Crítica | Um Homem Sério

um homem serio

estrelas 4

Educados pela escola noir, Joel e Ethan Coen são nomes consagrados por realizarem comédias críticas sobre a realidade — com evidente influência do surrealismo, atrelado ao universo do crime, da ilegalidade ou da fatalidade, elementos vistos em obras bem díspares de sua filmografia, como Ajuste Final(1990), O Grande Lebowski (1998) e Onde os Fracos Não Têm Vez (2007).

A cada novo título, os Coen criam um universo muito peculiar, geralmente plasmado por uma paisagem inóspita onde vemos personagens que ganham sua força cênica nos rostos curiosos e no modo típico de falar de cada um, incluindo aí sotaques, erros idiomáticos, vícios de linguagem, falsetes e imitações/contenções vocais.

Mas os filmes dos irmãos Coen, apesar de retratarem a realidade, são uma espécie de “outro mundo”, um lugar que transita entre o possível cotidiano e o desencadear de fatos que vão do horror ao drama social, passando pela farsa, pela máfia, pelo drama psicológico, pelo policial e humor negro. Foi dessa capacidade de criação de outro mundo para suas histórias que eles reafirmam qualidades de cineastas únicos e originais, mesmo quando apresentam obras de conteúdo menos impiedoso e mais ralo que o habitual, como é o caso de Matadores de Velhinhas (1987) e O Amor Custa Caro (2003).

Em Um Homem Sério (2009), a dupla retoma sua idiossincrática e ácida veia trágico-humorista, depois do “western-killer” Onde os Fracos Não Têm Vez, e da “comédia-de-erros” Queime Depois de Ler (2008). Talvez um dos filmes mais rigorosamente confeccionados dos irmãos Coen — na forma –, Um Homem Sério é o desfile das desventuras do professor universitário Larry Gopnik, que vê, do dia para a noite, toda a sua vida desmoronar. Dentre tantas referências bíblicas contidas no longa, é impossível não comparar a história de Larry à de Jó. Porém, ao contrário da vida do Jó bíblico, que acaba recobrando tudo o que houvera perdido, Larry Gopnik é torturado, literalmente, até o último minuto do filme.

Trabalhando em um terreno que conhecem bem por terem feito parte dele — a família judia do meio-oeste americano, na segunda metade dos anos 1960 — os irmãos Coen conseguem arrancar, com dor, alguns risos nervosos do espectador no decorrer da projeção. Mas a trama é tão tensa (relembra o suspense e a tensão de Fargo) que não há espaço para muito humor. Para piorar a situação, a busca do personagem principal por uma resposta divina acaba não dando em nada. Deus simplesmente se cala e cada rabino com quem Larry Gopnik conversa parece desesperá-lo ainda mais. Com o silêncio da família, a inutilidade das instituições da qual faz parte e o silêncio de Deus, Larry parte para uma busca desesperada de significado para a vida, mas acaba soterrado em seus próprios escombros.

Um Homem Sério, como produto fílmico, é uma obra para poucos. Os espectadores menos familiarizados com a cultura judaica perdem parte do que está posto na tela. Entretanto, o filme é uma contundente e acessível crítica social. A luta desesperada do protagonista para manter a calma enquanto tudo rui ao seu redor é a atitude típica da sociedade comunitariamente feliz de hoje. A partir do título, é possível inquirirmos algumas questões a respeito do que é e de como se forma o caráter ou a vida de “um homem sério”. A atitude irritantemente passiva do protagonista nos faz perguntar se “ser sério” é aceitar pacificamente as avalanches que nos acomete e continuarmos exibindo a postura de “classe realizada”. Um referência clara a essa questão da permanência estática frente às adversidades é a fala do aluno sul-coreano de Larry: “por favor, aceite o mistério“.

A pequena história que abre o longa é um prólogo e epílogo, a “lição de moral”, a junção dos pontos que ficarão soltos na obra que se desenrolará dali em diante. Em resumo, a lenda é ambientada numa vila no leste europeu. É um noite fria. Um homem chega em casa e diz ter encontrado um conhecido da esposa, ao que ela responde estupefata que é impossível, pois este conhecido está morto há três anos (preste atenção aos simbolismos numéricos). A esposa então sentencia que o casal foi amaldiçoado por Deus. Nas sequências que se seguem, o espectador fica realmente sem saber o que pensar daquele personagem curioso: trata-se ou não de um espírito?

A tragédia, o crime e a dúvida aparecem nessa introdução surreal do filme. Mais para o final da película, em uma de suas aulas, Larry falará do Princípio da Incerteza. Eis o espírito: tudo converge para que Um Homem Sério seja (sem ser) uma história urbano-judaica de terror.

Após os créditos iniciais, duas narrativas seguirão mostradas paralelamente. Pai e filho são mostrados em suas diferentes atividades. O pai está em um consultório, fazendo exames de rotina. O filho, em uma sala de aula, ouve Somebody to Love do Jefferson Airplane em seu pequeno rádio, enquanto um velho professor conjuga um verbo em hebraico. Vale aqui duas observações. A primeira delas é que o filme levará até o final essa dualidade dos mundos do pai e do filho. Até no desfecho, tanto um quanto outro estão frente a frente com uma possível tragédia. A segunda é que a relação espiritual também está posta nesse molde. O filme é a contraposição de um mundo de fé cujo Deus nunca se pronuncia; e o mundo dos homens sérios, dos filhos desse Deus silencioso. A essa narrativa de dois mundos, tragédias e vícios são inseridos.

Com um olhar pesado e rancoroso para o o funcionamento do mundo, os diretores nos apresentam uma obra pessimista, que retira a voz até de Deus. O desamparo do homem frente ao mundo e à sua fé, mais a obrigação de ter de lidar com isso é a sacada final, que inclusive pode trazer algo pior, seja um furacão ou a possibilidade de uma doença mortal. É como se os cineastas perguntassem: este é o mundo doente e viciado em que vivemos? Ninguém vai romper o ciclo do silêncio? E nesse ponto eles mesmos respondem: o filho de Larry, de frente para o furacão, tenta pagar ao garoto gordo os 20 dólares que lhe deve. Talvez em seu último momento, a única coisa que ele conseguiu pensar em fazer foi saldar uma dívida. O pai, por sua vez, ao ouvir o chamado imediato e urgente do médico à sua clínica, silencia-se por completo. E a bandeira dos Estados Unidos tremula violentamente ao forte vento que só aumenta. A crise pessoal e as lições morais parecem encontrar o elo de ligação. Nada se conclui exatamente, mas todas as respostas pareçam delineadas. É como se na reticência tivéssemos a resposta. Ao fim, o que nos resta, é aceitar o mistério.

Um Homem Sério (A Serious Man) – EUA/UK/França, 2009
Direção: Ethan Coen, Joel Coen
Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen
Elenco: Michael Stuhlbarg, Richard Kind, Fred Melamed, Sari Lennick, Aaron Wolff, Jessica McManus, Peter Breitmayer, Brent Braunschweig, David Kang, Benjamin Portnoe, Jack Swiler, Andrew S. Lentz, Jon Kaminski Jr., Ari Hoptman
Duração: 106 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.