Crítica | Um Drink no Inferno – A Série (1X10): The Take

estrelas 3,5

Obs: Há spoilers da temporada e do episódio criticado.

“Ufa, que alívio!’

Isso foi exatamente o que pensei quando os créditos de abertura do último episódio da 1ª temporada rolaram na tela. Afinal de contas, depois do fraco oitavo episódio, La Conquista, e do estranho episódio anterior, Boxman, tinha começado a achar que Robert Rodriguez havia perdido o rumo. Richie e Seth estavam em uma missão no “Labirinto da Mente” e não haviam saído ainda, mas eis que não demora mais do que dois minutos em The Take e eles são jogados de volta ao Titty Twister e ao templo mesoamericano. Ainda bem!

Afinal de contas, mesmo que o futuro reserve novos e inéditos caminhos para a série – já renovada para uma segunda temporada de 13 episódios – era absolutamente essencial que Rodriguez acabasse a “versão estendida” do filme em que a série foi baseada. Ao trazer os irmãos Gecko de volta da estranha aventura que tiveram em Boxman, o showrunner faz justamente isso, devolvendo a série ao caminho que esperamos que ela tomasse, ainda que esse caminho continue recheado de novidades e surpresas.

E essas surpresas estão focadas mesmo no arco narrativo envolvendo os Gecko que, trazendo o passado à tona mais uma vez, finalmente têm uma discussão aberta sobre a morte/assassinato de seu pai. Richie matou o pai abusivo, mas nunca contou a Seth, que descobriu o segredo no episódio anterior. Em The Take, essa questão, que poderia tomar contornos psicológicos bem interessantes, é meio que deixada de lado – pelo menos por enquanto – em benefício das sequências de ação e das traições que ocorrem a cada momento e que envolvem os dois, Santánico Pandemonium (que se revela como sendo bem mais do que uma vampirinha “normal”), Carlos e Narciso.

Confesso que fiquei intrigado com a importância que Carlos e Narciso dão aos 30 milhões de dólares roubados pelos Gecko, pois esse valor, em termos “cinematográficos”, nem me parece tão alto assim. Carlos e Narciso dão a entender que há mais do que imaginamos no valor nominal dos papeis protegidos por Seth, mas só saberemos mesmo seu significado provavelmente na próxima temporada.

O mais interessante desse episódio, porém, é o fechamento sombrio do arco narrativo da família Fuller. Scott havia sido transformado em vampiro em Pandemoniumo segredo da esposa de Jacob já havia sido revelado e Katey-Kates já havia demonstrado ser muito mais do que uma menina frágil. Mas o caminho para o inferno – ou para a salvação – continua em The Take, com pelo menos um fechamento, mas deixando duas importantes pontas soltas. Scott não tem volta. Ele se sente um pária em sua própria família e parece se adaptar à sua nova condição, ao ponto de morder seu próprio pai sob o pretexto de eles poderem finalmente ser uma família novamente. Mas Jacob sabe que não conseguirá viver assim e, em um momento fortemente sentimental, faz com que sua filha enfie uma estaca em seu coração. Katey-Kates cresce, enfrenta seus demônios e continua pura em seu caminho iluminado. E, em uma ótima jogada que ao mesmo tempo nos remete ao filme original e nos dá uma rasteira, pega carona com Seth em seu conversível. O que o futuro reserva a essa improvável dupla, provavelmente saberemos logo no começo da segunda temporada.

Uma coisa é certa, porém: Robert Rodriguez consegue encerrar adequadamente sua 1ª temporada sem depender demais de cliffhangers. Sim, há muita coisa aberta ainda. Muitas pontas soltas para ele amarrar. Há diversos grupos rivais e independentes para ele abordar (Carlos e Narciso de um lado; Seth e Kate de outro; Santánico e Richie e, finalmente, González sozinho). Mas não há nada urgente, nada que nos faça ansiar pelo próximo episódio. Por um lado, isso mostra segurança no material que tem. Por outro, pode deixar muitos espectadores com um sentimento de que ficou faltando alguma coisa. Particularmente, acho cliffhangers muito pronunciados extremamente chatos e artificiais. Gosto quando temporadas acabam mais naturalmente, sem “jogar baixo” para garantir a volta do espectador. E, no meu livro, Rodriguez merece crédito por não fazer o óbvio.

Não que a jornada até aqui tenha sido sem defeitos. Houve vários e eles foram abordados nos comentários sobre cada episódio, mas a questão é que, para uma série como essa, talhada para ser uma espécie de guilty pleasure, ela acabou surpreendendo ao trazer muito mais complexidade que o esperado. A trasheira não foi colocada para escanteio, claro, e o desenvolvimento das pontas soltas pode resultar em muita diversão, mas o trabalho de Rodriguez, até aqui, foi inesperadamente interessante, com diversos ótimos momentos. Realmente, um alívio!

Um Drink no Inferno – A Série (1X10): The Take (From Dusk Till Dawn – The Series 1X10: The Take, EUA – 2014)
Showrunner: Robert Rodriguez
Direção: Dwight Little
Roteiro: Carlos Coto (baseado em roteiro de Quentin Tarantino)
Elenco: D. J. Cotrona, Zane Holtz, Eiza Gonzalez, Jesse Garcia, Wilmer Valderrama, Robert Patrick, Brandon Soo Hoo, Madison Davenport, Don Johnson, Manuel Garcia-Rulfo, Jake Busey
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.