Crítica | Um Misterioso Assassinato em Manhattan

estrelas 4

Durante muito tempo Woody Allen trabalhou em rascunhos de roteiros que tinham uma marcação mais ou menos assim: “um casal tenta resolver um misterioso assassinato em Manhattan“. Depois de ter abandonado os projetos várias vezes, por achá-los inconsistentes, em 1993 o diretor chegou à conclusão de que era tempo de juntar as várias ideias que havia tido sobre o tema e enfim produzir o filme. Em parceria com Marshall Brickman, com quem já havia dividido créditos de roteiro em Dorminhoco (1973), Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977) e Manhattan (1979), Allen realizou aqui o seu primeiro filme depois da polêmica separação com a atriz Mia Farrow, que havia explodido durante as gravações de seu filme anterior, Maridos e Esposas.

Novamente dentro de um formato mais “livre” em comparação aos seus longas até Crimes e Pecados, Allen realizou aqui um filme ágil, de montagem bastante abrupta e com um entrosamento narrativo bem menos informal do que já conhecíamos de seus filmes anteriores. Aliás, depois de Maridos e Esposas, o diretor se desviou poucas vezes desse ‘novo caminho’, talvez como uma forma conceitual de se enquadrar nas novas exigências de mercado e público; talvez uma maneira mais ágil e um pouquinho caótica de remodelar os temas principais de seus roteiros.

Mais uma vez, o papel do fotógrafo Carlo Di Palma se mostrou imprescindível para a criação, nesse caso, de uma atmosfera de suspense, mesmo que em paralelo o texto mostre o calor de casais se conhecendo, acostumando-se, flertando, redescobrindo-se. Sabemos o quanto Di Palma primava por oposições entre cores frias e quentes, entre claro e escuro e aqui, a oportunidade de aplicar a Manhattan essas duas visões — ainda mais delineadas pela frequente presença da chuva — deu a necessária cara cosmopolita, opressiva e ao mesmo tempo convidativa da cidade, que é bem diferente daquela do filme de 1979; mais impessoal, mais subdividida em tribos, mais ausente.

De forma muito curiosa, a comédia se estabelece nesse espaço de sentimentos e aparências, mas desta vez não estamos falando de uma comédia “comum”. Mescla de humor negro, teatro e improvisações, Um Misterioso Assassinato em Manhattan traz uma sempre bela e ótima Diane Keaton em um papel que em outro contexto seria de Mia Farrow. Allen não reescreveu toda a personagem, como muita gente costuma dizer, mas retirou ou adicionou muita coisa do texto que destacavam Keaton, pois ela tinha mais impulso para a comédia física e verbal do que Farrow.

O benefício de termos uma grande amiga do diretor e uma das principais atrizes de seus filmes em cena é a deliciosa interação entre os dois, que interpretam um casal que percebe que seu casamento já não é mais o mesmo. Não se trata de uma crise como aquelas que presenciamos em outras obras de Allen, mas mesmo assim serve para colocar uma linha de decepção amorosa na trama, mesmo que não seja seu foco principal. É a partir desse casal, os Lipton, que temos uma suspeita de assassinato, uma investigação amadora com resultados cada vez mais intricados e a entrada de alguns coadjuvantes de peso, todos eles com interpretações notáveis. O único desses personagens que é completamente inútil para a história é o filho dos Lipton, que vemos apenas uma vez, mas que é citado inadvertidamente, mesmo sem nenhuma real importância.

Após o assassinato ser estabelecido, diversas situações de busca, intriga e amores se apresentam, às vezes separadamente, às vezes em conjunto, afunilando-se para um ponto em comum, com direito à melhor sequência de todo o filme e uma das mais bem dirigidas por Woody Allen, que é quase um plano a plano — com exibição, inclusive, do filme — de A Dama de Shangai, de Orson Welles. O final refinado e caloroso nos dá a sensação de uma crônica maluca sobre um evento trágico tratado com humor negro e com personagens aparentemente ordinários mas que vão quebrando barreiras de marasmo ou de obviedades e fazendo coisas que nem eles e nem nós imaginavam. Fecham o ciclo a bem escolhida (embora pouco presente) trilha sonora, os figurinos sensacionais de Diane Keaton — que faz piada com Noivo Neurótico, Noiva Nervosa — e o ótimo desenho de produção de Santo Loquasto, com caracterizações de ambientes bem incomuns, tanto para os apartamentos dos personagens quanto para os ambientes externos.

Uma comédia de caráter policial que brinca com medalhões clássicos e recentes do cinema como Casablanca (1942), Pacto de Sangue (1944), Janela Indiscreta (1954), Um Corpo Que Cai (1958) e O Silêncio dos Inocentes (1991), Um Misterioso Assassinato em Manhattan mostra mais uma vez que Woody Allen, apesar de sua recorrência temática nos roteiros, é um diretor e um escritor extremamente dinâmico e que percebe o momento de mudar a forma, a narrativa e a estrutura de um filme para cobrir um novo momento. E ele segue fazendo isso realmente muito bem.

Um Misterioso Assassinato em Manhattan (Manhattan Murder Mystery) — EUA, 1993
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen, Marshall Brickman
Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Jerry Adler, Lynn Cohen, Alan Alda, Anjelica Huston, Ron Rifkin, Joy Behar, William Addy, John Doumanian, Sylvia Kauders, Ira Wheeler, Melanie Norris, Zach Braff
Duração: 104 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.