e é atacado pelo parceiro, que “carrega uma informação importante”, como nos foi apresentado desde a estreia da temporada. E então, após uma tentativa de assassinato e a aparição de ghouls “comendo” o corpo do Sr. C, o episódio muda completamente de figura. Se a princípio pensávamos se tratar da busca do Sr. C por Dougie ou por alguma coisa que fosse capaz de mantê-lo na Terra e continuar manipulando as forças do Black Lodge, toda essa visão se dissipa rapidamente. Os autores nos convidam a passear por uma sequência de colapsos espirituais que misturam excelente trabalho visual (no sentido de artes plásticas mesmo, com uma pontada de Kubrick), fotografia, direção de arte e montagem. Só que tudo isso tem um preço. O enigma pelo enigma.

O melhor tipo de mistério é aquele que mesmo com muitas interrogações ao longo de seu desenvolvimento, recebe pistas de maneira sólida, não apenas jogadas a esmo para serem puxadas depois. Claro que em uma visão geral, depois de acabada a série, isso poderá parecer apenas uma pequena falha para se chegar ao grande plano, mas no todo, convenhamos, por mais bela que tenha sido a iniciativa de Lynch e por mais corajoso e inovador, mesmo nos dias de hoje, que tenha sido o episódio, faltou um clique, um mínimo fio para prender o montante de pistas disfarçadas com uma mortalha dadaísta e surrealista à realidade da própria temporada. E é aí que a Parte 8 falha como episódio. Porque é claro que estamos falando de um produto televisivo inteligente e visualmente marcante! Ei! O diretor disso aqui é David Lynch, como poderia ser diferente? Agora, a pergunta simples e objetiva: tamanha excelência visual aliada à rede de mistérios para coisas nunca antes vistas na série funciona? E a resposta inconveniente: apenas em partes.

Sobre o quê pode ter sido este episódio? Na minha visão, após a ligação de Ray para Phillip Jeffries (eles estão trabalhando juntos, mas a questão é: quanto de Phillip veremos na série, considerando que David Bowie não está mais entre nós?), o episódio toma uma estrada que nos liga a um portal, e essa estrada se chama Nine Inch Nails (velhos parceiros de Lynch), interpretando She’s Gone Away — um sintoma bem-vindo da Síndrome de Laura Palmer. Daí passamos para a icônica Experiência Trinity, o primeiro teste nuclear da História, conduzido pelos Estados Unidos em 16 de Julho de 1945, data, inclusive, marcada como letreiro no próprio episódio. Se você não se lembra das aulas de Geopolítica, aqui vai um resumo: este teste deu início à Era Atômica e à grande ameaça de extermínio do mundo através de uma única arma. Percebam o quão simbólico foi o uso deste teste, que inclusive já havia sido aparecido na série, pois é o quadro que orna a parede do escritório de Gordon Cole.

A câmera se aproxima e mergulha no cogumelo de plutônio. Na minha visão, Lynch está abordando todo o mal que uma arma dessas pode causar, em companhia da absurda quantidade de energia que gerou, ativando forças que sem isso, não chegariam ao nosso planeta. A combinação de maldade imensa no conceito espiritual da arma e a sua carga de energia abriram um portal dimensional que permitiu formas malignas de outra dimensão encontrarem uma brecha para chegarem à Terra, tendo um dos seres Universais expelido ovos (dentre eles, BOB, um inseto asqueroso que entra pela boca de uma garota, em 1956) e dado início, talvez, à primeira leva de habitantes do Black Lodge, evento que forçou os habitantes do Farol (o White Lodge?) a criarem um contraponto para isso. O Gigante e a Señorita Dido são uma espécie de “pai e mãe” da garota que viria a ser Laura Palmer, cujo assassinato colocaria Dale Cooper em cena e daria início a um ciclo que coisas das quais até agora temos só uma parcela de informações.

O símbolo dos ovos expelidos (Lynch e Frost foram buscar elementos na mitologia do Homem-Primordial e dos ovos expelidos pelo Kneph egípcio), é uma clara noção de que este episódio mostra o princípio das forças em ação na mitologia de Twin Peaks, ou talvez a oficialização de algo que estivesse em andamento, mas não conseguira encontrar força o suficiente para se solidificar.

Esta Parte 8 exige muito menos de nossa relação com símbolos e muito mais aceitação para um tipo de narrativa inteiramente solta na sequência de uma temporada. No todo, ainda estamos diante de um bom episódio, de algo muito criativo e que NINGUÉM tem a coragem de fazer na televisão hoje em dia. Mas eu realmente gostaria que tudo isso viesse à tona em uma ligação maior com os elementos atuais do serial, não apenas com pistas aludidas de Os Últimos Dias de Laura Palmer ou de partes da série original, mais a esperança de que nós, pobres espectadores, tivéssemos estômago para aguentar e digerir tanta insanidade. O melhor de tudo isso é o fascínio que tal estranheza exerce sobre nós. Pode soar contraditório, mas é o tipo de coisa que mesmo quando parece interessante e solta, como este episódio, ainda é capaz de nos manter interessados pelo que pode acontecer. Que o Gigante e a Señorita Dido nos ajudem.

Twin Peaks – The Return (3ª Temporada): Part 8 (EUA, 25 de junho de 2017)
Direção: David Lynch
Roteiro: Mark Frost, David Lynch
Elenco: Kyle MacLachlan, Leslie Berger, Robert Broski, Joey Castillo, Alessandro Cortini, Cullen Douglas, Erica Eynon, Tikaeni Faircrest, Robin Finck, George Griffith, Tad Griffith, Mariqueen Maandig, Xolo Maridueña, Joy Nash, Tracey Phillips, Trent Reznor, Atticus Ross, Frank Silva, J.R. Starr, Carel Struycken
Duração: 58 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.