Crítica | Um Dia na Vida (2010)

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Um Dia na Vida (2010) é um filme torturante, mas isso não é culpa do realizador Eduardo Coutinho. Explico: trata-se de uma experiência cinematográfica baseada na montagem de cenas da televisão aberta do Rio de Janeiro, condensando 19 horas seguidas do dia 1º de Outubro de 2009 em pouco mais de uma hora e meia. A projeção acompanha programas da Globo, Record, RedeTV!, SBT, Band, MTV, CNT e TV Brasil, canais que (de)formam o imaginário de milhões e milhões de brasileiros. Se Coutinho se notabilizou por documentários maravilhosos como Cabra Marcado Para Morrer, Santo Forte, Edifício Master e Jogo de Cena, pode-se ver neste Um dia um experimento radicalmente único na já singular filmografia do maior documentarista do Brasil.

Antes de tudo, cabe lembrar que o cineasta teve uma marcante passagem pela televisão. No final dos anos 50 e ao longo dos 60, inserido no Cinema Novo, assinou roteiros e dirigiu; a partir da década seguinte, ingressou no Globo Repórter, onde começou a se formar como mestre do documentário e aprendeu valiosas lições que se tornaram sua marca própria. Sinceridade, franqueza, respeito à alteridade, interesse pelo ser humano como fonte infinita de histórias, encanto pelas palavras, desmobilização do cinema como espetáculo- eis os traços que configuram a autoralidade de Coutinho. Um cinema direto e reto, que nem por isso deixa de denunciar o aparato, acusar o ilusionismo inerente à matéria fílmica e buscar, mesmo no artesanato minimal e rigoroso das produções, espaços para a efabulação e o lirismo. Estética e ética formam, assim, um só e mesmo corpo, baseado no respeito ao lugar de fala do Outro (sobretudo daqueles “outros” amiúde relegados ao silêncio) e nas maravilhosas descobertas decorrentes deste espaço concedido.

Não será difícil notar, portanto, que Um dia na Vida retrata o extremo avesso do projeto coutiniano. Todo baseado nas premissas da indústria cultural e da sociedade do espetáculo, o filme é dolorosamente formado por programas de auditório, semanários de fofoca, apresentadores sensacionalistas, novelas pasteurizadas, cultos religiosos e propagandas, propagandas, propagandas. As mulheres coisificadas rebolam as bundas volta e meia apalpadas; um misto de “cidadãos de bem” e narradores esportivos bradam, com sanha punitiva, a morte dos bandidos, com direito a apologias do “tiro no couro”; mesmerizado pela repetição, um senhor diz e rediz o seu “Okay, Okay”, interessando-se (e tentando tornar interessantes) as miudezas das subcelebridades de plantão; um programa noturno torna sublimes os rega-bofes da high society.

Tudo é enauseante, tudo cansa. O zapping sádico de Eduardo Coutinho não nos dá sequer a possibilidade de escolha, estamos presos nessa rede de banalidades sem poder mudar, por nós mesmos, o canal. Um atrás do outro, os espetáculos mais se assemelham do que distinguem, como se apesar da multiplicidade de sessões todas não passassem, em suma, de uma só. Como num pesadelo, pensamos estar livres de um monstro gritalhão, mas eis que chega outro; comemoramos o fim da venda bombástica de produtos, mas logo ela retorna.

A televisão seria, por conseguinte, o grau zero da linguagem audiovisual. Esvaziada de qualquer vida inteligente, transformada em rede fast-food, democratizadora do lixo (vendido como luxo), ela está pouquíssimo interessada em qualquer bom senso estético. Se os documentários de Eduardo Coutinho primam pela beleza humanista, a televisão gosta mesmo é da gritaria colorida; se Coutinho respeita a integridade humana de seus personagens, os espetáculos diários cortam o vídeo (“não podemos deixar o espectador se entediar”) e picotam os seres. Enquanto o artista se distingue, a indústria do entretenimento corta as arestas, abole as diferenças, exila a singularidade, subdesenvolve os neurônios.

Há apenas um senão a se contrapor ao cenário apocalíptico que tracei: Um dia na Vida não é um documentário de tese disposto a provar que a TV é o mal do século. O diretor, como sempre, dá voz às atrações televisivas, espera que elas discursem por si mesmas, interferindo tão somente no resultado final da edição e montagem. Não há narração a dirigir a leitura do filme, nem trilha sonora que disponha os ânimos do público. Por esse motivo, o experimento pode ter recepções diversas da que tive, justamente porque é na televisão que muitos encontram o caldo mítico que supera a ordinariedade do cotidiano. Lá se encontram os ídolos, os famosos, as celebridades, os vultos, os personagens “acima de nós”. A depender da audiência, a projeção pode inclusive causar, em vez do esgar que me grassou, a identificação com uma experiência do dia a dia, com referências culturais correntes e difundidas. Não bastará, pois, que o olhar crítico encontre no longa a excrescência do audiovisual, será necessário também perceber que é ela, a televisão, com seus bilhões defeitos, que forma a mitologia coletiva, na falta de outros parâmetros mais elevados.

O filme é quase insuportável, mas a experiência humana vale a pena. A condensação imposta pela edição hiperboliza os traços distópicos da TV aberta brasileira. Depois de tudo isso, ao terminar a tortura autoimposta, vale muito rever o bom e velho Coutinho de sempre, com seu inventário de pessoas/personagens antológicas. Após a enxurrada de platitudes, o valor desse grande cineasta se destaca ainda mais.

Um dia na vida- Brasil, 2010
Direção: Eduardo Coutinho
Roteiro: Eduardo Coutinho
Duração: 94 min.

GUILHERME ALMEIDA . . . Estudante de Letras e apaixonado por literatura e cinema, acho Crime e Castigo o auge da inteligência humana, não consigo assistir Tarkovski sem acender uma vela e me emocionar, e toda vez que vejo Taxi Driver me olho no espelho e lanço um “You talking to me?”. Se por uma desgraça cósmica preciso passar um dia sem contato com a Arte, sofro de profunda abstinência e preciso ser amarrado numa camisa de força. Nesses momentos, não se aproximem.