Crítica | Um Lugar Chamado Notting Hill

estrelas 4

No livro Uma Sociologia do Amor Romântico no Cinema: Hollywood, Anos 1990 e 2000, do pesquisador Túlio Cunha Rossi, entre as reflexões sobre as comédias românticas, um trecho que define mais ou menos a estrutura deste tipo de filme. Segundo o autor, “entende-se que a comédia romântica se caracteriza pela presença de dois protagonistas, no geral, um homem e uma mulher, que se encontram por alguma obra do acaso”. Enquanto Você Dormia, Uma Linda Mulher, por exemplo, são exemplares que se comportam bem dentro destas definições.

O escritor continua e aponta que ao longo da narrativa, entre várias situações cômicas, os protagonistas se admiram e uma atração quase sem limites se estabelece. Rossi ainda acrescenta que “as situações desses filmes tendem a conduzir a consciência de que, a despeito das diferenças, sejam elas sociais, morais, ou de personalidade, os dois personagens foram feitos um para o outro”. Esta é a fórmula básica das comédias românticas.

Algumas são boas, outras são tediosas. Um Lugar Chamado Notting Hill faz parte do primeiro grupo. O filme nos mostra uma atriz que está sempre rodeada de jornalista e fotógrafos interessados em sua vida pessoal, alguém parte do sistema de celebridades que precisa alimentar os tabloides e a sede de seus fãs. Dona de cachês altos, Anna Scott (Julia Roberts) viaja para Londres, tendo em vista a divulgação do seu último filme, uma obra de ficção científica.

Certo dia, ela adentra uma livraria no bairro londrino Notting Hill. Recepcionada pelo retraído William (Hugh Grant), um homem que vive as agruras do recente divórcio. Logo, uma atração vai se estabelecer entre os dois, num interessante jogo de trocas: ela precisará adentrar na simplicidade do mundo de William, personagem que também necessita de adequação para circular no midiático meandro das celebridades de Anna Scott.

A fama parece não trazer felicidade para Scott, pois mesmo diante de salários exorbitantes, a atriz não demonstra estar satisfeita com a sua vida pessoal. O que a atrai em William, por sinal, é o fato de ele a ter reconhecido na livraria durante o primeiro encontro, mas trata-la normalmente, sem as bajulações comuns ao mundo dos famosos. Assim, ao seguir a dinâmica celebridade x anonimato, o filme aposta na química entre Roberts e Grant, um dos elementos que fizeram o sucesso nas bilheterias.

O elemento mais cômico do filme fica por conta do personagem Spike (Rhys Ifans), inquilino e excêntrico cunhado de William, dono de situações vexatórias e algumas confusões ao longo do desenvolvimento do amor entre o casal central. Martin (James Dreyfuss), o feminino funcionário da livraria de William também se faz responsável por alguns momentos divertidos, contraponto do chato e eventual namorado de Scott, o crítico de cinema Jeff King (Alec Baldwin).

Equilibrado e apaixonante, Um Lugar Chamado Notting Hill é mais uma comédia romântica nas trajetórias dramáticas de Hugh Grant e Julia Roberts e do roteirista Richard Curtis. Sob a direção mediana de Roger Mitchell, o filme não traz nada de novo, mas como já dito em outras reflexões do gênero, capitaliza bem em cima de ideias já trabalhadas. Se comparado ao também atrativo Quatro Casamentos e Um Funeral, o espectador perceberá que há cenas bastante semelhantes, algo que beira o autoplágio, já que Curtis também roteirizou a comédia romântica de sucesso em 1994.

Tal como O Casamento de Meu Melhor Amigo e Uma Linda Mulher, Julia Roberts circula em outra comédia romântica com ótima trilha sonora. She, de Elvis Costelo é a música tema, tocada num videoclipe que encerra a narrativa com toques de esperança para todos nós que acreditamos no amor, mesmo que tal sentimento esteja em crise na contemporaneidade, problemática representada, por sinal, com maestria pela própria Julia Roberts no sensacional Closer – Perto Demais. Há ainda Bill Whiters, Ronan Keating, Shania Twain e a trilha instrumental de Trevor Jones.

Para os interessados em comédias românticas, Um Lugar Chamado Notting Hill é o ingresso garantido por uma via de diversão repleta de diálogos inteligentes e personagens vigorosos. Hugh Grant continua ótimo neste filme, entregando o que o roteiro pede sem dificuldades, assim como Julia Roberts, atriz que começou a reivindicar outros papeis para a sua carreira, o que culminou no ótimo Erin Brockovich, mas ainda a fez participar do insalubre e descartável Os Queridinhos da América, ao lado de Billy Crystal, Catherine Zeta-Jones e John Cusack.

Um Lugar Chamado Notting Hill (Notting Hill) – Inglaterra/1999
Direção: Roger Mitchell
Roteiro: Richard Curtis
Elenco: Emma Chambers, Hugh Benneville, Hugh Grant, James Dryfus, Julia Roberts, Mischa Barton, Rhys Ifans, Tim McInnerny
Duração: 131 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.