Crítica | Ultron – Anos 60 (Vingadores #54 a 58 e 66 a 68)

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Criado por Henry “Hank” Pym e com uma história contada de forma não linear nos quadrinhos, Ultron apareceu pela primeira vez na Avengers Vol.1 #54, publicada nos Estados Unidos em julho de 1968. A presente crítica traz os dois arcos em que o robô apareceu durante a década de 1960. A nota atribuída é a média das edições criticadas.

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Os Vingadores Vol.1 – #54 a 58

estrelas 3,5

Publicadas entre julho e novembro de 1968, essas edições da revista Vingadores traz o primeiro bloco de histórias em que Ultron apareceu no universo Marvel, desde a sua criação, na Avengers #54 (… And Deliver Us From… The Masters of Evil!) até a aparição de um outro novo personagem criado por Ultron, o Visão, surgido na Avengers #57 (Behold… The Vision!).

O início do arco pode enganar bastante o leitor. A edição #54 é excelente, com um roteiro que consegue ligar o cotidiano de parte dos Vingadores — aqui, Pantera Negra, Homem-Formiga, Vespa e Gavião Arqueiro — com a ameaça que estava por vir. O leitor percebe preocupação de Roy Thomas em mostrar não só o cenário de alta tecnologia e a pesquisa de Henry Pym então em andamento (não tem nada a ver com Ultron por enquanto), e a sua ligação com os planos dos Mestres do Terror (numa formação nova, composto por Derretedor, Homem Radioativo, Garra Sônica [cuja origem você pode conferir aqui], Tufão e Cavaleiro Negro, este, sobrinho do vilanesco Cavaleiro original).

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Ultron, muito esperto, reúne esse pessoal bonito e gente fina para ajudá-lo a capturar os Vingadores.

O texto deixa algo inicialmente em suspenso, como se ainda não soubesse direito o que fazer com esse monte de informação (e eu tenho um leve palpite de que o autor não sabia mesmo) e compassadamente mostra a ação do Manto Rubro, cuja revelação, ao final, choca o público, mas na edição #55 é mostrado quem na verdade estava por trás de tudo. É importante lembrar que em Avengers #54 Ultron aparece apenas ao final, não recebe nome algum (ele é apenas o Manto Rubro — que na verdade é roxo; ou púrpura, para os iniciados na magia das cores) e culpa o coitado do Jarvis, que age de forma canalha, traindo os Vingadores, mas faz isso porque precisava de dinheiro para o tratamento de sua mãe doente — veja como o roteiro até esta edição #55 é interessante ao misturar vertentes de vários níveis da fantasia e do cotidiano para criar um enredo que seja de entendimento simples mas de significado mais profundo.

Mas as flores começam a murchar ainda na já elogiada edição #55, quando percebemos o tom forçado da vilania de Ultron. Mesmo com a revelação de sua origem na edição #58 (vinda em um estranhíssimo flashback) e com o nome de Ultron-5, o robô parece um “rebelde sem causa”, um vilão que surgiu em meio a um mistério e que, de alguma forma, ganhou proporções maiores na cabeça de Roy Thomas, que resolveu dá-lo como filho a Henry Pym. Nesse primeiro momento a participação do personagem é variada, às vezes aparecendo como um ótimo núcleo maléfico que odeia a humanidade mas, a maior parte do tempo, agindo como um vilão forçado que ganhou um significado chocante a toque de caixa.

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Ultron aparece pela primeira vez, ainda sem nome, apenas com o seu mal humor e maldade de praxe.

A edição #56 foge completamente ao arco da origem de Ultron, colocando os Vingadores em um cenário onde aparecerá o Barão Zemo e Bucky, um tipo de reafirmação de uma morte que, para o Capitão América, ainda não estava muito clara… [pois é]. O verdadeiro destaque desta edição é o sensacional trabalho artístico de John Buscema e George Klein, com um tom mais sombrio do que nas edições anteriores e ótima escolha ao retratar o castelo do Doutor Destino e a relação entre passado e o presente. A história é deslocada e o roteiro não é brilhante, mas trata-se de uma edição até que divertida.

