Crítica | Ultimate Homem-Aranha (Peter Parker): Problema em Dobro

estrelas 4,5

– Leiam, aqui, as críticas dos arcos anteriores de Ultimate Homem-Aranha (Peter Parker).

O terceiro arco de Ultimate Homem-Aranha é, para mim, o que finalmente acerta o tom desse universo paralelo corajosamente criado pela Marvel Comics para atrair leitores novos e trazer de volta os antigos cansados do peso da cronologia de décadas. Temos o surgimento de dois vilões clássicos do Aranha (e um do Homem de Ferro, mas que debuta nesse universo como oponente do Aracnídeo), além de uma personagem importantíssima em sua mitologia em versões diferentes e muito bem planejadas, com um belo equilíbrio entre dramas pessoais e ação.

A característica verborragia de Brian Michael Bendis, claro, continua firme e forte aqui, dando vida ao Homem-Aranha falastrão e piadista, além de um Peter Parker mais solto e confiante em sua persona super-heroística, o que faz sentido considerando sua vitória acachapante sobre ninguém menos do que o Rei do Crime no arco anterior. O que temos é um Homem-Aranha na ascendente, revelando-se vagarosamente ao mundo como o herói que ele é, apesar dos esforços de John Jonah Jameson em desacreditá-lo.

O foco do arco é a origem do Doutor Octopus, um dos maiores vilões clássicos do personagem. Otto Octavius foi visto pela última vez na segunda edição da revista, no arco Poder e Responsabilidade, quando ele e Norman Osborn foram pegos pela explosão na Oscorp. Enquanto Osborn tornou-se o Duende Verde, Octavius foi dado como morto, algo que obviamente não aconteceria de verdade. Dito e feito, não demora e descobrimos que o cientista está internado em instalação secreta da S.H.I.E.L.D., com hipersensibilidade à luz e, lógico, com seus famosos tentáculos fundidos à sua cintura depois da tragédia. Quando ele acorda e tenta entender o que aconteceu, descobrindo os tentáculos e seu controle sobre eles, além do plano dos cientistas em deixá-lo assim para propósitos escusos, as consequências são imediatas e extremamente violentas e cuja sequência de quadros certamente serviu de inspiração para a mesma cena no excelente Homem-Aranha 2, de Sam Raimi.

Mas Bendis acrescenta outra camada. Octavius, na verdade, era um espião do industrial Justin Hammer na Oscorp e, nesse seu arroubo de loucura, ele culpa o bilionário por seu estado e sai para caçá-lo, primeiro atacando uma usina nuclear recém-anunciada como o fim dos problemas de energia de Nova York por Hammer. É nesse ponto da história que o Aranha entra e, pela primeira vez, combate Octopus e o roteirista mais uma vez surpreende o leitor ao expandir os poderes do vilão por intermédio de tentáculos de “metal líquido” (sim, vibe do T-1000) que podem ser transformados em garras, metralhadoras e até emissores de eletricidade. Mark Bagley parece se divertir aqui, como na pancadaria entre o Aranha e o Duende Verde no primeiro arco da série. Esbanjando páginas duplas, sua arte aflora completamente e, mesmo com a chegada de Sharon Carter e os agentes da S.H.I.E.L.D., ele não se perde e sabe muito bem distribuir a ação pelas páginas, equilibrando muito bem o texto onipresente de Bendis.

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Ao mesmo tempo que Octopus surge, Kraven, o Caçador, dá as caras no universo Ultimate. Em termos de aparência – inclusive seu clássico uniforme de leão – ele é muito próximo ao original, mas, aqui, ele é um caçador de reality show australiano que busca aumentar sua audiência estabelecendo que caçará e matará o Aranha. Essa narrativa com o vilão corre em paralelo por grande parte do arco, só convergindo de verdade com a linha narrativa de Octopus, Hammer e do Aranha no clímax, criando o “problema em dobro” do título do arco. Assim, Kraven jamais pesa na história. Ele é caracterizado como um fanfarrão e seu embate com o Aranha é perfeito em sua simplicidade e, de certa forma, comicidade, encerrando muito bem sua história e estabelecendo sua rivalidade visceral com o herói que seria vista em detalhes em arcos futuros.

Do lado pessoal, o namoro de Peter e Mary Jane continua daquele jeito bem adolescente e adorável de ser, algo que Bendis é exímio em escrever. Mas o roteirista introduz um “pequeno” probleminha: Gwen Stacy. O primeiro grande amor de Parker em sua versão clássica – e o primeiro grande choque de realidade com a inesquecível história em que o Duende a mata – tem uma entrada digna de aplausos na versão Ultimate, como uma garota muito madura, com uma postura rebelde e destemida. Seu figurino choca fortemente com os demais comportados dos alunos da escola e sua presença magnética é sentida por todos. Ah, e, assim como na versão original, ela é filha do capitão de polícia da cidade. Quando ela vê uma injustiça sendo cometida com Peter – que se finge de fraco para ninguém desconfiar de nada – ela toma controle do problema e ameaça Cliff com uma faca, o que de certa forma, e na visão de Mary Jane, cria uma cisma entre os dois pombinhos, ainda que discretamente.

Mas o que o arco traz de melhor além da introdução de Octopus, Kraven e Hammer, além de Gwen Stacy, é a organicidade como tudo é trabalhado. Os acontecimentos dos arcos anteriores são referenciados e usados como catalisadores de eventos que vemos aqui, além de cada linha narrativa conseguir ao mesmo tempo ter vida própria e conexão mútua. Além disso, vemos o amadurecimento do protagonista em suas duas versões, além da expansão do número de inimigos e o começo de uma relação estremecida com a sempre amorosa tia May, que não aceita as mentiras que Peter é obrigado a contar para esconder quem é na verdade. E a cereja no bolo é Bagley realmente se libertando de amarras criativas e soltando o lápis com excelentes sequências de origem de Octopus e de ação com todos os envolvidos.

Problema em Dobro, poder-se-ia dizer, é o arco que verdadeiramente mostra o potencial de Ultimate Homem-Aranha e estabelece o tom para o que viria pela frente. Reempacotando o clássico como produtos genuinamente novos e interessantes, Bendis e Bagley dão, aqui, o efetivo pontapé inicial para as maravilhosas aventuras do Aranha nesse instigante universo paralelo.

Ultimate Homem-Aranha: Problema em Dobro (Ultimate Spider-Man: Double Trouble, EUA – 2001/2)
Contendo:
Ultimate Spider-Man (Vol. 1) #14 a 21
Roteiro: Brian Michael Bendis
Arte: Mark Bagley
Arte-final: Art Thibert, Erik Benson
Cores: Transparency Digital
Letras: Dave Sharpe, Chris Eliopoulos
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: setembro de 2002 a fevereiro de 2003
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: abril a agosto de 2002 (Marvel Millennium: Homem-Aranha #9 a 14)
Páginas: 170

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.