Crítica | Um Grito Embaixo D’água

Um Grito Embaixo D'agua

estrelas 1,5

Tornou-se quase uma obrigação emular a cena de abertura de Pânico e o segredo mortal do ótimo Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado no campo do terror durante os anos 1996-2000. Tendo em vista o mercado para este tipo de narrativa, a indústria investiu pesado e todo tipo de assassino pululou nas telas do cinema.

As tramas giravam em torno de vinganças absurdas para uma extensa trilha de corpos. Nem todos sabiam fazer como o mestre Wes Craven e as suas sádicas e irônicas investidas metalinguísticas em um gênero que constantemente se retroalimenta. Em filmes como Um Grito Embaixo D’agua, as motivações do assassino mascarado podem ser explicadas por motivos óbvios, tais como “você derrubou o meu picolé no intervalo em 1994, lembra?”.

Situado em Praga, República Tcheca, este típico slasher nos apresenta  jovens ricos de nacionalidades diversas que decidem fazer uma festa extra para comemorar a formatura. Graças aos atributos delinquentes de um deles, conseguem invadir um parque aquático para a festa não oficial, entretanto, não contavam com a presença de um psicopata que os persegue, eliminando um a um através de mortes criativas e exageradas.

Para muitos realizadores, o roteiro pouco importa. Basta apenas algumas mulheres seminuas, cenas de sexo, rapazes com corpos esbeltos e cenas de perseguição com direito a gritos e gemidos que o filme fica pronto. Nesta produção europeia, a fórmula se repete em todos os aspectos. Um assassinato após um telefonema revelador no início dá o gancho para uma série de mortes violentas envolvendo um obscuro segredo que será revelado pifiamente ao final.

Há algumas cenas que se salvam: a morte criativa da garota que ao descer pelo tobogã, encontra nada mais que um facão afiadíssimo para dilacerar a sua carne; as cenas de perseguição numa tubulação; e as participações da “consumista” Isla Fisher e do “fragmentadoJames McAvoy, atores que comprovaram que tiveram a chance de fazer coisas melhores futuramente.

Ademais, são 99 minutos de pouca emoção, muita mesmice, alguns poucos bons momentos, roteiro absurdamente escrito por três pessoas e direção sem inspiração. Os arquétipos são os mais básicos: a boazinha Sarah (Kristen Miller), garota com terrível trauma do passo envolvendo uma piscina; o namorado hedônico Greg (Thorsten Grasshoff); a sua amiga Carmen (Elena Uhleg), valentona de plantão; o abobalhado Mike (McAvoy); o delinquente Martin, além de um numeroso grupo de jovens que pouco se importam com qualquer elemento da encenação, preocupados apenas com a imensa lista de mortes inventivas do psicopata.

Para completar os clichês há um policial investigador inexpressivo, incapaz de compreender a sua função narrativa dentro de um roteiro cheio de problemas. Um dele é existir. Mesmo com todos estes problemas, pode lhe arrancar boas risadas, mas os sustos prometidos pela trama não são garantidos. Estéreis e frágeis, a tentativa de estabelecer tensão não se afirma em quase todo o filme. Uma narrativa comum ao panorama de produções que tentaram capitalizar em torno do filme de Wes Craven, no entanto, nenhum deles conseguiu a façanha.

Um Grito Embaixo D’agua (Der Tod feiert mit) – Alemanha, 2001
Direção: Boris von Sychowsk
Roteiro: Ryan Carrassi, Lorenz Stassen, Boris von Sychowski
Elenco: Kristen Miller, Elena Uhlig, James McAvoy, Paul Grasshoff, John Hopkins, Isla Fisher, Jason Liggett, Jonah Lotan, Cordelia Bugeja
Duração: 99 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.