Os números #57 e 58 traz o Visão, criado a partir do corpo do Tocha Humana da Era de Ouro e com memórias do Wonder Man, uma confusão bizarra que Roy Thomas tenta explicar (ao menos a parte da memória), mas perde completamente a atenção do leitor, não só porque o diálogo entre os Vingadores àquele ponto da aventura é tremendamente chato, mas também porque essa procura pela memória do Visão poderia se dar de forma menos neurótica ao longo de outras revistas. De qualquer forma, o personagem tem o décuplo da simpatia de seu “pai” Ultron, além de ter ótimos poderes e ser apresentado muitíssimo melhor, mesmo com um roteiro que o tempo inteiro nos quer colocar milhões de significados complexos para tudo.

visão

Quem dera Ultron tivesse pelo menos metade da simpatia do Visão nesse momento…

O final da edição #58 traz, supostamente, o fim de Ultron (precoce, não?), destruído após uma batalha contra do Visão, que já estava jogando no time dos Vingadores. A cabeça do robô é o que sobra de uma explosão e uma mensagem clara de que ele voltaria vem através de um trecho do Soneto de Percy Bysshe Shelley que acompanha os quadrinhos finais da história:

E no pedestal estas palavras aparecem:
“Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Contemplem minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!”

Nada resta: junto à decadência
Das ruínas colossais, ilimitadas e nuas
As areias solitárias e inacabáveis estendem-se à distância.

Avengers Vol. 1 #54 a 58 (EUA, 1968)
Roteiro: Roy Thomas
Arte: John Buscema
Arte-final: George Tuska, George Klein, Frank Giacoia

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Os Vingadores Vol.1 – #66 a 68

estrelas 4

Essas três edições foram publicadas entre julho e setembro de 1969, um ano depois da criação de Ultron, na Avengers #54. Por não querer colocar centenas de coisas — as únicas novidades aqui são a definição para o que é o Adamantium, na edição #66; e o conselheiro Taku, de Wakanda, que ajuda o Pantera Negra em dado momento da luta empreendida contra Ultron, na edição #68 –, fica bem mais fácil gostarmos da história, porque ela tem corpo, sentido e uma excelente figuração artística .

Quem desenha as duas primeiras edições é o inacreditável Barry Windsor-Smith, que nos dá de presente uma versão diferente para o Ultron, agora chamado de Ultron-6 (lembre-se que ele se espatifou no final do arco anterior) e destaca outros Vingadores de uma forma primorosa nos quadros e em diferentes situações. Vejam que beleza três grandes quadros do artista nessas duas edições.

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Ultron 6, Thor e Golias e Visão, por Barry Windsor-Smith.

Talvez essa excelente diagramação do artista, seguida por Sal Buscema que assinou os desenhos da edição #68, tenha ajudado a dar um ritmo e um caminho mais interessante para a história. Vemos que aqui existe um propósito central — Ultron-6 está louco por vingança — e, por outro lado, os problemas dos Vingadores em relação ao Visão e as muitas questões do herói para consigo mesmo. Essa amplitude de conflitos que não se atropelam, antes, se complementam, cria um ambiente mais propício ao conteúdo que está sendo exposto, trazendo um pouco de ironia e batalha pela vida em paralelo a uma busca de respostas pelo que é viver, pelo que é estar vivo.

Veja que a ameaça do novo Ultron à humanidade é muito mais real e muito mais sentida pelo leitor do que a primeira, que mais parecia um simples capricho. Até a relação de ódio dele com os Vingadores aqui é mais aceitável, mesmo que ainda transpareça pontos forçados, especialmente na constante reafirmação de um ódio que desde o início já havia ficado claro.

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Ultron em ação, por Sal Buscema.

Mais uma vez os planos de dominação do robô são frustrados e mais uma vez eles são impedidos pelos Vingadores. Não há dúvidas que, mesmo não sendo tão simpático, o robô se tornou um vilão marcante para o grupo e, desde a sua versão 5, parece ter ganhado a benção do eterno retorno sem muitas explicações, apenas com aquele assentir do roteirista que caçoa do bom senso do leitor e diz: “porque sim“. Todavia, este arco supera bastante o anterior, é mais divertido, possui uma excelente arte (principalmente as duas primeiras revistas, sob a pena de Windsor-Smith) e um trabalho de construção psicológica que dá profundidade à história, um dos meus maiores problemas com o arco anterior, cuja aparência de gratuidade quase geral, ainda bem, foi afastada daqui.

Avengers Vol. 1 #66 a 68 (1969)
Roteiro: Roy Thomas
Arte: Barry Windsor-Smith, Sal Buscema
Arte-final: Syd Shores, George Klein, Sam Grainger

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.