Crítica | Um Dia Perfeito (2015)

estrelas 3,5

Muitas vezes, a chave da eficácia de uma obra reside no que se pode chamar de “simplicidade inteligente” ou “falsa simplicidade”. Enquanto certas produções, por vezes, recorrem a roteiros cheios de firulas e de reviravoltas mirabolantes para prender a atenção do expectador, outras recorrem a uma narrativa mais objetiva, mas, nem por isso, menos valiosa.

É o caso deste Um Dia Perfeito, do diretor Fernando León de Aranoa, que, a partir de uma premissa simples e de uma narrativa leve, apesar da temática, evoca uma reflexão profunda e mais do que pertinente acerca do que existe além da guerra e da paz, por meio do bom e velho humor negro.

Na trama, um grupo de ajuda humanitária a serviço em um território indefinido dos Bálcãs, no qual um conflito armado, enfim, parece findar, presta apoio à comunidade local, enquanto serve como contato intermediário com as Nações Unidas. Certo dia, porém, o grupo, que integra os experientes Mambrú (Benicio Del Toro) e B (Tim Robbins) e a iniciante Sophie (Mélanie Thierry), depara-se com um cadáver jogado em um poço, acarretando a contaminação da água e interrompendo o abastecimento local do precioso líquido. A aparente simplicidade envolvida em retirar o corpo, todavia, se revelará uma verdadeira via-sacra para a equipe.

Desde o começo, a ironia característica da cinebiografia do diretor, presente desde o título da obra, fica evidente. Comenta-se, em certo diálogo, acerca da fama da região pelo bom humor de seus habitantes. Tendo-se em vista o conflito recém terminado, contudo, fica evidente a estranheza de tal popularidade. A partir do caso do cadáver no poço, quando conseguir uma simples corda para retirá-lo parece impossível, seja porque um vendedor quer usar suas cordas para fazer cortinas ou porque um patriota não quer separá-la de sua bandeira, tal humor negro, para além da narrativa, passa a ser imaginado pelos próprios membros da equipe nos habitantes da região.

É assim, expondo ambições e interesses individuais, ao ponto de que cada habitante prejudique a si próprio com tal atitude – a cena da água engarrafada vendida a um preço absurdo ilustra isso perfeitamente -, que o filme evidencia a guerra como como o auge de um problema bem mais complexo e rotineiro, de um sistema individualista, excludente, com o qual cada indivíduo pode, mesmo que inconscientemente, contribuir. Certos problemas, por mais simples que pareçam, tornam-se, irritantemente, os mais complexos, porque não há uma preocupação coletiva em resolvê-los, como ilustra, brilhantemente, a diabolicamente bizarra ameaça das vacas minadas.

O longa só não atinge um âmbito acima do regular em termos de profundidade porque, apesar de seu perspicaz argumento e de consideráveis momentos inspirados que o defendam, não consegue unir tão bem quanto poderia seus blocos de história, trabalhando com uma narrativa episódica que, se adequada à proposta, carece de um fio que converta as múltiplas problemáticas num mosaico menos disperso. No que diz respeito a um fio, no entanto, vale observar o acerto da corda como acessório desejado, mas que parece sempre fora de alcance, tal como a união entre os moradores da região.

Com uma trilha sonora leve, muito voltada ao pop, mas que, utilizada nos momentos adequados, evoca perfeitamente a jornada interminável da equipe para tentar resolver o problema simples mais complicado de todos, a história acerta em seu tom fabulesco e, se tem lugar nos Bálcãs, poderia se passar em tantos outros locais. Inteligente em sua leveza ácida, é tão universal quanto o que existe além da guerra e da paz.

Um Dia Perfeito (A Perfect Day), Reino Unido – 2015
Direção: Fernando León de Aranoa
Roteiro: Fernando León de Aranoa, Diego Farias (baseado em obra de Paula Farias)
Elenco: Benicio Del Toro, Tim Robbins, Olga Kurylenko, Mélanie Thierry, Fedja Stukan, Eldar Residovic, Sergi López, Nenad Vukelic, Morten Suurballe, Ben Temple
Duração: 106 min.

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.