Crítica | Um Cadáver para Sobreviver

estrelas 4

Apesar de em um primeiro momento Um Cadáver para Sobreviver ter ecos inevitáveis de Um Morto Muito Louco, pois ambos lidam com um personagem que é um cadáver, as semelhanças param por aí. O novo filme com Daniel Radcliffe, que segue em sua corajosa decisão de sair do caminho comum do estrelato que alcançou logo com seu primeiro papel, é também seu mais bizarro e filosófico, ainda que não seja fácil e automaticamente apreciável.

E essa dificuldade em apreciá-lo não vem de pretensa complexidade, hermetismo ou de discussões “cabeça”, ainda que elas sejam possíveis, mas sim da estranheza que causa logo nos primeiros minutos quando Hank (Paul Dano), que está prestes a se matar por não ter mais esperanças de ser resgatado de uma ilha deserta, vê, na praia, o corpo de um homem que logo descobre estar morto, o que novamente desinfla suas esperanças. Mas esse corpo – mais tarde batizado de Manny (Radcliffe) – revela-se como sua tábua de salvação graças à uma desconcertante “flatulência eruptiva”, que o transforma em um providencial Jet-Ski que leva Hank ao continente. Se você torceu o nariz para essa breve sinopse, saiba que ela é apenas a ponta do iceberg, pois as coisas ficam consideravelmente mais estranhas a partir desse ponto.

Portanto, para que o filme tenha alguma chance de funcionar, o espectador terá que trafegar por alguns (vários, na verdade) momentos de incredulidade diante do que está assistindo e terá que ter força de vontade para passar por cima das tais flatulências e alguns outras doideiras do “homem-canivete suíço” (a tradução literal do título original), notadamente a gradativa reanimação do corpo, que passa a efetivamente interagir com Hank em um mergulho no que bem poderia ser o exemplo atual de uma obra do surrealismo. Mas tenho a sincera impressão que, uma vez ultrapassada a fase de adaptação, o espectador terá muita coisa para apreciar nesta terna obra de Dan Kwan e Daniel Scheinert, ambos debutando na direção e roteiro de longa-metragem.

Afinal, muito além das doideiras divertidas – algumas nojentas – do roteiro e da progressão da narrativa, Um Cadáver para Sobreviver é um filme sobre solidão, desespero e imaginação, além de conter pitadas desconcertantes de obsessão, esta última encapsulada na estranha fixação de Hank por Sarah (Mary Elizabeth Winstead), uma jovem que ele conhece apenas por que, antes dos eventos do filme, ela pegava todo o dia o mesmo ônibus que ele. É na observação do mundo de Hank por seus olhos que o filme ganha brilho e galga vários degraus acima da premissa singular.

Se visto pelo seu valor de face, o filme será um grande show de atuações da dupla principal. A interpretação de Dano é doce e ao mesmo tempo angustiante. Diferente do espectador, ele nunca, em momento algum, duvida de verdade de Manny e de suas, digamos, mil e uma utilidades, e, a cada minuto que passa, sua ligação com o cadáver que aos poucos vai de certa forma revivendo (na verdade, é Hank que vai sendo reanimado!), torna-se mais umbilical. Radcliffe está excepcional e incrivelmente convincente como um morto. Há um brilhante trabalho de maquiagem ajudando-o neste papel, com sutis transformações na medida da progressão da obra, mas sua capacidade de exprimir sentimentos apenas com sua voz ouvida entre dentes e com um mínimo de movimentação facial é realmente belíssima de se ver.

Mas o valor de face só fará sentido se encararmos a obra como uma fábula e ela, certamente, em muitos momentos, tem essa natureza. A ilha deserta no exato formato padrão de “ilha deserta de desenho de criança”, as cores fortes que pontificam a odisseia de Hank e Manny pela floresta, a progressão cheia de obstáculos dos mais improváveis, de pontes a ursos, entre outros, levam a crer que essa é uma das possíveis e legítimas formas de se olhar para Um Cadáver para Sobreviver. Aliás, o estranho final, que coloca terceiros – Sarah, o pai de Hank e repórteres – testemunhando um “momento impossível” que antes era exclusivo dessa relação solitária entre a dupla, tem a tendência de levar o espectador a esta conclusão.

Acontece que este é apenas o caminho mais direto. Talvez, aqui, seja o momento em que o leitor queira parar de ler se não tiver visto o filme, pois inevitavelmente entrarei em aspectos que poderão estragar a experiência audiovisual.

Seguem spoilers.

Enquanto os acontecimentos ficam restritos a Hank e Manny, os devaneios do roteiro podem ser interpretados simplesmente como algo que existe apenas na cabeça de Hank, provavelmente sofredor de esquizofrenia ou algum outro tipo de problema mental (repare como ele é duas vezes chamado de “retardado” pelo pai). É perfeitamente possível até mesmo ignorar a existência física de Manny e interpretá-la como uma manifestação de parte da personalidade reclusa de Hank. O filme, com isso, seria uma calorosa parábola sobre a solidão e a possível doença mental do personagem visto sob seu ponto de vista escapista e alucinógeno.

Quando, porém, a filha de Sarah vê Hank – é possível interpretar que ela não vê Manny – a realidade começa a chocar-se com a conclusão de que tudo se passa na cabeça de Hank, o que leva a narrativa para o lado fabulesco que mencionei mais acima. No entanto, tenho para mim que é perfeitamente possível conciliar as duas visões. Por um lado, podemos manter a interpretação de que tudo – do começo ao fim, incluindo a sequência final a partir do jardim da casa de Sarah – se passa na cabeça de Hank, possivelmente internado em algum centro de tratamento de desordens psiquiátricas. Sim, há determinado momento em que vemos Manny “transformando-se” novamente em Jet Ski pela objetiva da câmera da televisão local, mas o mergulho na mente de Hank pode ser tão profundo que até isso é algo fruto de sua mente febril.

Melhor ainda, porém, é ver o filme como sucessões de entradas e saídas da realidade por Hank. A ilha? Nunca existiu ou simplesmente não era uma ilha – a tomada inicial, em plano aberto, dá essa impressão, mas pode ser somente impressão. A odisseia de Hank? Aconteceu não mais do que 100 ou 200 metros atrás do jardim de Sarah. Ele achou um corpo? Sim. É o catalisador da história e aquilo que o faz mais intensamente abandonar a realidade, ainda que ele não o tenha arrastado para todo canto. O finalzinho? Bem, é sua fuga desesperada para dentro de sua mente para racionalizar o que está acontecendo diante dos fatores externos que precisa enfrentar.

Fim dos spoilers.

Mas o mais importante é não matutar muito sobre os detalhes e deixar o filme correr solto. Tentar entender cada momento, cada maluquice, cada bizarrice é receita para que se perca a visão do todo. É correr da abordagem lírica da solidão e da fuga para um cantinho aconchegante da mente que pode nos trazer conforto e força em momentos-chave de nossas vidas.

Um Cadáver para Sobreviver (Swiss Army Man, EUA – 2016)
Direção: Dan Kwan, Daniel Scheinert
Roteiro: Dan Kwan, Daniel Scheinert
Elenco: Paul Dano, Daniel Radcliffe, Mary Elizabeth Winstead, Antonia Ribero,  Timothy Eulich, Richard Gross, Marika Casteel, Andy Hull
Duração: 97 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.