Crítica | Última Parada 174

Uma história inspirada em acontecimentos polêmicos e tensos, envoltos numa atmosfera de intensa crítica social, mas contada no bojo da ficção de maneira pouco magnética. Foi assim que a Última Parada 174 teve a sua recepção em minha primeira incursão, numa opinião que continua amalgamada tantos anos depois. Bruno Barreto, cineasta experiente na seara da produção brasileira, homem de tantos acertos no passado, dessa vez, deixou bastante a desejar.

A trama todo mundo praticamente já conhece. Um jovem infrator, chamado Sandro do Nascimento, com passado urdido em meio ao ambiente violento da favela, bem como a experiência da chacina da Candelária e outras celeumas sociais tipicamente brasileiras, toma um ônibus de assalto no Rio de Janeiro, no ano 2000, faz reféns e termina a sua trajetória de maneira trágica, levando consigo uma vítima que sequer imaginava participar de uma trama com personagens sociais tão incapacitados para lidar com conflitos humanos, isto é, “a despreparada polícia nossa de cada dia”.

O plano circular em torno da estátua do Cristo Redentor já nos situa no tempo e espaço onde a história de violência física e psicológica se desenvolverá: o fervilhante centro urbano carioca, cartão-postal para turistas e ponto demarcado no mapa da violência brasileira. Transmitido em rede nacional e em canais internacionais, o evento de grande repercussão é um dos maiores exemplos da negativa influência midiática no desenvolvimento de parte da opinião pública.

No documentário de José Padilha a história envolve e se destaca pelo nível de perplexidade que ficamos diante dos depoimentos colhidos, mas na seara ficcional, a tentativa oportunista de recriar a trama e inserir personagens para ampliar o feixe catártico da narrativa não ajudou, ao contrário, tornou o filme uma história visualmente interessante, mas dramaticamente estéril. A professora Geysa, por exemplo, uma das grandes vítimas da história, tem a sua trajetória anulada.

O que interessa a dupla formada por Bruno Barreto e Bráulio Mantovani é a suposta crítica social ao alijamento que tornou Sandro do Nascimento, aqui interpretado por Michel Gomes, um bandido perigoso. O ator entrega um desempenho dramático de grande esforço, haja vista o texto impreciso e a construção de um personagem esférico apenas porque sabemos da trama narrada por vias documentais na produção de José Padilha. O Sandro de Mantovani, no entanto, carece de empatia, o que nos distancia da catarse.

Tudo acontece muito velozmente, o que impede o processamento dramático do espectador diante do que é apresentado. Sandro é o único membro da plateia de um espetáculo de sangue peculiar: o assassinato de sua mãe. Ele tenta viver dignamente com a tia, mas o marido da tal senhora não está interessado em abrigar o jovem em sua residência, o que faz Sandro se afastar e ganhar a vida nas ruas. Em poucos cortes, já nos deparamos com a chacina, com a primeira incursão sexual de Sandro, com os pequenos delitos e com a ida para o reformatório, local que trata de lhe arranjar um algoz logo de cara, para na cena seguinte, transformá-lo em melhor amigo.

Juntos, a dupla sai da cadeia e parte para uma vida de crimes e farra. Certo dia um assalto dá errado e a dupla se separa. O Alê Monstro (Marcello Melo Jr.), versão demonizada do personagem de Sandro, metáfora para o seu contraste angelical, criatura existente apenas na seara ficcional, torna-se por instantes o mentor de Sandro. É quem lhe ensina a matar e lutar para sobreviver na vida que ambos escolheram para si, ou como aponta o determinismo social do filme, a sobreviver diante das oportunidades que lhe são concedidas. Tal como os personagens do cortiço grotesco de Aluísio de Azevedo, Sandro e Alê são “frutos do meio”.

Diante do exposto, me aproximo da finalização desta reflexão reiterando que Última Parada 174 é um filme sem emoção que, ao adentrar num esquema narrativo desgastado, sem trazer um ponto de vista que acrescente algo ao assunto que na época, era parte de uma memória ainda muito recente e intensa, reforça o estereótipo da violência nas favelas, uma das temáticas prediletas dos filmes da chamada pós-retomada. Uma história que passava por um processo de cicatrização social encontra no esquemático roteiro de Bráulio Mantovani mais “um dedo na ferida”. O que podemos perceber é que faltou maior engajamento. Sobrou apropriação. Em resumo: um filme sem coesão interna e usuário de metalinguagem sem as devidas referências, isto é, um equívoco cinematográfico.

A postura dos realizadores nos remete ao que a pesquisadora Denise Silva Macedo reflete em Discursos nas Práticas Sociais, elucidativo livro que envolve o campo da comunicação social numa perspectiva crítica.   Ela afirma que a mídia se apodera de um suposto discurso neutro, aparentemente interessado em informar, de maneira objetiva, os fatos. A “informação-serviço” se confunde com a “informação-produto”, ou seja, tudo se torna objeto de venda de audiência, tendo a notícia como “valor de mercado”.

Levado para o campo do cinema, os realizadores de Última Parada 174 investem na mesma postura, interessados talvez na repercussão financeira de uma história que tem a polêmica como eixo gravitacional. Num cínico e entediante ponto de vista narrativo, construído com base em imagens já prontas em arquivos de dados da mídia brasileira, o filme se ergue em meio ao infértil roteiro que provavelmente agrada apenas aos que flertam com a linguagem dramática das produções da Rede Globo.

Sobre o roteiro, há alguma humanização na assistente social Walquiria (Ana Cotrin) e uma necessidade dramática convincente no desenvolvimento de Marisa (Cris Vianna), mas como já apontado, a obviedade de outras situações e falta da mínima complexidade de outros personagens tornam o exercício narrativo pífio. Conforme relatos de entrevistas na época do lançamento, o cineasta afirmou que “ele e o Bráulio usaram a realidade só como ponto de partida, pois a proposta desde o início era a reflexão emocionada da realidade que deu origem a história”. As intenções foram as melhores, caro leitor, mas como reitera a fala popular, de boas intenções o inferno está cheio.

Última Parada 174 — Brasil, 2008.
Direção: Bruno Barreto
Roteiro: Bráulio Mantovani
Elenco: Alessandra Cabral, André Ramiro, Anna Cotrim, Cris Vianna, Douglas Silva, Gabriela Luiz, Marcello Melo Jr., Michel Gomes, Rafael Logan, Tay Lopez, Tereza Xavier
Duração: 114 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.