Crítica | Um Corpo Que Cai

estrelas 4,5Eleito em 2012 pela revista inglesa Sight&Sound como o maior filme de todos os tempos através de uma pesquisa rigorosa, chega a ser uma espécie de ironia quando lembramos da fraca recepção que Um Corpo Que Cai, de Alfred Hitchcock, recebeu da crítica e do público quando lançado. Atualmente, o filme rivaliza pelo posto de melhor filme do diretor, lado a lado com outro clássico seu, Psicose.

Mas apesar de ambos os filmes carregarem todas as características que marcam os projetos de Hitchcocok, Um Corpo Que Cai assume uma posição mais pessoal e singular dentro da filmografia do diretor. Embora a reviravolta de Psicose tenha feito o público gritar nos cinemas, Um Corpo Que Cai, com o tempo, se tornou um filme-referência muito maior, especialmente pelas inovações técnicas e narrativas criadas por Hitchcock, e que até hoje são tidas como inspiração para diversos realizadores contemporâneos. O filme é, além disto tudo, uma das viagens mais assustadoras e perturbadoras do mestre do suspense, e quem é conhecedor de seu cinema sabe que isto não é pouco.

De fato, Um Corpo Que Cai é, antes de um filme autoral, um filme experimental de Hitchcock, tal qual foi Festim Diabólico e como viria a ser o posterior Os Pássaros; com este último, a comparação talvez seja válida pelo flerte inesperado que as duas obras fazem com o sobrenatural e o espiritual, porém sem trazer respostas concretas ou pistas sobre o que Hitchcock queria, de fato, dizem com aquilo. O que vale é a experiência sensorial proporcionada, e neste sentido, Um Corpo Que Cai talvez seja a obra-prima de Alfred Hitchcock.

Mas comecemos do início. Scottie Fergurson (James Stewart, que colaborou com Hitch em diversos de seus filmes) é um policial que, após descobrir que possui medo de altura em meio a uma perseguição que acaba tirando a vida de um de seus colegas, aceita participar em tratamento, mas logo é contatado como detetive particular para seguir a esposa de um amigo, Madeleine Elster (Kim Novak), a qual o marido não desconfia que esteja cometendo adultério, mas crê que a mulher possa estar possuída por um espírito feminino. Apesar de sua descrença, Scottie concorda em auxiliar o amigo, e logo se vê envolto numa trama que, aos poucos, o joga em meio a uma espiral de loucura e ansiedade.

Como um produto pouco típico de Hitchcock (embora isto não esteja tão claro em sua superfície), Um Corpo Que Cai é um dos jogos de manipulação e subversão mais brilhantes já feitos pelo diretor. Seus personagens, de início, deixam transparecer uma aura de normalidade típica de figuras unidimensionais, mas que aos poucos vão se revelando como personalidades dúbias, complexas, algo pouco comum nos filmes do diretor, sempre povoados por personagens claramente bem divididos entre o bem e o mal (embora Hitch tenha, diversas vezes, desafiado esta aparente moralidade). E tais quais seus personagens, Hitch brinca com o espectador ao exibir um domínio impressionante sobre sua narrativa, que de início brinca com a espiritualidade para construir sua atmosfera, mas após a metade, cria uma ruptura inesperada, porém brilhantemente bem feita, transformando o que parecia ser um suspense sobrenatural num drama pesado e sufocante sobre as obsessões e loucuras de um homem, causadas por um sentimento que todos em comum: a paixão.

Revelar mais do que isto seria estragar completamente a guinada que o filme dá em certo momento, mas basta dizer que Hitchcock traz em Um Corpo Que Cai os personagens mais humanos e intimistas de sua filmografia. O diretor se aprofunda nos dois lados da moeda, dando ao espectador uma deliciosa sensação de incerteza sobre os reais rumos da narrativa, ao tempo em que brinca como quer com o espectador e desafia nossas habilidades sensoriais, fazendo uso da cor e da perspectiva como principais armas para nos levar a uma nova dimensão da experiência.

E Hitchcock, detalhista e perfeccionista como era, confere extrema atenção a detalhes pouco claros à primeira vista, mas que se observados mais atentamente, funcionam como inteligentes indícios sobre a real complexidade de sua trama. Repare, por exemplo, na importante função que as cores possuem, carregando o filme de uma beleza plástica magnética e assustadora, algo que pode ser atestado numa determinada cena em que Madeleine é iluminada por uma luz néon verde, trazendo para a cena uma qualidade visual que ainda impressiona nos dias de hoje. E o filme de Hitchcock segue este exemplo durante toda a sua metragem, evitando qualquer tipo de gratuidade em cima dos figurinos, cenários ou cores. Tudo o que está ali, está por algum motivo.

Hitch também provoca e instiga o espectador ao criar um quebra-cabeça de perspectivas em cima do que nos é revelado durante a narrativa: em determinado momento, o público descobre uma virada antes do protagonista, que é mantido no escuro durante todo o último ato, nos levando a um estado de agonia e expectativas que poucos filmes já ousaram alcançar. O diretor também demonstra destreza e inteligência ao utilizar sua câmera não apenas como uma forma de filmagem, mas como mais uma arma para o espectador adentrar na trama com ainda mais profundidade, algo que permitiu a Hitchcock criar o chamado contrazoom, técnica que nos traz a sensação de vertigem, e que viria a ser copiada e até mesmo parodiada diversas vezes nos anos seguintes.

Com atuações profundamente expressivas de James Stewart e Kim Novak, que também incendeiam a tela com sua química poderosa, além da trilha sonora inesquecível e criativa de Bernard Herrmann (que em certo momento, se faz presente durante 20 minutos seguidos da narrativa), talvez ainda seja muito difícil definir é ou não a obra-prima de Alfred Hitchcock. Mas é, sem dúvidas, uma de suas realizações mais poderosas, fascinantes e atemporais.

Um Corpo Que Cai (Vertigo, EUA, 1958)
Roteiro: Alec Coppel, Samuel A. Taylor
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: James Stewart, Kim Novak, Lee Patrick, Ellen Corby, Barbara Bel Geddes, Tom Helmore, Henry Jones, Raymond Bailey
Duração: 129 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.