Crítica | Um Estado de Liberdade

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estrelas 3,5

Gary Ross é um diretor de filmografia pequena (são apenas 4 longas, lançados entre 1998 e 2016), mas com um apelo notável diante do público e da crítica. Dos seus quatro filmes, dois foram indicados ao Oscar, Pleasantville: A Vida em Preto e Branco (1998) e Seabiscuit – Alma de Herói (2003); um teve um enorme hype pela ligação literária, Jogos Vorazes (2012); e este Um Estado de Liberdade (2016) ainda não conseguiu encontrar o seu caminho na filmografia do cineasta, pois é diferente de tudo o que ele assinou até aqui.

Baseado em fatos históricos e na vida do fazendeiro Newton Knight, do Condado de Jones, Mississippi, o filme se passa entre 1862 e 1876, pegando a Guerra Civil Americana e suas consequências, tanto as positivas, como a abolição da escravatura nos Estados Unidos, quanto as negativas, como o surgimento da Ku Klux Klan e os milhares de assassinatos de negros que se seguiu. O roteiro, co-escrito por Ross, em parceria com o novato (pelo menos no cinema) Leonard Hartman, aborda com bastante acuidade os elementos sociais desse período e traz, ao final, uma interessante representação histórica para os ideais do Partido Republicano e do Partido Democrata, hoje invertidos em relação ao que foram no final do século XIX.

Matthew McConaughey tem mais uma ótima atuação, vivendo aqui o protagonista Newton Knight, assumindo com intensidade as marcas do tempo na vida do personagem, os horrores que viu ao longo da vida, na guerra e fora dela, e a recusa em deixar a sua terra, o lugar onde nasceu, para ir para o norte. O espectador observa que para o personagem haviam apenas pessoas que precisavam ser respeitadas e bem tratadas. Ele não levanta bandeiras raciais no “Estado Livre de Jones”, apesar de estar cercado por negros e se casar com uma mulher negra (ou ter união estável, já que era impossível um branco casar-se com alguém negro nos EUA até meados do século XX). Seu tratamento humano em relação às pessoas que o cercavam criava o exemplo de convivência social onde etnias não tinham peso, eram um detalhe pessoal. Todos eram pessoas.

O conceito de rebelião de [ex]escravos (que aqui foi estendido também para desertores do Exército, pessoas que sofreram com os confiscos criminosos da cavalaria e fazendeiros pobres) é visto em outra produção de 2016, O Nascimento de uma Nação, e o princípio de união e revolta contra a ordem social estabelecida é igual para os dois longas, assim como a repressão violenta por parte do Estado (em O Nascimento de uma Nação) e pela parte racista e criminosa da população ou pelas leis arbitrárias que tentavam contornar a abolição (em Um Estado de Liberdade). Os 31 anos que separam historicamente as duas realidades nos faz perceber que muitas feridas sociais quase não se curam. E isso é ainda mais triste e revoltante quando vemos que ainda estão em carne-viva em pleno século XXI.

O ponto mais fraco do filme está na inclusão de um evento no final dos anos 1950, protagonizado pelo neto de Newton Knight, que era negro de pele clara (descendente de mãe negra e pai branco) e que, pelas leis ainda abomináveis do Mississippi, teria que renunciar ao seu casamento com uma mulher branca, pois a justiça daquele Estado não reconhecia sua união. Pela forma picotada como as cenas do julgamento são colocadas, e pelo completo deslocamento delas dentro da maior história, podemos dizer que esta parte do filme mais atrapalha do que ajuda a construir alguma coisa. Ainda podemos questionar a inclusão de fotografias no decorrer da fita, além de letreiros que ajudam a narrar cada novo período histórico. É o tipo de padrão textual didático facilmente dispensável.

Do elenco, além de McConaughey destaca-se Mahershala Ali como Moses e os pequenos papeis de Gugu Mbatha-Raw, como Rachel e Keri Russell, como Serena. Como sempre acontece em filmes sobre a Guerra Civil, centenas de atores e não-atores se inscreveram para fazer figuração na obra, que tanto para o elenco principal quanto para o elenco de apoio tem ótimas interpretações. A fotografia da obra é correta e tem momentos de grande beleza, mas os figurinos e principalmente a edição e mixagem de som são incríveis. O diretor explora bem o silêncio em alguns momentos e utiliza muito bem os mais diversos sons de animais e ruídos de ganhos de árvores ou outras manifestações naturais dos pântanos.

Embora seja demasiadamente longo e ter um ritmo lento, Um Estado de Liberdade é um filme intenso e que traz uma discussão histórica relevante até para os nossos tempos. Uma obra que propõe um outro olhar para a história dos Estados Unidos e que propõe pensar um pouco sobre o papel político de determinados grupos sociais ao longo das décadas e os discursos de defesa ou condenação a elas em em nosso século, onde os mesmos problemas vistos na época ainda são um problema.

Um Estado de Liberdade (Free State of Jones) — EUAm 2016
Direção: Gary Ross
Roteiro: Leonard Hartman, Gary Ross
Elenco: Matthew McConaughey, Gugu Mbatha-Raw, Mahershala Ali, Keri Russell, Christopher Berry, Sean Bridgers, Jacob Lofland, Thomas Francis Murphy, Bill Tangradi, Brian Lee Franklin, Kerry Cahill
Duração: 139 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.