Crítica | Um Convidado Bem Trapalhão

“Quem você pensa que é?”

“Na Índia, nós não pensamos quem somos, nós sabemos.”

Contém spoilers.

O brownface é uma variação do blackface. Em ambos os casos, a maquiagem é utilizada para que se seja “incorporada” em determinada pessoa uma outra etnia, variando-se a tonalidade da cor de pele de um exemplo para o outro e, dessa forma, a etnia e povo representado. Na maior parte das vezes, a utilização vem aliada com uma caracterização estereotipada, caricata, que tenta “imitar” o outro, porém de uma maneira extremamente preconceituosa, caindo fortemente para uma representação cômica e, consequentemente, exagerada e desnecessária. A representação japonesa em Bonequinha de Luxo, feita por Mickey Rooney, é um exemplo extremamente ofensivo e de mau gosto. Mas há controvérsias e espaço para que o debate seja mais aprofundado, visto que há perigo de que tais obras sejam completamente menosprezadas por pontuações anacrônicas. O olhar diferenciado, porém, é necessário, para que não se seja repetido erros do passado. Também dirigido pelo mesmo diretor de Bonequinha, Um Convidado Bem Trapalhão coloca Peter Sellers, com brownface, interpretando Hrundi Bakshi, um destrambelhado ator convidado pelo acaso para uma festa organizada por aqueles que mais o queriam fora da indústria, depois de um prejuízo estrondoso ter sido causado por ele. Peter Sellers, um conhecidíssimo ator de comédia, teria graça de qualquer forma. A piada aqui é por ele ser a representação estereotipada de um indiano ou pelo seu personagem ser extremamente atrapalhado? Quem está sendo zombado, se é que está sendo zombado, Hrundi Bakshi ou a sua “etnia” – uma maquiagem a ser criticada? O debate está no ar.

As diferenças entre um caso, o de Mickey Rooney, com esse, o de Peter Sellers, são muitas. Indiscutivelmente, nos dias de hoje, tal utilização da maquiagem é completamente inviável e com razão, mas sobra argumentos para que não se coloque cada uma desta farinha no mesmo saco. Blake Edwards, diretor do filme, é muito mais sutil em Um Convidado Bem Trapalhão, focando mais no contexto, capaz de ser absorvido comicamente por qualquer um, do que no exercício de recorte. Afinal, quem nunca se sentiu totalmente deslocado em uma festa? Quem nunca molhou, sujou ou prendeu em algum lugar alguma parte da roupa e teve que se virar das maneiras mais inimagináveis possíveis? Você já ficou bêbado e fez vexame? Hrundi também. Blake Edwards vai revisitando tantas situações que é difícil que nenhuma seja identificável. Ao menos, todos já tentarem se intrometer em alguma conversa, em algum círculo de amigos; isso é fato. Mas Hrundi não é um exímio festeiro, capaz de se adaptar a qualquer ambiente. Sendo assim, Peter Sellers tem uma das suas performances, para aqueles que poderem ignorar um brownface de mais de meia década, mais engraçadas, visto que o seu personagem é capaz de criar as maiores bolas de neve, aumentar as proporções das problemáticas drasticamente, de uma forma orgânica. A realidade é que o personagem de Sellers nem precisava ser de origem indiana, a piada não é sobre isso. De qualquer forma, espera-se que, no dias de hoje, quando forem retratar um homem não-caucasiano em telas, um homem não-caucasiano o interprete.

Em um diferente ponto de visão, Edwards capta perfeitamente bem os momentos cômicos, alongando o quanto possível os planos e, como resultado do trabalho certeiro, a permanência de quase um filme inteiro em uma mesma ambientação, a casa onde está acontecendo a festa, não é tão estafante. O diretor consegue, com ajuda de Peter Sellers e mais para frente, Steve Franken, interpretando um garçom bêbado, criar sequências que demandam comprometimento extremo dos atores. O crescente problemático fica ainda mais perceptível em cenas maiores, piadas que pedem ao espectador para esperar as consequências que estão por vir, como por exemplo, aquela em que Hrundi simplesmente vai ao banheiro e tem problemas com uma descarga, mas termina criando um vazamento de água gigantesco. A seguir, o personagem foge pela janela do banheiro e encontra o seu “fim” caindo em uma piscina. Mais para o começo do filme, Edwards torna envolvente a busca do protagonista pela outra metade do seu par de sapatos, a qual dura alguns minutos. Com a introdução do garçom bêbado, que dá margem para mais humor (durante o jantar, a porta balançando, transformando meras discussões entre os funcionários em esganações), temos a certeza de uma câmera ainda mais observativa, visto que o espectador, convidado também para a festa, há de escolher o que prestar atenção nas cenas, as quais contém muita coisa acontecendo, ainda mais quando a festa torna-se uma loucura total regada a álcool e espuma.

