Crítica | Últimos Homens em Aleppo

Em 2017, Os Capacetes Brancos abocanhou o Oscar de Melhor Documentário Curta-Metragem, apesar de sua natureza estranha e da polêmica cercando a manipulação política do grupo de civis que corre na direção dos locais bombardeados pelo governo ditatorial de Bashar al-Assad e de seu amigo – não muito menos ditatorial – Vladimir Putin, na Síria, para salvar quem puder. Agora, Últimos Homens em Aleppo, que, de maneira rasa, poderia ser chamado de versão em longa-metragem do curta ganhador, concorre ao Oscar na respectiva categoria.

Digo que o longa poderia ser visto como uma versão alongada do curta anterior, pois grande parte de seu foco é em Khaled Omar Harrah, um dos fundadores dos Capacetes Brancos e que aparece em Os Capacetes Brancos como o herói que consegue salvar um bebezinho ainda vivo dos escombros de um prédio. Esse momento incrível é inclusive indiretamente mostrado em Últimos Homens em Aleppo, de forma a deixa claro quem ele é e seu valor ali.

No entanto, também deixei claro que somente uma análise perfunctória concluiria que um filme é a versão maior do outro, pois a grande verdade, como salientei em minha crítica do curta, o ganhador do Oscar tem sérios problemas em sua proposta, deixando de lado o que realmente importa para focar no treinamento dos Capacetes Brancos na Turquia. E, na direção completamente oposta – felizmente! – temos Últimos Homens em Aleppo, que foca exclusivamente no dia-a-dia desses voluntários em uma cidade quase que completamente sitiada, tendo que lidar constantemente com a morte em um teste excruciante e revoltante de humanidade acima do horror. Mas o diretor Feras Fayyad, que capturou as imagens com câmeras na mão na maioria das vezes, em um belo exemplo de reportagem de guerra, unifica as narrativas dessa tragédia debaixo de uma pergunta: abandonamos ou não a cidade?

Essa dúvida é a que permeia os membros da equipe, especialmente Khalid, Sabih e Mahmoud, toda vez – e são várias – que eles atravessam a cidade para retirar escombros e, na maioria das vezes, achar corpos ou pedaços de corpos debaixo da destruição. E é essa dúvida que, de certa forma, consegue criar a necessária cola narrativa para esse revoltante longa metragem não parecer apenas algo composto de imagens de momentos que desafiam o estômago do espectador, ainda que “apenas isso” já fosse o suficiente para justificar a existência da obra.

Aliás, fazendo um mea culpa, confesso que assistir ao filme do conforto do meu lar (mesmo morando em uma cidade violenta como o Rio de Janeiro) adiciona uma camada de repugnância e revolta ao que está acontecendo na Síria e em outros países. É aquela sensação de impotência, de querer fazer algo sem realmente se levantar para fazer algo. É uma daquelas experiências cinematográficas que dá pesadelos que só são amplificados por nossa desídia, por nossa indiferença a uma guerra civil destruidora que vem removendo milhões de pessoas de seus lares e matando violentamente milhões de outras. Últimos Homens em Aleppo não nos deixa esquecer de um problema que não deveria mesmo ser esquecido e isso incomoda, nos deixa inquietos e nervosos. Chega ao ponto de ser quase preferível respirar fundo e desligar a televisão ou trocar para uma comédia ou alguma ficção científica que machuque menos, que só tenha sangue e pedaços de crianças oriundos de efeitos especiais e não de uma mera câmera ligada e apontada para “mais um dia” em Aleppo.

Como mencionei, o longa é estruturalmente composto de sequências que parecem lineares (não há datas pulando na tela, para tornar a coisa ainda mais real) e que lidam com a dureza dos bombardeios dos centros civis de Aleppo, terminando de dizimar a parca população que bravamente ainda reside por lá, com algum semblante de normalidade, por mais incrível que possa parecer. Vemos feirantes, um jogo de futebol (que interessantemente acaba em violência), a tentativa de construir um laguinho de peixes e um emocionante momento em que Khaled e outros levam seus filhos para um parquinho que é encarado como um verdadeiro tesouro inestimável pelas crianças que passam seus dias preocupados com o barulho de aviões e helicópteros sobrevoando a cidade. Mas, a cada sequência que tenta passar a normalidade e que também tenta discutir o “sair ou não”, vemos os salvamentos e, paulatinamente, vamos perdendo nossas esperanças. Fayyad constrói sua obra de maneira a literal e figurativamente não deixar pedra sobre pedra e, quando os créditos começam a rolar, não temos mais palavras e o silêncio impera.

É muito difícil assistir Últimos Homens em Aleppo. Mas é necessário. Essencial mesmo. A torcida – fútil, eu sei – é para que obras assim não sejam mais necessárias.

Últimos Homens em Aleppo (De sidste mænd i Aleppo, Dinamarca/Síria – 2017)
Direção: Feras Fayyad, Steen Johannessen, Hasan Kattan
Roteiro: Feras Fayyad
Com: Khaled Omar Harrah, Mahmoud, Ahmad, Abu Yusuf, Abu Sabih, Batul, Abu Umar, Abu Husain, Abu Walid, Abu Omar, Isra
Duração: 104 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.