Crítica | Um Drink no Inferno

estrelas 3,5

Aviso de SPOILER: Escrever sobre Um Drink no Inferno sem revelar partes importantes da trama é uma tarefa impossível. Assim, se você não viu o filme e deseja assisti-lo sem saber de nada, leia essa crítica somente depois.

Um Drink no Inferno é um filme peculiar. Na verdade, é até possível dizer que são dois filmes diferentes costurados como um só. E seria também perfeitamente possível gostar de uma parte e não da outra, amar tudo ou detestar tudo.

Mas, em princípio, o mesmo poderia ser dito, por exemplo, do incontestável clássico Psicose, de Alfred Hitchcock. A comparação é óbvia e ela nunca me saiu da cabeça desde a primeira vez que vi o filme dirigido por Robert Rodriguez, protegido de Quentin Tarantino (que escreveu o roteiro).

Afinal de contas, Psicose é um filme que, em seus 40 minutos iniciais, trata única e exclusivamente do furto de dinheiro pela secretária Marion Crane (Janet Leigh) e sua viagem do Arizona para a Califórnia para encontrar-se com Sam Loomis (John Gavin). Acontece que, no meio do caminho, ela para em um motel e todos nós sabemos o que acontece, não é mesmo? Hitchcock brinca com a divisão total de seu filme em, literalmente, dois gêneros diferentes ligados apenas por um inteligente roteiro e uma direção impecável.

Um Drink no Inferno, guardadas as devidas proporções (não sou louco de sequer pensar em comparar Hitchcock com Rodriguez), funciona exatamente da mesma maneira: ao longo de exatamente uma hora de projeção, o que vemos é a fuga dos irmãos Seth (George Clooney) e Richie (Quentin Tarantino) pelo Texas, com tiroteios, incêndios, sequestros e estupro no meio do caminho. É, literalmente, um road movie protagonizado por ladrões e assassinos.

No entanto, no momento em que Seth, Richie e suas vítimas Jacob (Harvey Keitel), Kate (Juliette Lewis) e Scott (Ernest Liu) chegam ao bar Titty Twister no México e testemunham a sensual dança da mais que voluptuosa (e genialmente batizada) Santánico Pandemónium (Salma Hayek), o filme se transforma imediatamente em um trash B envolvendo vampiros monstruosos, muitas estacas, desmembramentos e mortes de toda natureza em um banho de sangue interminável, além de personagens humanos ainda mais estranhos que Seth e Richie, como Sex Machine (Tom Savini), que tem uma arma na virilha em formato de pênis, e o perturbado sobrevivente do Vietnã Frost (Fred Williamson).

A transformação de um gênero para o outro não é algo que se possa dizer que é corriqueiro ou trivial. Muito ao contrário, na verdade, já que são poucos os diretores e roteiristas que tentam esse tipo de alteração radical, pois mexe com as expectativas de todos, frustrando muitos. Tarantino, que é um roteirista e diretor que consegue transitar muito bem “entre gêneros”, ainda não havia tentado nada tão forte, mas seu roteiro consegue se sustentar muito bem, mesmo quando somos quase expelidos de nossa suspensão de descrença pelo aparecimento dos vampiros.

E Tarantino faz isso introduzindo bizarrices como o personagem Richie, vivido – muito bem, aliás – por ele próprio. Apesar de Seth ser um ladrão e assassino, perto de Richie ele é o “mocinho”, já que seu irmão mais novo é um pervertido paranoico que tem prazer em estuprar, mutilar e matar. O nervosismo gerado pela mera presença de Richie nas cenas é  muito bem construído no roteiro, especialmente suas interações libidinosas com Kate. E, quando já estamos meio que acostumados com as loucuras que testemunhamos, Tarantino desce mais um degrau nos apresentando ao surreal bar Titty Twister. Quando chega a hora da revelação dos vampiros, nós podemos aceitá-los com um certo grau de facilidade, pois é apenas mais um degrau abaixo do ponto que estávamos. Ok, mais alguns degraus, mas vocês entenderam o que quis dizer, não?

E, se alguém tem alguma dúvida que estamos vendo um “legítimo Tarantino”, a cena inicial, antes dos créditos, logo dissipa a questão. Vemos o policial Earl McGraw (Michael Parks, em papel que reprisaria em Kill Bill) entrar em uma loja de conveniência em posto de gasolina e ter um longo diálogo com o caixa (John Hawkes). Nessa conversa, um universo inteiro é criado, dando-nos a dimensão de que o filme que vemos se passa dentro de um mundo maior e não confinado à situação que está diante de nossos olhos. É, sem dúvida, o momento mais Tarantino do filme, ainda que várias conversas posteriores – mais rápidas – mantenham o estilo até que a loucura vampiresca trash comece sem dó nem piedade e qualquer semblante de roteiro desapareça.

A direção que Robert Rodriguez faz é uma das melhores de sua carreira. Segura, sem muitas invencionices ou ângulos estranhos, com uma direção de arte que emula eficientemente o espírito do tipo de filme que ele homenageia. Maior destaque vai para sua montagem (ele próprio monta seus filmes), que não nos deixa perder o ritmo e nos ajuda a aceitar a transição de um gênero para o outro.

A escalação é de primeira. Clooney, em seu primeiro papel de destaque em um longa, funciona bem como o homem atormentado pelo fato de que precisa proteger seu irmão a todo custo, ainda que isso só lhe cause problemas. Harvey Keitel, com a serenidade de Mr. Wolf, nos convence que um dia foi pastor e que, com a morte de sua esposa, perdeu a fé. Lewis, apesar de nunca ter sido uma grande atriz, transita muito bem entre dois universos: o de garota aparentemente pudica e o de mulher que sente forte atração pelo perigo. E Tarantino, claro, como mencionado, faz seu maluco habitual que, nesse caso, chega a dar nojo.

Enfim, Um Drink no Inferno é uma brincadeira divertida e dinâmica que, apesar de não acrescentar nada para ninguém em termos puramente intelectuais, funciona muito bem tanto como dois filmes diferentes quanto como um todo maior que a soma de suas partes.

Um Drink no Inferno (From Dusk Till Dawn, EUA – 1996)
Direção: Robert Rodriguez
Roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: George Clooney, Quentin Tarantino, Harvey Keitel, Juliette Lewis, Ernest Liu, Salma Hayek, Cheech Marin, Danny Trejo, Tom Savini, Fred Williamson, Michael Parks, Brend Hillhouse, John Saxon, Marc Lawrence
Duração: 108 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.