Crítica | Twin Peaks – The Return: Part 9

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estrelas 4
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O bom desta nova fase de Twin Peaks é que a gente sabe que em algumas semanas o enredo será enigmático e inteiramente dado à veia poética do público (leia-se: uma construção que é apenas boa, mas que pode ganhar tag de “obra-prima” ou de “lixo” dependendo da paciência e/ou entrega do espectador, como foi a Parte 8); enquanto em outras semanas a narrativa se aproximará do formato clássico, não necessariamente ligado aos tempos áureos da 1ª Temporada, mas fora do campo enigma-pelo-enigma, o que certamente é uma bênção para o espectador, convenhamos. Ajudado por um pequeno hiato, este episódio cobre um grande número de coisas e começa a nos dar a direção de uma parte dos mistérios, além disso, ele tem uma montagem tão fluída, que ficamos imersos a ponto de mal sentimos a hora passar. Lynch e Frost sabem mesmo como apresentar, passo a passo, um bom enigma.

Claro que nem tudo aqui é simples e confortável como o White Lodge. A sequência com Jerry Horne chapadão ouvindo o pé dizer “eu não sou seu pé” — seria esta uma nova encarnação ou manifestação da árvore/braço/neurônio do Black Lodge? –; ou Ella, personagem de Sky Ferreira, drogadona, com uma angustiante alergia debaixo do braço (soa algum sino para vocês?) são exemplos de que loucuras aparentemente sem sentido aparecerão aqui e ali para nos provocar. Mas fora esses “Momentos Garmonbozia” que na maioria das vezes se tornam peças plenamente explicáveis, esta nona parte de The Return é um passo muito inteligente para uma intricada investigação em andamento.

Ou melhor, para diversas investigações em andamento, cabendo ainda alguns elementos de humor negro e provocação direta do público, como o fato de Diane estar recebendo a mesma mensagem que o Sr. C mandou para alguém por SMS. Na minha leitura, não há nenhuma possibilidade de Diane fazer parte do conluio de BOB, então imagino que haja alguma ponte no meio do caminho, algum intermediário, algum chantagista… Talvez quando ela tiver aquela prometida conversa com Gordon as coisas fiquem um pouco mais claras. Além disso, vale notar que o próprio papel de Diane e dos personagens “em busca de Cooper” passa a fazer parte da nossa ansiedade por resolução, assim como no bloco de Dougie, mantendo duas torcidas ativas: a vontade de que ele acorde e a espera de que Gordon, Albert, Diane e Cia. encontrem-no o quanto antes.

Mais que os outros episódios com esta função agregadora (destaco aqui o episódio 4), a Parte 9 age como um degrau que nos leva aos fatos em evolução. O assassinato de Ruth Davenport, por exemplo, serve como ímã de personagens, pois congrega o time “caça ao Cooper” e os faz descobrir algo que também estava nebuloso para nós: as circunstâncias do primeiro crime. E mesmo que o roteiro não avance muito nesta seara (e nem precisava), temos agora a pista sobre a “Zona”, a aparição do Major Briggs para William Hastings que, no melhor estilo melodramático da série original, dá o seu depoimento aos prantos. E esta ponta dos fatos irá dar nó em Twin Peaks, com uma aparição que — creio eu — fez o coração de muitos fãs baterem forte, a paciente senhora Betty Briggs (Charlotte Stewart), que dá espaço para mais uma emotiva cena com Bobby, mesmo que rapidamente.

Dana Ashbrook parece concentrar uma aura imponente diante dele. Desde a sua primeira aparição, na Parte 4, carregando uma das melhores cenas da série até aquele momento, notamos que ele não só passou por uma grande mudança moral mas se mostra um personagem ainda melhor do que era, quando jovem. Mesmo sem muitos diálogos, o ator consegue roubar as cenas em que aparece. E ao que tudo indica, será uma peça importante nas pitas à la Alice deixadas pelo pai. O único bloco ou presença que me pareceu solta aqui foi a interação meio “mundo da Lua” entre Andy e Lucy. Meu “problema” não é com o casal, pois eles são personagens com esta constituição, mas aqui, as cenas com eles me pareceram uma completa perda de tempo. Ainda bem que são momentos curtos.

Infelizmente, chegamos ao meio da temporada. A improbabilidade de uma renovação e a forma que o mistério está ganhando já são capazes de nos fazer sofrer por antecedência. A investigação segue e ainda há muita coisa para ser resolvida, mas esta temporada certamente já se encaminha para a lista de marcantes produções para a TV este ano. Isto é, se a gente não se perder na Caverna Coruja pelo meio do caminho…

Twin Peaks – The Return (3ª Temporada): Part 9 (EUA, 09 de julho de 2017)
Direção: David Lynch
Roteiro: Mark Frost, David Lynch
Elenco: Kyle MacLachlan, Dana Ashbrook, Jane Adams, Chrysta Bell, Richard Beymer, Brent Briscoe, Larry Clarke, Heather D’Angelo, Jan D’Arcy, Quinn Delany, Laura Dern, Eric Edelstein, Sky Ferreira, Miguel Ferrer, Patrick Fischler, Erika Forster, Robert Forster, Harry Goaz, Annie Hart, Michael Horse, Ashley Judd, David Patrick Kelly, David Koechner, Jennifer Jason Leigh, Matthew Lillard, James Morrison, Kimmy Robertson, Tim Roth, Naomi Watts, Charlotte Stewart, Christophe Zajac-Denek
Duração: 58 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.