Crítica | Um Estranho no Ninho

estrelas 5,0

Um Estranho no Ninho é um filme impressionante. Lançado em 1975, com base em aclamado bestseller de Ken Kesey, romancista americano e ícone da contracultura, o filme é talvez ainda mais culturalmente relevante hoje do que há 40 anos. Vivemos uma época de aparente revolução social por intermédio da internet, mas o que acontece, de verdade, se pararmos para pensar, é justamente o oposto, com as redes sociais servindo de conveniente veículo para que nos acomodemos ainda mais, reclamando de tudo, mas nada fazendo.

Assistir Um Estranho no Ninho é como um serviço de despertador que nos chacoalha do torpor e nos coloca novamente em movimento, desanuviando a mente perdida entre um clique e outro no smartphone. Jack Nicholson, vivendo talvez seu mais sensacional personagem, Randle Patrick “Mac” McMurphy, um prisioneiro em 1963 que, para evitar trabalhos forçados, finge ter problemas mentais de forma a ser transferido para uma clínica psiquiátrica para avaliação, representa a bandeira de inconformidade que todos os dias deveríamos hastear, sem nos deixar levar pela rotina, pelo que somos levados a pensar por governo, mídia ou até mesmo nossos pares.

Ao entrar em um mundo paralelo, em que os internos seguem uma estrita rotina entre fazer fila para tomar medicamentos, jogar cartas e participar de sessões de terapia, McMurphy funciona com o literal choque elétrico que tentar mudar o status quo, este representado pela Enfermeira Ratched, vivida assustadoramente por Louise Fletcher em atuação que rivaliza a de Nicholson tamanha é sua intensidade e serena crueldade. McMurphy é uma ameaça ao sistema estabelecido e a ameaça deve ser esmagada, colocada dentro dos trilhos pré-determinados que uma inclemente locomotiva quer seguir sem parar e sem desviar-se.

O diretor tcheco Milos Forman, em seu segundo longa americano e que ainda viria a nos brindar com Amadeus, sabia a qualidade do material que tinha em mãos e, trabalhando em cima de um roteiro de Lawrence Hauben e Bo Goldman, cujas alternações narrativas enfureceram o autor do romance original, Ken Kesey, que abandonou a consultoria da produção e alegou jamais ter visto a adaptação, criou um filme com imagens enganosamente simples que penetram na mente dos espectadores e conversam com a personalidade de cada um, conformista ou não. Reparem, por exemplo, logo na tomada inicial, com a câmera baixa com um plano geral das montanhas do Oregon. É o único momento verdadeiro de liberdade em toda a projeção, que é amplificado pelo som de águias, símbolo máximo do país das oportunidades que, queiram ou não, os Estados Unidos personifica. Forman provavelmente se viu ali, considerando que ele fugiu de seu país natal sob jugo comunista para os EUA durante o Pacto de Varsóvia, que dividira sua nação.

Logo em seguida ao referido plano geral, filmado em locação, Forman arremessa os espectadores para o confinamento do hospital psiquiátrico, apresentando cada uma das perturbadas figuras que ali vivem, muitas por livre e espontânea vontade, por simplesmente não saberem viver em sociedade ou, mais provavelmente, por terem sido taxados como loucos – fora dos conformes, não? – pela sociedade em que viviam. MacMurphy não demora e é arremessado nessa realidade e, sem se fazer de rogado, trata todos com naturalidade, logo fazendo amizade – se é que é possível usar essa expressão – com um enorme nativo americano aparentemente surdo e mudo que ele chama simplesmente de Chefe (Will Sampson), personagem esse que é o narrador do livro, mas que, no filme, não tem essa função, apesar de ter grande relevância por toda a fita.

Tudo muda no dia-a-dia dos internos com MacMurphy ali enfrentando diretamente a Enfermeira Ratched e tendo uma impressão falsa de liberdade ao “sequestrar” seus novos amigos e levá-los em um passeio de barco para pescar. Não há uma tentativa de se esconder a mensagem passada, mas é impossível não se encantar com Nicholson e a trupe de atores, dentre eles Danny DeVito, Sydney Lassick, Christopher Lloyd (o Doc, da Trilogia De Volta Para o Futuro) e o então estreante Brad Dourif . Além disso, Forman não deixa que a atuação contagiante de Nicholson impregne todos os cantos de seu cuidadoso mise-en-scène. Graças à direção de fotografia de Haskell Wexler (do claustrofóbico Quem Tem Medo de Virginia Woolf?), o branco opressor do hospital, capturado de maneira simples com lentes que não suavizam a cor, literalmente passa a impressão que está se fechando ao redor de MacMurphy, criando um sentimento de horror que é traduzido à perfeição pelo semblante terrível da Enfermeira Ratched, personagem que, se não está no topo reinando sozinha, está no Top 5 dos maiores vilões da Sétima Arte.

A trilha sonora de Jack Nitzsche é outro elemento que contribui para que as “paredes se fechem”, graças especialmente às suas notas sóbrias sem serem sombrias, mas também esperançosas quando precisam ser, particularmente no inesquecível final. Forman, como viria a comprovar mais do completamente em Amadeus, usa a sincronização cirúrgica da trilha para discretamente indicar o caminho narrativo que será seguido, mas sem nunca manipular o espectador.

Com atuações de fazer o queixo cair de Nicholson e Fletcher e com um elenco de apoio fascinante (vale notar a presença de Scatman Crothers quase que em uma ponta, ator que viria a dividir tela com Nicholson em O Iluminado, cinco anos depois), além de uma história que não deixa ninguém impassível, o resultado final de Um Estranho no Ninho consegue facilmente atropelar os pequenos problemas da fita, o mais saliente deles sendo a troca injustificada de pontos de vista narrativos. O roteiro, ao não seguir uma visão apenas, força Forman a quebrar a narrativa fluida vista a partir de MacMurphy, abordando reuniões fechadas entre médicos e enfermeiras que não funcionam de verdade e nem agregam ao que já foi enfocado anteriormente.

Sem dúvida alguma, porém, os problemas existentes apequenam-se diante da quase perfeição técnica do trabalho de Forman e da relevância da narrativa sobre a eterna luta do Homem contra a conformidade, contra a rotina, contra o comodismo. Precisamos de mais MacMurphys para enfrentar as Enfermeiras Ratcheds que aparecem em nosso dia-a-dia.

Um Estranho no Ninho (One Flew Over the Cuckoo’s Nest, EUA – 1975)
Direção: Milos Forman
Roteiro: Lawrence Hauben, Bo Goldman (baseado em romance de Ken Kesey e em adaptação teatral de Dale Wasserman)
Elenco: Jack Nicholson, Louise Fletcher, Will Sampson, Brad Dourif, Sydney Lassick, Christopher Lloyd, Danny DeVito, William Redfield, Dean Brooks, William Duell, Vincent Schiavelli, Scatman Crothers
Duração: 133 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.