Crítica | Um Homem de Família (1999)

Como em praticamente todo filme sobre o Natal, os personagens de Um Homem de Família estão mais melancólicos, sentimentais e reflexivos, pois, além dos padrões tradicionais e religiosos que exigem maior responsabilidade nesta época, temos ainda a publicidade e as suas propostas mercadológicas, bem como outros setores da sociedade que incutem mensagens intencionadas a moldar o comportamento de todos: “mudem as suas ações”, “seja mais bondoso”, “agradeça ao que tem e deixe de reclamar da vida”. Quem nunca escutou tais mensagens?

No filme em questão, a discussão se estabelece diante de um homem que precisa repensar as suas ações no âmbito profissional e rever se realmente há valor em sua existência aparentemente vazia e sem sentimentos. Com direção de Brett Ratner e roteiro de David Diamond e David Weissman, temos uma história bem cativante. Certo dia, Jack (Nicolas Cage), um homem bondoso e com estilo de vida frenético. Numa noite, ele adentra uma mercearia e durante o assalto inusitado, desarma um bandido. Após o susto, segue o seu caminho, para casa, até acordar no dia posterior ao lado de sua antiga namorada da faculdade, Kate Reynolds (Téa Leoni), garota que seria a esposa ideal, mas que ele deixou por conta dos planos de carreira.

Confuso, Jack busca respostas para a situação insólita. É quando descobre que a sua vida anterior não existe mais e que nesse universo de ordem alternativa, ele precisa escolher cuidadosamente o seu destino: a carreira de sucesso ou a mulher de seus sonhos. Nesse novo “despertar”, ele descobre que além de uma esposa, ele tem dois filhos e é um simples vendedor de uma loja de pneus que pertence ao seu sogro.

Com semelhanças no que tange aos sentidos das mensagens que pretende transmitir, Um Homem de Família está para o cinema dos finais dos anos 1990 o que A Felicidade Não Se Compra é na constituição do cinema clássico e Um Conto de Natal, de Charles Dickens, é para a literatura: enredos com histórias cheias de moral sobre a condição dos seres humanos numa sociedade desumanizada, salvas as devidas proporções comparativas.

Cada filme sobre o período natalino possui a sua peculiaridade: “estar” em família, as confusões da ceia, a solidão dos não padronizados, o arrependimento dos que se comportaram mal e o regozijar daqueles que foram um exemplo de humanidade. Na trajetória do personagem Jack, o ponto nervoso do seu desenvolvimento dramático se estabeleceu no estar em família. A ideia que o filme perpetua, em plena época natalina, é a revisão da sua vida e a oportunidade de mudar os caminhos trilhados. A trilha sonora do experiente Danny Elfman ajuda, em consonância com a montagem de Mark Melfrich, profissional que poderia extrair apenas alguns trechos para entregar um filme mais enxuto.

O roteiro da dupla Diamond e Weissman consegue construir um personagem cativante, trabalho que alcança maior poder dramatúrgico com a direção de arte de Steve Soklad. Para um personagem que em determinado ponto da narrativa, diz que “possui tudo que deseja”, a situação do seu ambiente domiciliar demonstra algo diferente. Ele vive o que podemos chamar de uma existência superficial, presa ao vazio e tomada pela solidão. O dinheiro compra tudo, mas e o afeto? Onde fica? Será que vale a pena ser apenas um garoto materialista? Em sua casa, somos apresentados a um ambiente bastante impessoal, sem nada que demarque elementos da memória, tais como souvenires e porta-retratos com fotos. Um indivíduo que, diferente dos personagens de Anjo de Vidro, acredita inicialmente que não precisa do outro para reafirmar a sua existência.

Ainda na seara do roteiro, cabe destacar o trabalho exemplar de Téa Leoni. Carismática, a personagem faz você torcer para que Jack deixe tudo e escolha o caminho mais emocional, mesmo que isso represente menor participação na realidade econômica e social que rege a nossa sociedade: o capitalismo, sistema poderoso e que age através de interesses escusos em épocas como o Natal, momento que geralmente nos encontra mais frágeis.

Ao longo dos 126 minutos, o espectador deleita-se com uma história agradável, piegas para alguns, mas edificante e necessária para outros. Um Homem de Família é o típico filme para o período natalino, momento em que geralmente estamos mais sensíveis e pressionados por nossas ações ao longo de 11 meses durante todo o ano, tendo em vista, ou melhorar o que já está bom, potencializando as energias e mantendo-se relevante no bojo do capitalismo, ou então, revisarmos os nossos caminhos e escolhermos novos acentos ao passo que a existência no cotidiano, isto é, o “ônibus desgovernado” que se tornou o mundo atual, seja mais confortável e menos angustiante. 

Um Homem de Família (The Family Man) — Estados Unidos, 1999.
Direção: Brett Ratner
Roteiro: David Diamond, David Weissman
Elenco: Amber Valletta, Christopher Breslin, Daniel Whitner, Don Cheadle, Elizabeth Sjoli, Ellis, Francine York, Gianni Russo, Harve Presnell, Hilary Adahms, Irene Roseen, Jake Milkovich, Jeremy Piven, Joel McKinnon Miller, John F. O’Donohue, Josef Sommer, Kate Walsh, Kathleen Doyle, Ken Leung, Lisa Guzman, Lisa LoCicero, Lisa Thornhill, Lucy Lin, Maggi-Meg Reed, Mak Fai, Makenzie Vega, Mary Beth Hurt, Mary Civiello, Nicolas Cage, Nina Barry, P.J. Barry, Paul Keith, Philippe Bergeron, Ray Valentine, Robert Downey Sr., Ruth Williamson, Ryan Milkovich, Saul Rubinek, Si Picker, Tanya Newbould, Téa Leoni, Thomas James Foster, Tom McGowan, Troy Hall, Wass Stevens
Duração: 126 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.