Crítica | Um Limite Entre Nós

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estrelas 3

Quando terminei de escrever a crítica de Um Limite Entre Nós, o filme nem tinha ainda título oficial em português. Deixei o rascunho, que considerava quase a versão final, dormente por um tempo e um sentimento de que algo ainda faltava começou a me incomodar. E ele não ia embora.

Raramente leio críticas de terceiros antes de encerrar a minha, mas, como já considerava praticamente tudo acabado, procurei outros críticos que escreveram sobre o filme logo após sua estreia nos EUA e acabei encontrando em David Edelstein, que escreveu seus comentários originalmente para a New York Magazine, aquilo que procurava. Apesar de consideravelmente mais negativa que a minha, uma frase de sua crítica encapsulou com perfeição o que eu queria originalmente ter passado com a minha e, então, tomo a liberdade de transcrevê-la, devidamente vertida para o português: “Não é cinematográfico o suficiente para fazer você esquecer que está assistindo algo concebido para outra mídia, mais restrita espacialmente, mas é cinematográfico demais para capturar a intensidade, a concentração de um grande evento teatral”. Para ler o texto integral, no original, clique aqui.

Exatamente. Um Limite Entre Nós não está lá nem cá, não é teatro filmado, mas é quase; não é um filme completo, mas é quase. E isso acaba detraindo da experiência, ainda que a questão tratada no cerne dos longos monólogos do protagonista seja extremamente relevante.

Em sua terceira incursão na direção – depois de Voltando a Viver e O Grande DebateDenzel Washington traz para as telonas a famosa e excelente peça do dramaturgo americano August Wilson, de 1983, que se passa nos anos 50. O próprio Washington, junto com Viola Davis, estrelaram o primeiro revival da peça desde que fora montada pela primeira vez em 1987, recebendo intensos elogios, 10 indicações ao Tony e levando para casa três importantes prêmios: Melhor Revival, Melhor Ator e Melhor Atriz. Focada em Troy Maxson (Washington), coletor de lixo em Pittsburg e chefe de família composta por sua esposa Rose (Davis), seu filho Cory (Jovan Adepo) e Gabriel (Mykelti Williamson), seu irmão com problemas mentais decorrentes de ferimento na cabeça durante a 2ª Guerra, o roteiro adaptado pelo próprio Wilson trafega pelas diversas barreiras – diretas e indiretas – que a população negra americana tem que transpor para ter uma pequena chance de ter um vida não mais do que mediana, sem grandes ambições.

Troy tem seu passado desvelado por ele mesmo em conversas regadas a bebida com seu colega de trabalho e amigo Jim Bono (Stephen Henderson) e com sua esposa no pequeno quintal atrás de sua casa. De certa forma mantendo sua postura sempre descontente e aguerrida, mesmo considerando sua posição financeira razoavelmente confortável (em termos comparativos da época e não apenas pelos esforços dele, como não demoramos a descobrir), Troy é um poço de ressentimento por saber que poderia ter sido mais em um mundo justo que enxergasse além da divisão por etnias. Há também, nisso tudo, um forte conflito de gerações com seu filho Cory que deseja seguir pelos passos do esporte, algo que “escapou” das mãos de Troy e que funciona como importante elemento catalisador para os eventos do filme.

As “cercas” do título original são abordadas literal e metaforicamente como um projeto de Troy que ele nunca termina e como tudo aquilo que o afro-americano precisa enfrentar para minimamente sair do sistema que o encurrala, que obstaculiza sua progressão. Mas o texto de Wilson não funciona sempre no filme, criando uma circularidade interessante, mas repetitiva, que não ajuda na progressão narrativa. Por vezes, os diálogos – na verdade monólogos – soam artificiais demais para trazer o realismo necessário para o filme. Com isso, o espectador é retirado da projeção e transposto para a “peça filmada” e, por outras vezes, o filme parece querer alçar voos cinematográficos, mas a peça teatral funciona como uma âncora que arrasta a história e, sim, cansa.

Não há dúvidas sobre a mensagem passada, porém, e Denzel Washington é uma força da natureza carregando sozinho todo o peso dramático da fita. Graças a ele diante das câmeras, por mais que sua presença atrás delas tenha seus defeitos, é que a produção merece atenção. Por mais que a natureza teatral exija uma artificialidade textual grande, Washington consegue, apesar de tudo, trazer humanidade para Troy, envolvendo-nos pelo que ele representa mais do que pelo que ele individualmente é.

Sei que destaquei Denzel Washington em um filme que também tem Viola Davis no elenco, mas isso se justifica por Troy ser efetivamente o ponto focal e o personagem que é a identidade da obra. Davis, como de costume, está muito bem em seu papel, trazendo uma força interior magnífica, notadamente já no terço final de projeção, mas seu papel é consideravelmente secundário e, com isso, ela perde naturalmente espaço para Washington.

A câmera parada, a inevitável repetição de cenários e as tentativas frustradas do diretor de escapar da estrutura teatral enclausura Um Limite Entre Nós em uma espécie de armadilha narrativa que dispersa a história e exige talvez demais do espectador. A fusão das linguagens teatral e cinematográfica que funciona tão bem em Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, Uma Rua Chamada Pecado, Deus da Carnificina e outros filmes que transpõem peças intimistas e confinadas para o cinema não é tão eficiente aqui muito por conta de um roteiro literal demais, que não sabe quando é o momento de deixar de abraçar o material fonte e pular para a Sétima Arte.

Com metáforas repetitivas e uma alegoria ao final que deve ter funcionado muito bem no teatro, mas que é de trincar os dentes no filme, Um Limite Entre Nós tenta ser duas coisas ao mesmo tempo, sem triunfar de verdade em nenhuma delas. Sem dúvida é um tour de force de Denzel Washington e subsidiariamente de Davis, mas, como filme, é cansativo e pouco cinematográfico.

Um Limite Entre Nós (Fences, EUA – 2016)
Direção: Denzel Washington
Roteiro: August Wilson (baseado em sua peça)
Elenco: Denzel Washington, Viola Davis, Stephen Henderson, Jovan Adepo, Russell Hornsby, Mykelti Williamson, Saniyya Sidney
Duração: 139 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.