Crítica | Twister

estrelas 3

No dia 10 de maio de 1996, o gênero filme-catástrofe ganhou um representante de peso: Twister, produção dirigida pelo criativo, exagerado e inventivo Jan de Bont, cineasta responsável por Velocidade Máxima, um dos melhores filmes de ação dos anos 1990. Até então, o diretor havia provado que sabia orquestrar cenas de perseguições e explosões frenéticas, guiadas por protagonistas envolvidos em tramas românticas problemáticas, ou seja, filmes divertidos e de acordo com a demanda escapista das pessoas que buscam este tipo de produção.

Conhecido por retratar enredos apocalípticos, recheado de apelo melodramático e cenas de ação calcadas em seus efeitos especiais, vide o seu “primeiro” representante, Aeroporto, lançado nos anos 1970, o gênero filme-catástrofe geralmente é o espaço ideal para a representação de atos heroicos oriundo de personagens que buscam superação para supostos danos do passado. Em Twister, uma tempestade furiosa está para alastrar-se por Oklahoma.

De acordo com as informações dos aparelhos tecnológicos de uma equipe responsável por “caçar” furacões e analisar mudanças climáticas devastadoras, há décadas algo igual não se aproxima da região. Diante desta situação, dois cientistas planejam uma estratégia ousada de análise dos tornados: jogar sensores em seu interior. O problema é que para conseguir tão façanha é preciso chegar o mais próximo possível.

Deste jeito, todos colocam as suas respectivas vidas em jogo, por algo que talvez nem dê certo, tamanha a velocidade do vento e a fúria deste tipo de mudança climática. Uma dessas pessoas da equipe (drama, drama e mais drama) é a personagem de Helen Hunt, uma mulher obcecada por entender os tornados, haja vista seu pai ter sido sugado por um destes “monstros” da natureza em 1969. Predestinada, a moça vai arriscar a sua vida e a de seus colegas para conseguir superar os seus desafios.

A proposta do filme era interessante, os atores podiam dar conta do recado, em suma, tudo indicava uma produção bem sucedida em quase todos os seus setores. O problema, entretanto, surge quando precisamos apontar os defeitos do roteiro. Não é a toa que o filme foi indicado como Pior Roteiro na sarcástica cerimônia de entrega do prêmio Framboesa de Ouro em 1997. Personagens surgem como enfeites, sem uma função dentro da narrativa. Apesar de sabermos que estamos diante de um terreno sem verossimilhança, o filme abusa da boa vontade dos espectadores.

Só para constar, um tornado aproxima-se de um drive-in que exibe o ótimo O Iluminado, de Stanley Kubrick. Em determinado momento, diante de tamanha velocidade do vento, apenas um carro é arremessado em direção aos protagonistas durante uma cena de ação. A pergunta que fica no ar é: e os outros tantos automóveis ao lado? Estavam colados ao chão? Pode parecer chatice, coisa de gente implicante e que vê defeito em tudo, mas prefiro registrar que mesmo em filmes de ação, os diálogos e situações não precisam se rebaixar ao grau negativo da inteligência.

Cabe ressaltar, portanto, que Twister não é esse desastre todo. Os efeitos visuais e o design de som funcionam bem. A trilha sonora foi assinada por Mark Mancina, músico responsável pela condução sonora de Velocidade Máxima, Os Bad Boys e Velocidade Máxima 2, respectivamente três das quatro parcerias com o cineasta. Bem funcional para a proposta da narrativa, o som ajuda a levantar a moral do filme que se perde bastante diante dos seus descuidos de continuidade.

Ao longo dos seus 113 minutos de duração, Twister mostra-se eficaz como filme de ação para plateias descompromissadas e aos amantes de tramas sem nem sequer uma fagulha de reflexão. À guisa de conclusão, não serve nem como recurso didático para aulas de Geografia, mesmo com os diversos personagens explicando “pedagogicamente” informações sobre o universo dos efeitos climáticos etc. Resumindo: seres ficcionais inúteis para a condução do fiapo de linha dramática proposta por Michael Crichton, profissional que já tinha feito algo melhor em Parque dos Dinossauros, mas que nessa parceria com Anne-Marie Martin, ficou devendo muito aos espectadores.

Twister (Twister) – EUA, 1996.
Direção:  Jan de Bont.
Roteiro: Michael Crichton e Anne-Marie Martin.
Elenco: Bill Paxton, Helen Hunt, Cary Elwes, Jamie Gertz, Philip Seymour Hoffman, Lois Smith, Alan Ruck, Jeremy Davies.
Duração: 113 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.