Crítica | Um Barco e Nove Destinos

estrelas 4,5

Um Barco e Nove Destinos é um filme extremamente rigoroso no quesito técnico e muito importante nas discussões históricas, éticas e morais que propõe em pouco mais de 1h30 de duração. Lançado durante a Segunda Guerra Mundial, a obra não recebeu boas críticas e nem se sagrou um sucesso de bilheteria, mas foi redescoberta com o passar dos anos e apreciada (tardiamente) pelo seu altíssimo valor cinematográfico.

O Mestre do Suspense vinha de um lançamento bastante popular no ano anterior (A Sombra de uma Dúvida), e neste novo projeto, queria desafiar-se, tentar algo novo no sentido narrativo e estético. Sua decisão foi voltar a trabalhar com um tipo de “engajamento político” que ele já havia impresso em algumas obras anteriores, inclusive nos Estados Unidos, como Correspondente Estrangeiro e Sabotador. Mesmo que não fizesse um “cinema político”, Hitchcock se permitia olhar, volta e meia, para os acontecimentos à sua volta, e então criava uma pequena armadilha para o seu público e suas personagens, tendo como plano de fundo um evento histórico marcante.

 Um Barco e Nove Destinos já se inicia com um desastre. Um navio afunda e, nos primeiros minutos de projeção, vemos uma grande quantidade de objetos boiando no oceano. Um corpo também passa pela câmera. O espectador não consegue ver com extrema clareza todo o entorno porque há uma incômoda neblina. O ritmo é sutilmente acelerado a partir daí, e então, chegamos ao bote salva-vidas que servirá de único cenário para todo o filme a partir desse momento.

Não demora muito, e descobrimos que o navio afundado foi torpedado pelos nazistas. Por ironia do destino (leia-se: pelo desejo de Hitchcock em discutir alguns elementos ideológicos da Grande Guerra) um náufrago alemão chega ao bote salva-vidas e é resgatado pelos náufragos aliados. O que se segue é uma notável readequação de visões de mundo por parte das personagens ou de tentativas e conflitos causados por essas mudanças – de uma forma estrutural, me lembrou a jornada psicológica percorrida pelos jurados de 12 Homens e uma Sentença.

Afinal, o que fazer com a vida de um “preso de guerra”? De um inimigo o mundo? E se aquele alemão não fosse nazista? Ele tinha “culpa” de ter nascido alemão? Os aliados, pregadores de uma ideologia democrática, cometeriam um crime semelhante ao inimigo que seus soldados combatiam no front? As perguntas feitas pelas próprias personagens atingem o espectador em cheio. A semente de um pensamento crítico e de uma discussão ideológica de peso está lançada. Hitchcock  então se sente à vontade para “começar” o filme.

A narrativa se torna cada vez mais intricada. Percebe-se que o alemão tem grande conhecimento de navegação e sabe liderar bem um grupo. O roteiro de John Steinbeck e Jo Swerling navega por águas morais e éticas até o momento em que as atitudes ganham espaço. O alemão é linchado pelo grupo do barco – e a câmera de Hitchcock se afasta um pouco, mostrando-os de costas, como uma matilha de cães atacando alguém -. O diretor parece brincar com o limite do aceitável e do condenável, pautando suas provocações com fortes questões ideológicas, o que não deixa o contexto mais simples.

Como não há uma única nota musical de trilha sonora (a música do filme limita-se a algumas canções que o alemão cantarola ou melodias tiradas em uma velha flauta), a montagem de Dorothy Spencer e a direção de Hitchcock precisaram lidar com o peso do drama em cada “bloco” de ação e uma forma de interligar ações ao longo do filme sem fazer com que o espectador se cansasse do cenário “repetitivo” – considerando que não existe uma única tomada do barco visto do exterior, o que tornou o exercício do cineasta ainda mais elogiável – ou se esquecesse de que Um Barco e Nove Destinos se tratava de uma história de sobrevivência em meio à guerra.

Quando o público pensa que os conflitos se resolveram – exceto a questão da consciência das personagens, que em nenhum momento é julgada como pesada ou leve em relação ao que fizeram -, um novo impasse moral se apresenta, na forma de um outro náufrago nazista. O problema é que agora todos do bote salva-vidas já têm uma experiência nada elogiável no trato com esse tipo de indivíduo.

O que fazer quando se encontra o motivo de uma crise logo após sair de uma? É uma tortura antropológica que faz o final de Um Barco e Nove Destinos girar em um ciclo vicioso de escolhas e compreensão, de responsabilidade e julgamento. Hitchcock realiza uma obra coerente com as atitudes de qualquer pessoa em momento de escolhas de peso. O resultado é um notável scanner do comportamento humano quando confrontado com seus piores temores ideológicos. Um filme cada vez mais atual.

Um Barco e Nove Destinos (Lifeboat) – EUA, 1944
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: John Steinbeck, Jo Swerling (baseado em uma ideia de Alfred Hitchcock).
Elenco:  Tallulah Bankhead, William Bendix, Walter Slezak, Mary Anderson, John Hodiak, Henry Hull, Heather Angel, Hume Cronyn, Canada Lee
Duração: 97 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.