Crítica | Um Duende em Nova York

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estrelas 3

Comédia deliciosa protagonizada por Will Ferrell como Buddy, o Duende, e dirigida por Jon Favreau, Um Duende em Nova York (2003) virou um sucesso instantâneo, entrando para a lista das obras natalinas do início do século XXI a cair no gosto do público, arrastar multidões para o cinema e, em seguida, se tornar uma das mais frequentes reprises na TV e vendas no mercado home video.

O encanto começa pelo deslocamento inicial do roteiro em relação ao nosso mundo, brevemente mostrado quando vemos um Papai Noel entregando presentes em um orfanato e, sem saber, levando um bebê desse mundo para o Pólo Norte. Através da narração de Papa Elf (Bob Newhart), a história ganha um tom de crônica de Natal confidenciada ao púbico, que logo verá as inadequações do bebê criado como duende e que só na vida adulta descobrirá que é humano, dando início à sua jornada para encontro com o verdadeiro pai.

Percebam que o roteiro de David Berenbaum é construído com base em três blocos textuais, o primeiro bem breve, quando o bebê “Buddy” se encanta com um ursinho dentro do saco de presentes do Papai Noel e engatinha para pegá-lo; o segundo, quando Buddy é mostrado convivendo entre outros Duendes; e o terceiro, que é o filme propriamente dito, quando ele vai para Nova York a fim de se conectar com suas raízes e onde a maior parte da comédia se desenrola.

Nessas passagens, é possível perceber o quanto a direção de arte e os figurinos retratam as realidades pelo choque de divergências, começando com o mundo de “proporções menores” no Pólo Norte, que mesmo cercado de branco, é fortemente colorido e alegre por dentro; e a iluminada, também colorida, mas humanamente fria cidade de Nova York, onde a ideia de Natal tem se perdido e afetado, inclusive, a dinâmica da entrega de presentes do Papai Noel em seu trenó, não mais movido à fé no espírito natalino. Essas diferenças são visualmente bem representadas dentro de um mesmo princípio visual, ou seja, há cor e luz nos dois lugares, mas é a forma como os habitantes desses espaços lidam com o Natal que realmente muda o seu significado.

Will Ferrell está hilário como o adulto-elfo procurando o pai humano. Sua interpretação está na medida entre a inocência e a percepção mais cínica do mundo, sempre marcada por uma opinião, comportamento e vestimenta que indicam o seu “passado mágico”. Seu uniforme é uma réplica direta do Elfo Supervisor do belíssimo filme A Rena do Nariz Vermelho (1964) e em torno dele diversas outras referências cinematográficas de Natal se fazem ver, como a cena da ponte e sua exata correspondência com A Felicidade Não Se Compra (1946); as perguntas sobre o Papai Noel e uma porção de cenas na Gimbel’s, que fazem referências a De Ilusão Também Se Vive (1947); e a guerra de bolas de neve — um dos momentos fracos pela forma como é mostrado (acelerado) e resolvido, mas com um bom significado para a relação de Buddy com o irmão — que se aproxima de Uma História de Natal (1983).

A chegada de Buddy à vida do pai e de outras pessoas talvez seja estabelecida fácil demais e o texto se aproveite disso para criar mais situações engraçadas ao invés de desenvolver melhor cada trecho. No entanto, essa incursão do duende no nosso mundo de maneira quase que imediata — com um princípio de viagem questionável, convenhamos — é compensado por uma atuação que não cai no exagero, nem é inteiramente cercada de fofuchismos. Algumas excelentes situações do filme mostram isso, como a cena em que Buddy conhece Walter (e a anterior cena do elevador); a gloriosa sequência na Gimbel’s, quando o gerente anuncia que o Papai Noel estará na loja no dia seguinte, às 10h; o embate de Buddy com o Papai Noel e a excelente linha “você está sentado em um trono de mentiras“, além de tantos outros bons diálogos da obra, que compensam bem os deslizes do roteiro para a construção dos coadjuvantes ou algumas resoluções visuais da direção.

Consta que Will Ferrell acabou tendo fortes dores de cabeça em um dia de gravação, de tanto comer açúcar — ou macarrão com coisas doces –, precisando parar um pouco as filmagens. Seu personagem adorável e a mensagem familiar e de união comunitária, com uma inteligente interação com a TV no final, são hoje parte da história de um grande número de adultos e crianças que sempre riem ao rever a estadia nada fácil de um humano que acreditava ser um elfo, procurando um pai na lista dos “mal-comportados”, tentado fazê-lo mudar de caminho.

Um Duende em Nova York (Elf) — EUA, Alemanha, 2003
Direção: Jon Favreau
Roteiro: David Berenbaum
Elenco: Will Ferrell, James Caan, Bob Newhart, Edward Asner, Mary Steenburgen, Zooey Deschanel, Daniel Tay, Faizon Love, Peter Dinklage, Amy Sedaris, Michael Lerner, Andy Richter, Kyle Gass
Duração: 97 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.