Crítica | Um Dia a Casa Cai (1986)

estrelas 3

Um Dia a Casa Cai é o tipo de comédia quase atemporal, pois a representação histriônica de seu protagonista, Walter Fielding (Tom Hanks) e as situações embaraçosas na tal casa são divertidas e não ofensivas se comparado diante do que se convencionou a qualificar como “comédia” na contemporaneidade. É o tipo de filme para toda a família, daqueles que divertem e nós já sabemos como será o final. No entanto, quando eu digo quase atemporal, me refiro à alguns pequenos problemas que atrapalham a fruição narrativa: tudo seria perfeito dentro do gênero “comédia inofensiva” se não houvesse uma minúscula, mas incômoda fagulha de estereótipo sobre nós brasileiros para tornar a narrativa mais “engraçada”.

Independente dos problemas políticos internos, o Brasil é um país com dimensões mais amplas que na década de 1980 no que tange às relações internacionais e a presença na cena internacional em representações positivas. Sendo assim, um filme que abre a sua narrativa com um homem que fugiu da sua terra após um desfalque milionário, tendo o Brasil como refúgio por ser uma terra sem lei e alvo dos bandidos de todo o planeta soa ofensivo e algo muito generalizado. Voltaremos a esta questão, entretanto, ao final.  Vamos agora nos ater aos aspectos gerais da divertida comédia.

Na trama, o casal Walter Fielding e Anna Crowley (Shelley Long) vivem em um apartamento temporário. O imóvel pertence ao arrogante Max Beissart (Alexander Gudonov), o ex-marido de Anna, um músico afetado e aspirante a “Don Juan”, frequentemente farejando o novo relacionamento da ex-mulher, tendo em mira conquistá-la novamente. Além de ter que lidar com esse problema no casamento, Walter precisa entender a postura do pai, um homem que roubou milhões e refugiou-se para o Brasil em busca de tranquilidade, além de ter que sair do apartamento por conta do retorno do ex-marido da sua namorada, de volta após uma turnê musical pela Europa.

Após muita pesquisa, o casal encontra uma casa. O local é a habitação dos sonhos. Ampla, bela externamente, tem um imenso e frondoso jardim, além de ser cheia de cômodos e ter o preço cinco vezes menor que seu valor aparente. Animados, compram e se mudam imediatamente. Os problemas, portanto, não vão embora, ao contrário, tornam-se mais frequentes. A casa vai se tornar a soma de todos os seus pesadelos. Nada funciona na casa: os encanamentos estouram, as tomadas explodem, as paredes ocas caem aos pedaços, em suma, o que era sonho tornou-se pesadelo.

Para mudar o panorama, iniciam uma voluptuosa reforma na casa. A partir desta reforma, repaginam também o relacionamento, principalmente após uma pequena crise acometer o casal: há, no ar, uma possível traição por parte de Anna, após ser submetida a uma situação vexatória com o seu ex-marido. No final, após rirmos bastante das cenas absurdas envolvendo a casa caindo aos pedaços, somos brindados pelo esperado casamento do casal. Todos os personagens aparecem em cena, em rápidos flashes, o que nos remete à linguagem do videoclipe.

Basicamente, o filme se resume a isso. O que não é pouca coisa, haja vista a quantidade de piadas divertidas, situações hilariantes e a tal piada envolvendo o Brasil, algo aparentemente pequeno, mas de tamanha complexidade. O filme é uma refilmagem de Lar, Meu Tormento, de 1948, comédia dirigida por H. C. Potter, tendo Cary Grant como protagonista. A sua versão oitocentista foi lançada em 26 de março de 1986. Sob a direção de Richard Benjamin, o filme conta com o eficiente trabalho musical de Michel Colombier e a edição funcional de Jacqueline Cambas, um dos pontos altos da produção, pois dá ritmo e sagacidade às cenas de “ação”.

Ainda no que tange aos meandros da equipe de produção, a comédia teve a produção executiva de Steven Spielberg, além da direção de fotografia de Gordon Willis, responsável por filmes como O Poderoso Chefão e Manhattan. Em Um Dia a Casa Cai, o nome do profissional talvez tenha ajudado na “venda” do filme diante do mercado, mas sinceramente, não faz muita diferença, pois a sua atuação na fotografia do filme entrega o mais do mesmo, algo totalmente distante das suas excepcionais parcerias com Francis Ford Copolla e Woody Allen.

Não fosse o “problema” político, a narrativa seria inofensiva. Os produtores, entretanto, preferiram aderir à miopia e sequer realizar alguma pesquisa antes da concepção final do filme. Um ato falho imperdoável. A jornalista Lúcia Murat nos apresenta isso com maestria no documentário Olhar Estrangeiro, um panorama sobre filmes que representaram o Brasil através da ótica do estereótipo.

Com 91 minutos frenéticos de muito riso e histeria, Um Dia a Casa Cai cumpriu a sua promessa de fazer rir e entreter, tendo se tornado um dos clássicos das sessões vespertinas na rede de televisão aberta. Em 2014 a casa que serviu de locação para o filme foi colocada à venda pelo valor de U$12,5 milhões de dólares: mais um exemplo sobre a ficção não invadindo a realidade.

Um Dia a Casa Cai (The Money Pit) – EUA, 1986.
Direção: Richard Benjamin.
Roteiro: David  Giler.
Elenco: Tom Hanks, Shelley Long, Alexander Gordunov, Joe Mantegna, Philip Bosco, Josh Mostel, Brian Baker, Billy Lombardo.
Duração: 91 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.