Crítica | Um Dia no Campo

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A primeira imagem que vemos no belo filme de Jean Renoir, Um dia no Campo (1936), é a de um lago plácido. O contato inicial que estabelecemos com o filme funciona como preâmbulo do que virá pela frente: o protagonismo dado à natureza e a sensibilidade pictórica do diretor, filho do impressionista Auguste Renoir. Nesta obra do mestre francês, as árvores, águas e pássaros não são mera moldura ou ornamento, mas constituem elemento essencial na economia simbólica do filme.

O entrecho é bastante simples: num domingo de verão, o comerciante Dufour (André Gabriello) e sua família deixam o ambiente urbano parisiense e dirigem-se ao campo. O campo concentra uma miríade de aspectos positivos: promove o renascimento de certas personagens, opõe-se à sociabilidade mercadológica citadina, permite a vida contemplativa e o reencontro com a beleza virginal. Nesse sentido, pode-se dizer que através dele se reafirma a tópica literária do locus amoenus, e que, ademais, reitera-se uma oposição muitíssimo tradicional entre centro e interior, urbe e província (ou, nos termos de Eça de Queirós, A Cidade e as Serras).

A importância dada aos ambientes é quase comparável à dos personagens. Dois procedimentos contribuem para construir a relevância do espaço. Em primeiro lugar, Renoir muitas vezes escolhe localizar a câmera no meio da mata, de tal maneira que o enfoque dado aos atores concorre e coexiste com partes de galhos e folhas, sugerindo uma conciliação pacífica entre homem e flora, natureza e cultura. Além disso, o diretor, tal como em vários outros de seus filmes, promove inúmeros movimentos horizontais de câmera, destruindo a circunscrição espacial, ampliando os horizontes do visível- essa escolha técnica ajuda o espectador a se aperceber mais eficazmente dos ambientes que cercam os personagens.

A protagonista, Henriette (Sylvia Bataille), filha do senhor Dufour, é certamente quem mais sentiu o efeito renovador do campo. Encantada com a poesia profunda da natureza, ela também se apaixona por Henri (Georges D’Arnoux), homem melancólico, amoroso e nostálgico, igualmente atraído pelos encantos bucólicos do local. Tamanha é a diferença de índole entre Henri e Anatole (Paul Temps), o futuro marido de Henriette, um verdadeiro paspalhão tosco, que o espectador não pode evitar de lamentar sinceramente o triste desenlace do enredo, quando, após anos, Henriette volta ao campo, casada com Anatole e impossibilitada de viver seu verdadeiro amor por Henri.

Por falar em desenlace, é de fundamental importância o fato de que o filme não foi totalmente concluído por Renoir. Dado o caráter inconcluso da obra, foi necessário o acréscimo de duas legendas explicativas, que auxiliam o público a se situar na história. Se graças a isso Um Dia no Campo não consegue estabelecer com solidez suficiente o arco dramático, há pelo menos um pró que compensa os contras da fragmentação do filme: o enredo ganha um tom mais episódico e solto, livre dos constrangimentos das tramas bem construídas; em vez de um percurso com começo, meio e fim, com partes absolutamente concatenadas e deduzidas umas das outras, vemos uma trajetória casual e fortuita, homóloga à liberdade inspirada pelo frescor campestre.

Tal frescor foi canonizado nas telonas através de cenas antológicas. A célebre cena do balanço, com a câmera acompanhando Henriette em seu movimento pendular e libertador; os planos-sequência a partir da canoa que singra o lago, quase tão belos quanto aqueles de Boudu, Salvo das Águas (1932) … Há algo de sublime em tudo o que Renoir nos mostra, e continua impressionante sua capacidade de narrar visualmente, captando momentos com faro ímpar. O enlevo que toca os personagens também nos sensibiliza- e dizemos o que o Fausto de Goethe, engolido pela ânsia moderna de transformação (avessa, pois, à contemplação e fruição detida), nunca foi capaz de proferir: “Oh, para! És tão formoso!”.

Um Dia no Campo (Partie de Campagne – França, 1936)
Direção: Jean Renoir
Roteiro: Jean Renoir, Guy de Maupassant (conto original)
Elenco: Sylvia Bataille, Jane Marken, Georges D’Arnoux, André Gabriello, Jacques B. Brunius, Paul Temps, Gabrielle Fontan, Jean Renoir, Marguerite Renoir
Duração: 40 min.

GUILHERME ALMEIDA . . . Estudante de Letras e apaixonado por literatura e cinema, acho Crime e Castigo o auge da inteligência humana, não consigo assistir Tarkovski sem acender uma vela e me emocionar, e toda vez que vejo Taxi Driver me olho no espelho e lanço um “You talking to me?”. Se por uma desgraça cósmica preciso passar um dia sem contato com a Arte, sofro de profunda abstinência e preciso ser amarrado numa camisa de força. Nesses momentos, não se aproximem.