Crítica | Ulysses, de James Joyce

Ulysses é um homem completo. Parte integrante da tradição narrativa milenar ocidental, o personagem central da epopeia de Homero rendeu bastante para a nossa história literária.  James Joyce, ciente do potencial deste ícone, escreveu um dos romances mais complexos do século XX. O escritor tinha Cristo, Hamlet, Fausto, dentre tantos outros ícones da história cultural, mas preferiu o herói grego como referência para a sua história que é o suprassumo da metalinguagem: reconstrói uma trajetória calcificada no imaginário literário sem se tornar dependente do poema ponto de partida, pois ao passo que desenvolve a sua “versão”, o texto ganha características próprias, fatores que alçam a produção ao patamar dos grandes clássicos do cânone literário no Ocidente.

Adornado por muito humor e sátiras, Ulysses é uma das obras mais marcantes dos estudos literários em língua inglesa. Temas como religião, remorso, amor, dentre outros, constroem a narrativa erguida por meio de técnicas como o fluxo de consciência, metaficção delineada ao passo que percebemos propositadamente a exposição dos mecanismos que engendram uma produção literária e a presença de um estilo para cada capítulo, isto é, em determinado momento há a presença de uma escrita que nos faz lembrar Shakespeare, para mais adiante, sentirmos a forte ressonância de textos bíblicos na narrativa, algo que logo depois, revela traços da tradição grega de narrar, dentre tantos outros estilos que fermentam as diversas alusões literárias pretendidas pelo escritor. A sua estrutura tida como enigmática por alguns especialistas é dividida em dezoito capítulos, um para cada hora que compõe o total da narrativa.

O enredo se desenvolve ao longo de dezoito longas horas de um único dia, 16 de junho de 1904, tendo como foco Leopold Bloom, um homem que se encontra distante de casa, tal como o astuto herói homérico. Ele é o homem comum que vive intensamente uma pequena história, repleta de peculiaridades. Troque o mar grego pelas ruas de Dublin, perceba as características de Penélope em Molly Bloom, drible os neologismos tal como os desafios do retorno de Odisseu para Ítaca e você conseguirá acessar o rico universo construído por Joyce, uma obra mais comentada do que lida, como afirmou certa vez a professora Munira Hund, da USP, numa entrevista para o programa Literatura Fundamental.

Ao longo de suas páginas temos o relato pormenorizado do agente publicitário que se oferta ao leitor numa perspectiva esférica: judeu irlandês, o personagem é um caleidoscópio de aspectos múltiplos de “toda a humanidade”. O seu principal objetivo é retornar para casa ao final do dia, tendo como interesse maior reencontrar a sua esposa. Ao longo do trajeto, entretanto, enfrenta algumas adversidades e episódios que nos remetem ao poema ponto de partida, Odisseia, com uma trajetória repleta de virtuosismo literário. Você já leu Grande Sertão – Veredas, de Guimarães Rosa? Se você já teve a oportunidade, a impressão é a mesma. Joyce cria um caminho peculiar provavelmente interessado na imortalidade de sua obra. De acordo com a crítica literária e a tradição dos seus leitores, conseguiu. O autor brasileiro, por sinal, possui muitas características do romance irlandês em questão, mas conforme as suas próprias afirmações, “nunca teve contato com o livro”. Será?

Semelhante ao que ocorreu com praticamente todos os grandes nomes da literatura que decidiram ousar no que faziam, James Joyce enfrentou severas críticas e proibições acerca da sua obra, cerceada pelo puritanismo europeu que alegava ser o romance um material pornográfico e abusivo. Publicado em 1922, Ulysses foi adaptado para o cinema, teatro, dentre outros setores da produção cultural, além de uma tradição na “vida real”. Não apenas na Irlanda, mas em várias partes do mundo, todo dia 16 de junho, um grupo de pessoas comemora o Bloomsday, com fãs que refazem o percurso de Leopold Bloom durante as dezoito horas de “aventuras” descritas no romance.

Eternizado pelo estreito e seletivo cânone literário, Ulysses traz James Joyce num exercício poético que nos remete aos primórdios do modernismo na literatura de língua inglesa, num romance construído por meio de novos ritmos sonoros, precisão de detalhes, ousadia narrativa, linguagem coloquial e outras características que revelam o seu caráter inovador para a época, questões que justificam o seu espaço no imaginário literário mundial e a sua relevância para a compreensão das mudanças culturais que mexeram com a humanidade num século marcado por duas grandes guerras e outros tensos conflitos ideológicos.

Ulysses (Irlanda, 1904)
Autor: James Joyce
Editora no Brasil: Companhia das Letras
Tradução: Caetano W. Galindo
Páginas: 1112.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.