Crítica | Um Fim de Semana em Paris

estrelas 4,5

Um Fim de Semana em Paris é um pequeno filme franco-britânico sobre o relacionamento na terceira idade que, sob muitos ângulos, poderia muito bem ser a quarta parte da celebrada trilogia de Richard Linklater estrelando Ethan Hawke e Julie Delpy. Até mesmo a presença de Lindsay Duncan reforça essa possibilidade, considerando que ela e Delpy compartilham muito traços físicos e até a forma de atuar. Ainda que o mesmo não aconteça com Jim Broadbent e Hawke, é inafastável essa ideia e ela, de certa forma, permeia todo o filme.

E isso só atesta a qualidade dessa gostosa fita que funciona, paralelamente, como uma forma de colocar sob os holofotes os dois veteranos atores britânicos (bom, tecnicamente, Duncan é escocesa). E é um exame interessante de relacionamentos longevos. Seus méritos. Seus problemas. Seus desafios. O melhor de tudo, porém, é que o roteiro de Hanif Kureishi (Venus, Minha Adorável Lavanderia) não se esquiva de abordar o sexo na terceira idade jamais fazendo algo deselegante.

Meg (Duncan) e Nick (Broadbent) partem para um final de semana em Paris para comemorar as bodas de 30 anos. O hotel que Nick reservou é de 15ª categoria e isso faz com que Meg, de impulso, vá para o primeiro hotel luxuoso que vê, arrastando seu marido. O luxo da acomodação, claramente bem acima do que os dois estão acostumados e podem pagar, reacende uma certa tensão sexual entre os dois, como se eles pouco se conhecessem. Não há sexo. Há pedidos de sexo. Súplicas pela parte de Nick, todas muito bem humoradas e naturais, apenas para serem recebidas com desdém por Meg. Mas não um desdém sem carinho. Eles se conhecem há muito tempo, vivem juntos há décadas, mas essas 48 horas muito estranhas os catapultam para um mundo de muita redescoberta.

Nick é professor de filosofia de uma faculdade que acabou de demiti-lo, mas Meg ainda não sabe. Mas sua índole não é a de um lutador. Muito ao contrário, aliás. Ele é conformista, quieto, nada aguerrido. Um verdadeiro “doce”. Broadbent usa toda sua capacidade de emular um “cachorro pidão” para enternecer os corações dos espectadores sem muito esforço. Adoramos o que vemos desde o primeiro segundo quando ele tenta convencer Meg a ficar no quarto do hotel que havia reservado, hotel esse sem elevador e com acomodações espartanas. Ele não se importa, não liga. Não quer e nunca quis mais do que aquilo (ou quis há muito tempo e se acostumou a não ter). Será que ele também se acomodou a sua esposa e só está com ela porque procurar outra é muito complicado? Logo vemos que a resposta para essa pergunta não é tão simples assim, já que Nick também tem seu passado libidinoso que vai sendo descortinado em diálogos brilhantemente escritos por Kureishi.

Meg, por sua vez, é professora de primário e aparentemente bem mais ativa que Nick em todas as frentes. Com aparência mais jovem, ela sabe que ainda pode atrair o sexo oposto. Mas ela gosta do marido, mesmo que faça dele gato e sapato da forma mais simpática e doce possível. Só que ela se incomoda com a falta de pró atividade dele e ressente oportunidades perdidas tanto por parte dele como dela. Os dois têm um filho adulto com problemas com drogas que não tem muito tempo saiu de casa, para total alívio de Meg. Quando ele liga para Nick pedindo para voltar para casa por um tempo, Meg entra em desespero com a resposta mansa e positiva do marido. Isso mostra muito bem a tensão existente no casamento.

E a coisa fica ainda mais complicada quando Morgan (Jeff Goldblum) coincidentemente reentra na vida de Nick. Morgan, escritor bem sucedido, fora pupilo de Nick e deve tudo a ele. Seu jeito galante e sofisticado conquista Meg no primeiro segundo, mas Morgan, apesar de gostar de mostrar e falar do que tem só para receber elogios, acredita de verdade que seu antigo mentor também subiu na vida como ele. Como poderia ser diferente, não é mesmo?

É na festa de Morgan, para onde o casal é convidado, que o clímax da fita acontece. Vemos os véus caírem e a realidade dura abater Meg e Nick. Mas o texto ao mesmo tempo leve e maduro de Kureishi cria situações perfeitamente críveis, mesmo quando o casal faz, digamos, estripulias em um restaurante e, depois, no hotel. Eles estão testando a vida, conhecendo essa velha vida nova finalmente!

Considerar Um Fim de Semana em Paris uma quarta parte do trabalho de Linklater é um elogio e tanto para a trilogia e para o trabalho de Roger Michell na direção e mesmo os muito jovens saberão apreciar a beleza dos ensinamentos desse final de semana em Paris.

Um Fim de Semana em Paris (Le Week-End, Reino Unido/França – 2013)
Direção: Roger Michell
Roteiro: Hanif Kureishi
Elenco: Jim Broadbent, Lindsay Duncan, Jeff Goldblum, Olly Alexander, Xavier De Guillebon, Brice Beaugier
Duração: 93 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.