Crítica | Um Drink no Inferno – A Série 1X02: Blood Runs Thick

estrelas 3

É agora que o teste de Robert Rodriguez e sua série baseada em seu filme homônimo de 1996 realmente começa! Afinal de contas, qualquer tentativa de transformar um filme em uma série gerará a necessidade de se expandir e muito a mitologia, o que pode ser complicado e temerário. No entanto essa ampliação das bases da obra original é o que já vemos acontecer no segundo episódio, Blood Runs Thick.

Enquanto o primeiro episódio, em uma correta estratégia de Rodriguez, não é muito mais do que uma divertida versão de 45 minutos dos 5 ou 10 minutos iniciais do filme, o segundo episódio vai por um caminho bem diferente, já mostrando as necessárias ramificações da história. Afinal de contas, a série acabou de ser renovada para  segunda temporada e precisa mostrar que tem estofo para se manter no ar.

Apesar de começar no exato momento em que o primeiro episódio acaba, o roteirista Diego Gutierrez já passa a trabalhar a necessidade de vingança de Freddie (Jesse Garcia), Texas Ranger pupilo do xerife Earl McGraw (Don Johnson), que foi assassinado. Ele é retirado do caso justamente por estar muito próximo da vítima, mas, em momentos na intimidade de seu lar, nós o vemos remoer sua raiva e partir em uma busca solitária aos irmãos Gecko. É claro que isso é algo absolutamente esperado, mas a narrativa é bem trabalhada, sem heroísmos exacerbados e sem personagens maiores do que a vida.

Do lado dos Gecko, testemunhamos Richie (Zane Holtz)  ficar cada vez mais maluco, o que leva seu irmão Seth (D. J. Cotrona) a sair “no braço” com ele. Por outro lado, porém, percebemos que Richie, durante o tempo em que Seth ficou na prisão, mudou e há um histórico potencialmente interessante aí que só vemos algumas pistas e que, com certeza, será desenvolvido mais para a frente. O que fica evidente, porém, é que Carlos (Wilmer Valderrama), o homem para quem os irmãos trabalham, não é exatamente um homem, mas sim SPOILER SPOILER um vampiro, na primeira prova clara da existência do sobrenatural na série. No entanto, apesar de Carlos ser um sugador de sangue clássico e não algo que faria Bram Stoker revirar no túmulo, o design do personagem sai do lugar comum, fazendo o paralelo com cobras, não com morcegos, o que leva a um ótimo resultado. E Carlos tem algum passado com Richie que tem ligação integral com a história no presente.

É também nesse episódio que somos apresentados à família Fuller, aquela que cruza os Estados Unidos em um trailer no filme e acaba sequestrada pelos irmãos Gecko. No lugar de Harvey Keitel no papel de Jacob, um pastor cuja morte da esposa o levou a perder a fé, temos Robert Patrick, o inesquecível T-1000 de O Exterminador do Futuro 2 e que atuou na continuação lançada direto em vídeo, do filme original. Sua filha, Kate (Madinson Davenport) o acompanha a muito contragosto e seu filho adotivo Scott (Brandon Soo Hoo), faz o contraponto do filho resignado. A ponte que o roteiro faz entre a família Fuller e os Gecko não está completamente construída ainda, mas a situação que nos é apresentada no segundo episódio, com o envolvimento de Carlos, é artificial demais, forçada demais e precisa ser suavizada. Além disso, Davenport, pelo menos nesse episódio, não é muito mais do que um rostinho bonito, sem qualquer das características que marcaram a Kate original, vivida por Juliette Lewis.

Outro ponto que merece reparo antes que se perca o controle, é o uso incessante de flashbacks. Já havia um pouco disso no primeiro episódio, mas, no segundo, há uma sensível intensificação. Não é ainda um problema, pois é ainda um uso orgânico dessa “muleta narrativa”. Afinal, é interessante vermos como exatamente foi o assalto ao banco que levou os Gecko a fugirem em direção ao México, além de explicar o porquê do sequestro da funcionária de lá (Samantha Esteban). O que espero, porém, é que haja parcimônia, daqui por diante, no uso dos flashbacks, ainda que eu desconfie que isso não vá acontecer diante da necessidade de se abrir mais a história pregressa dos personagens, especialmente o que exatamente aconteceu com Richie enquanto Seth via o sol nascer quadrado.

De toda maneira, o sangue continua correndo bem quente nas artérias dessa série e, se Rodriguez souber dosar bem o uso de flashbacks e criar personagens novos realmente interessantes, ela terá um bom futuro dentro da categoria de “diversão descompromissada”.

Um Drink no Inferno – A Série 1X02: Blood Runs Thick (From Dusk Till Dawn – The Series 1X02: Blood Runs Thick, EUA – 2014)
Showrunner: Robert Rodriguez
Direção: Robert Rodriguez
Roteiro: Diego Gutierrez (baseado em roteiro de Quentin Tarantino)
Elenco: D. J. Cotrona, Zane Holtz, Eiza Gonzalez, Jesse Garcia, Wilmer Valderrama, Robert Patrick, Brandon Soo Hoo, Madison Davenport, Samantha Esteban
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.