Mais para o final da peça, fora destes momentos cômicos citados, Edwards até mesma coloca o personagem de Sellers como herói, encarando o horrível Divot (Gavin MacLedo) e clamando, ao ser perguntando quem ele pensava que ele era, que na Índia as pessoas não pensam quem elas são, elas sabem. A obra, ao final de tudo, enaltece o protagonista, que se vai pelo horizonte em um carrão. Não que Hrundi seja um grande representante da cultura indiana, longe de qualquer estereótipo, um personagem cheio de camadas além de “indiano”, atrapalhado e gente boa, mas definitivamente, em termos narrativos, ele não é ofensivo. A questão é que ele é até mesmo extremamente carismático, como se revela ao interagir com Michelle Monet (Claudine Longet), uma das convidadas da festa e que o protagonista cria um vínculo, possivelmente amoroso. Enquanto, inicialmente, os olhares de interesse dela são menos críveis, visto que não haveria motivo lógico para a personagem se interessar por aquele sujeito envolvido em tantas trapalhadas, quando os dois começam a conversar factualmente, mais para o fim do filme, as coisas se desenvolvem com considerável verdade. A situação da personagem com Divot, aliás, até relembra os recentes escândalos de assédio sexual em Hollywood, com homens poderosos se aproveitando sexualmente da situação de jovens em início da carreira, condenando aquelas que se negarem. O recorte da indústria cinematográfica – uma festa recheada de produtores, diretores e atores – prova ser bem interessante, e cômico quando se trata do personagem Wyoming Bill (Denny Miller). 

Mas a festa não para por aí e Molly (Kathe Green), filha dos donos da casa, uma representação da juventude subversiva da época, surge com uma quantidade enorme de amigos e até mesmo um elefante; um “a Terra é plana” estampa sua testa. As proporções, antes mais contidas, são transportadas para a festa em si, que torna-se uma versão Projeto X, mas muito mais fina e elegante. Ademais, Hrundi, mais sumido depois dessa mudança de perspectiva com a introdução dos jovens, não é um personagem excepcionalmente coerente por parte do texto, que puxa, algumas vezes, piada dele e não das situações que, ocasionalmente, o personagem teve de enfrentar. Quando ele explode uma locação toda, no começo do longa, a situação não é intencional, mas uma trapalhada. Contudo, ao pressionar vários botões aleatórios, a ignorância do personagem é zombada, visto que, obviamente, não se deve apertar botões aleatoriamente. Ao tentar limpar uma pintura, Hrundi demora para perceber que estava manchando-a, enquanto uma pessoa em sua situação perceberia o que fez logo de cara. A piada, portanto, não é coerente com o que rodeia a maior parte do filme: trapalhadas e não idiotices. Finalmente, o filme também não é excepcionalmente bem ritmado, com o cenário tornando-se mais cansativo por uma repetição que apenas termina com a chegada desse grupo de jovens, e que faz a obra mudar completamente e ficar ainda melhor. Todavia, Um Convidado Bem Trapalhão é realmente uma ótima obra de comédia, mesmo que nunca fosse ser estrelada por algum Peter Sellers nos dias de hoje, mas um Aziz Ansari.

Um Convidado Bem Trapalhão (The Party) – EUA, 1968
Direção: Blake Edwards
Roteiro: Blake Edwards, Tom Waldman, Frank Waldman
Elenco: Peter Sellers, Claudine Longet, Natalia Borisova, Jean Carson, Marge Champion, Denny Miller, Gavin MacLedo, Frances Davis, Al Checco, Marge Champion, Sharron Kimberly, Corinne Cole, Dick Crockett, Danielle de Metz, Herb Ellis, Paul Ferrara, Steve Franken, Kathe Green, Stephen Liss, George Winters, Fay McKenzie, Buddy Lester
Duração: 99 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.