Crítica | Um Domingo Maravilhoso

estrelas 4

Depois de sua visão política sobre o Japão pré, durante e pós Segunda Guerra (Juventude Sem Arrependimento, 1946), Kurosawa faria uma obra de caráter social e muito próximo ao ideal neorrealista de exposição de conflitos e problemas sociais, com a diferença do uso de atores profissionais e das filmagens em estúdio. A despeito dessas características, Um Domingo Maravilhoso (1947) é uma obra pungente sobre a vida no Japão após a grande guerra, um retrato social e particular de como a sobrevivência em tempos difíceis pode ser diferente para cada grupo de pessoas, especialmente em um país em reconstrução, onde a fiscalização e o olhar para as massas são mínimos ou inexistentes.

Com roteiro de Kurosawa e Keinosuke Uekusa, Um Domingo Maravilhoso acompanha um dia na vida do casal Yuzo e Masako, que mesmo com pouco dinheiro tentam fazer de seu domingo juntos um dia inesquecível. A motivação sonhadora de Masako e o ceticismo e amargura de Yuzo se chocam já nas primeiras sequências do filme. Ele, um ex-soldado com um emprego de pequena remuneração, ela, uma garota apaixonada que tenta levar adiante o sonho de construir uma vida ao lado do namorado que tinha antes da Guerra e que agora parece ter se esquecido ou perdido a capacidade de sonhar.

Em meio a pobreza, o sonho se eleva como uma possibilidade, uma promessa de dias melhores mesmo que tudo pareça dizer o contrário. É olhando através dessa janela onírica que Masako mantém viva a esperança de construir um Café e uma vida ao lado de Yuzo. Sua representação como proprietária de uma grande casa chega a ser triste e dolorosa, mesmo que percebamos a alegria dela em se imaginar vivendo aquela realidade. Em contraste, Yuzo observa os sapatos gastos e furados da namorada e se recusa e entrar no jogo de representação, mergulhado completamente em pensamentos sobre o futuro pouco animador. Essa oposição entre pessimismo e otimismo será uma constante em todo o filme e passa de um protagonista para outro, alternando a intensidade e os motivos correlatos conforme o filme avança.

O experiente Asakazu Nakai, que voltaria a trabalhar com Kurosawa outras vezes (ViverTrono Manchado de SangueOs Sete Samurais e Ran, só para citar algumas) apresenta um belo trabalho de fotografia, com iluminação delicada e tomadas inesquecíveis, como toda a poderosa sequência final, onde Yuzo rege a Sinfonia Inacabada de Franz Schubert em um anfiteatro vazio. A escolha da sinfonia é tão metaforicamente perfeita quanto a representação mimética do ator Isao Numasaki, que apresenta uma ponderada e tocante mudança psicológica do início para o final da obra. Já a atriz Chieko Nakakita, que trabalhara com Kurosawa em A Mais Bela (1944) e Juventude Sem Arrependimento (1946), representa uma Masako dócil, frágil, sonhadora, mas ao mesmo tempo forte e determinada, um contraponto perfeito para a personalidade de Yuzo. Algumas mudanças bruscas de humor quebram um pouco o ritmo de boa representação da atriz, mas nada que diminua assustadoramente a qualidade de seu trabalho.

Como a Sinfonia Inacabada, a história de Um Domingo Maravilhoso não termina. Por ser apenas a visão de um único dia na vida de Yuzo e Masako, temos a projeção de diversas possibilidades para o futuro, e embora possamos juntar elementos do próprio filme para acreditarmos em algo pleno de realizações, não podemos afirmar com certeza, porque o próprio filme também nos mostra como coisas aparentemente certas podem se tornar impossíveis de se concretizar. Todavia, a mensagem de esperança em meio ao sofrimento e o poder do sonho como fuga de uma realidade dolorosa são elementos que não se dissipam facilmente da mente do espectador, e com certeza, marcam a construção desse drama social poderoso do mestre Kurosawa.

Um Domingo Maravilhoso (Subarashiki nichiyôbi) – Japão, 1947
Direção: Akira Kurosawa
Roteiro: Akira Kurosawa, Keinosuke Uekusa
Elenco: Isao Numasaki, Chieko Nakakita, Atsushi Watanabe, Zeko Nakamura, Ichiro Namiki, Toppa Utsumi, Ichirô Sugai, Masao Shimizu, Tokuji Kobayashi, Shiro Mizutani
Duração: 108 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.