Crítica | Um Final de Semana em Hyde Park

estrelas 3

O rei George VI tem se tornado uma figura pop nos últimos anos. Aliás, a família real britânica ou mesmo alguns de seus políticos têm aparecido mais frequentemente em filmes de grande distribuição, muito mais do que costumávamos ver, algo que por si só pode ser interpretado como um sinal dos tempos.

A fraqueza histórica do símbolo monárquico, a tentativa da família real em reconquistar a popularidade com todo o afã em torno do príncipe William e a própria visão do que hoje temos da monarquia fazem com que os filmes lançados atualmente sobre os sangue-azuis mostrem as fraquezas de seus representantes, os bastidores políticos, o cotidiano, uma espécie de zoológico antropológico ou revista CARAS da História, que aproxima bastante o plebeu espectador de tão inalcançáveis realezas. Mesmo que não seja privilégio dos atuais “filmes sobre reis”, opto por fazer esse recorte para que não nos percamos numa lista sobre o olhar do cinema para toda e qualquer personagem histórica.

Um Final de Semana em Hyde Park mostra a breve visita que do rei George VI e da rainha Elizabeth (a Rainha Mãe) aos Estados Unidos, em 1939, ainda antes do início da II Guerra Mundial. O motivo da visita era claramente político, mas se tornou assunto de fofocas e atenção dos jornalistas porque historicamente foi a primeira visita de um rei da Inglaterra aos EUA, que para quem não se lembra, foi colônia da pequena ilha europeia até 1776. É importante ter isso em mente, porque alguns temores do casal real hospedado na casa da mamãe Roosevelt têm origem e justificativa históricas, portanto não eram paranoia dos dois ou enfeite do roteirista Richard Nelson. Isso não quer dizer que o filme seja 100% fiel à História (nenhuma obra artística o é!), mas pelo menos nesse quesito, funciona muito bem, tanto dramática quanto historicamente.

Paralela à trama dos monarcas britânicos em visita oficial aos Estados Unidos, temos um romance em cena. Aliás, vários romances, que juntos, não possuem metade da qualidade vista nas cenas em que o rei e/ou a rainha protagonizam.

Roosevelt sempre foi conhecido por suas conhecidas amantes, mulheres que ficaram próximas a ele durante toda sua vida e que pareciam ter consentimento em compartilhá-lo, algo que, segundo o filme, também era consentido por Eleonor, a primeira-dama. Esse lado pessoal do estadista, sua relação edípica com a mãe, sua esposa cheia de mistérios e grande desapego a ele e pelo menos duas amantes (destacando sua prima, Margaret “Daisy” Suckley) são mostradas no filme, numa tentativa de fazer um plano de fundo satisfatório para o espectador, um enredo principal que tem como quebra a chegada de Bertie e Elizabeth e que é retomado por um lado emotivo na sequência final, um adeus de tendência lírica que com certeza conquistou o público mais amanteigado.

Os tropeços no texto de Richard Nelson estão na falta de agilidade para tratar os assuntos que se propõe. O filme é totalmente arrastado, mesmo quando a ocasião não pede lentidão ou a sequência não precisa de um longo contexto para ser mostrada. E como agravante, o diretor Roger Michell permitiu que muita coisa supérflua entrasse para o corte final, salientando ainda mais a impressão de “filler events” em quase todo o roteiro – vide por exemplo a inútil cena da piscina, a inútil corrida de Daisy pela mata, a inútil apresentação dos índios… É como se o diretor nos quisesse mostrar pequenas crônicas do histórico final de semana, mas ele se esquece que não é com base no “vamos colocar um pouco e tudo” que o cinema funciona (bem).

Há uma ótima reconstrução histórico-artística no filme, basta olharmos para os figurinos e a direção de arte, muito precisos nas escolhas feitas. A trilha sonora tem ótimos momentos, dos quais ressaltamos a cena em que FDR e Daisy estão no carro e ouvem a irresistível Moonlight Serenade, de Glenn Miller. Bill Murray se sobressai com grande facilidade no papel principal, interpretando quase que numa nota só mas com bastante competência o presidente americano. Os outros papéis notáveis são o de Samuel West, como George VI e Olivia Colman como Elizabeth.

A despeito da interessante concepção, Um Final de Semana em Hyde Park falha ao nos mostrar a relação de bastidores entre dois líderes políticos do século XX, suas fraquezas e trapalhadas. Mesmo assumindo que a proposta do diretor fosse trazer esses eventos de bastidores para a tela, sua falta de timing e questionável montagem de Nicolas Gaster afastam bastante o espectador, que vê muita coisa em cena, mas bem pouco realmente necessário. Mesmo assim, há uma graça irresistível no filme, e não é difícil chegar ao final. Se tiver tempo, vale a pena assistir.

Um Final de Semana em Hyde Park (Hyde Park on Hudson, 2012) – UK, 2012
Roteiro: Richard Nelson
Direção: Roger Michell
Elenco: Bill Murray, Laura Linney, Olivia Williams, Samuel West, Olivia Colman, Elizabeth Marvel, Elizabeth Wilson, Martin McDougall, Andrew Havill, Eleanor Bron, Nancy Baldwin
Duração: 94 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.