Crítica | Ultimate Homem-Aranha (Miles Morales): Quem é Miles Morales?

estrelas 2,5

Dizer que o Homem-Aranha é um dos personagens mais queridos e conhecidos de toda a história não é nenhuma novidade, mas será que seu alter-ego, Peter, é tão famoso quanto o herói? O Homem-Aranha é um símbolo, ou esse personagem está eternamente limitado a ser apenas um indivíduo? Essas foram algumas das perguntas que todos os fãs de quadrinhos fizeram quando a Marvel anunciou que outra pessoa vestiria o manto do herói aracnídeo.

Miles Morales foi o personagem escolhido para usar o uniforme. O menino foi criado para vestir o manto do herói e foi na revista Ultimate Spider-Man que a Marvel apresentou, pela primeira vez, ao seu público esse que viria a se tornar um símbolo de mudanças para toda a mídia, que ainda é muito conservadora. Mas deixemos essa reflexão para o final e comecemos a analisar a história e o grupo criativo responsável por apresentar esse personagem para o mundo.

Brian Michael Bendis tinha um dos maiores desafios de sua carreira em mãos, a ele cabia escrever o início de um personagem que iria substituir o amuleto da editora. O roteirista escolheu então, o caminho mais seguro, apresentando-nos a uma trama simples, baseada inteiramente na jornada do herói. Miles Morales mora no Brooklin, Bendis usa a primeira edição para situar o leitor na vida desse novo personagem, ele mostra a relação que o menino tem com seus pais e com seu tio, que tem um papel importante nesse primeiro arco. Depois de apresentar a premissa básica de seu protagonista, o escritor insere o ponto de virada, que nesse caso é a picada de uma aranha trazida acidentalmente pelo seu tio dos laboratórios Osborn. E assim inicia-se a jornada do herói de Miles.

Não cabe a mim entrar em detalhes da trama do quadrinho, mas seria irresponsável da minha parte deixar de tecer alguns comentários sobre a forma que o roteirista decidiu contar essa história. Bendis tinha nas mãos uma grande oportunidade, assim como qualquer outro personagem de grande expressão, o Homem-Aranha de Peter Parker já tem sua fórmula do sucesso pronta, porém Miles Morales precisava de uma fórmula completamente nova, e acima de tudo diferente.

Brian Michael Bendis tinha a missão de criar um protagonista completamente diferente daquilo que já nos foi apresentado inúmeras vezes, ele podia desenvolver muitos fatores, um dos mais evidentes é o contexto de Morales, um menino negro, que nasceu em um dos países mais preconceituosos da Terra. Porém o escritor não faz questão nenhuma de desenvolver esse ponto, transformando o menino em uma versão mais nova daquilo que foi feito por Stan Lee e Steve Ditko.

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Não digo que a história é mal escrita, Bendis não é um roteirista ruim e essa está longe de ser a sua pior história, vide Guerra Civil II. Digo que o autor preferiu criar algo seguro, igual a tudo que já vimos, quando o protagonista tinha apelo o suficiente para desenvolver uma narrativa ousada, cheia de conflitos do mundo da Marvel e do mundo real. Essa falta de ousadia fez com que a trama da história ficasse na média, esse que é o pior lugar para uma obra de arte estar, já que não causa nenhuma emoção no seu receptor.

A arte ficou nas mãos de Sara Pichelli, que faz um desenho completamente digital. Existe um formato Marvel de se desenhar e Pichelli se encaixa perfeitamente nesse padrão. Isso está longe de ser uma crítica, os traços da artista são bem feitos, com cores (Justin Ponsor) bem definidas e expressões que cumprem seu papel. Mas, assim como sua dupla criativa, Sara não traz nada de novo, em uma história de um personagem completamente novo.

A narrativa gráfica, que é feita por Bendis e Pichelli, é neutra. Um quadrinho com esse aspecto bem trabalhado ganha muita profundidade em sua trama, dando peso em tudo aquilo que foi trabalhado no roteiro. Mas seria pedir muito de uma história que não tem profundidade ter uma boa narrativa gráfica, já que a base de tudo e feita de forma preguiçosa.

Ultimate Homem-Aranha: Quem é Miles Morales? é uma oportunidade perdida, a Marvel vez seu trabalho, propondo para o seu público algo ousado, mas talvez tenha errado na forma que decidiu apresentá-lo para seus fãs. Miles Morales é um personagem muito interessante, que tem o potencial de ser o protagonista de uma nova era para a mídia, lidando com temas que precisam ser lidados. Que Brian Michael Bendis possa acordar de seu comodismo e escrever histórias dignas do legado do herói que não é nem Peter, nem Miles e sim um símbolo de justiça e, quem sabe um dia, de igualdade.

Ultimate Homem-Aranha: Quem é Miles Morales? (Ultimate Comics Spider-Man: Who is Miles Morales?) — EUA, 2011
Roteiro: Brian Michael Bendis
Arte: Sara Pichelli
Cores: Justin Ponsor
Letras: Cory Petit
Editora original: Marvel Comics
Datas originais de publicação: 2011
Editora no Brasil: Panini Comics
Páginas: 143 Páginas

PEDRO CUNHA . . . Com corpo e alma de Hobbit, sou um eterno Padawan e aprendiz. Amigo dos ursos, dos elfos e das águias. Nativo de Krypton e apreciador da sétima, nona e de TODAS as artes. Quando tentado sempre rebato; "sou um Jedi, como meu pai antes de mim".