Crítica | Um Pequeno Assassinato

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Atenção, há spoilers! continue por sua conta e risco!

Um Pequeno Assassinato, curiosamente, é uma graphic novel que não foi concebida na mente de Alan Moore, e sim de seu companheiro nesta empreitada, o desenhista argentino Oscar Zárate. Ambos já conheciam o trabalho um do outro e Zárate procurou Moore com uma ideia na cabeça que o Mago Inglês prontamente aceitou pelo fato de já possuir uma admiração prévia pelo trabalho do desenhista. Assim nascia uma obra que, apesar de não ter sido criada por Moore, foi escrita e abraçada por ele, contando então com seu texto contundente e crítico.

Publicado originalmente em 1991 e vencedor do prêmio Eisner de 1994, na categoria Best Graphic Album: New, Um Pequeno Assassinato conta a história de Timothy Hole, um publicitário que deixou seu antigo trabalho para embarcar em um novo projeto, no qual deve criar uma campanha comercial para um refrigerante americano chamado Flito, que será veiculada na Rússia. Passando por um bloqueio criativo, Timothy começa a se ver perseguido por um garoto estranho, cujas intenções ele desconhece. Ao longo da trama, Moore e Zárate vão nos contando também sobre o passado do protagonista e o que o levou a aceitar seu atual trabalho.

Um publicitário estadunidense, um comercial de televisão na Rússia, escrito por Alan Moore, hum… ah, e que se passa no fim dos anos 80, isso é importante! Se você conhece e é fã do trabalho de Moore já imagina o que lhe aguarda, certo? A sinopse acima citada é somente a primeira camada da obra; algumas você vai descobrir ao longo da história e outras serão desveladas somente numa segunda ou terceira leitura.

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Ao longo da graphic novel Moore e Zárate nos contam a história do protagonista sob duas perspectivas paralelas, mas que se complementam: numa delas, no presente, acompanhamos sua viagem de férias à sua cidade natal, e suas ideias para o mote da campanha que ele começará logo após o período de descanso; na outra, no passado, vemos o que o levou até o seu ponto atual através de fatos marcantes de sua vida (o início e término de duas relações amorosas, suas decisões profissionais e algumas passagens da juventude). Destaca-se aqui dois aspectos importantíssimos: o primeiro é que a trama sobre o passado é contada de trás para frente; e o segundo é que toda a história nos é narrada sob o ponto de vista de Timothy. E a sua perspectiva, ou a forma como se recorda dos fatos, é essencial para a compreensão da obra, lembre-se disso!

E por que de trás para frente? Bem, quando conhecemos uma pessoa, é natural sabermos primeiro quem é, o que faz, aonde e com quem mora, seus, hobbies, etc. Num segundo momento sabemos, por exemplo, sobre seu trabalho anterior, um possível ex-namorado (a), o que estudou na faculdade, enfim. Depois, com o passar do tempo, sobre sua juventude, infância, familiares perdidos ou hábitos antigos. Ou seja, ninguém se apresenta e começa a falar sobre sua infância, certo? E é assim também na estrutura do roteiro, para que que o leitor conheça Timothy Hole aos poucos; primeiro sobre seu passado recente e em seguida sobre os acontecimentos mais antigos e seus segredos mais bem guardados.

E é neste momento que Zárate e Moore começam a justificar o brilhantismo da obra. Primeiro com o texto de Moore, altamente imersivo, íntimo, pessoal e coloquial. As palavras que ele escolhe para criar os pensamentos do protagonista são perfeitas, dando contornos realistas aos seus sentimentos. Assim como acontece conosco, os pensamentos de Timothy vêm e vão, são atravessados por outros pensamentos, memórias surgem a partir de pequenos detalhes do cotidiano, lembranças de sonhos aparecem e em seguida somem; mas tudo tem um sentido e um motivo. É desta forma que Moore torna o personagem crível, factível e humano.

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Uma passagem que contribui brilhantemente com a profundidade do protagonista é no começo da história, onde há um diálogo no qual Timothy comenta sobre o desastre da Pepsi em Tóquio. Pois bem, tal episódio é verdadeiro (!!) e Moore teve a perspicácia de inserir este detalhe no seu texto. E como se não bastasse, atribuiu a culpa a Timothy Hole! A referência é perfeita em todos os sentidos, pois trata-se de um tema totalmente aderente ao contexto de Um Pequeno Assassinato, além de ter sido inserida de forma completamente orgânica e natural. E como se não bastasse, ainda adiciona mais um nível de complexidade ao personagem, pois serve para informar ao leitor que ele já teve um grande fracasso no passado, com o mesmo tipo de produto e numa cultura estrangeira; ou seja, além dos outros problemas que o cercam, ainda há uma questão de confiança profissional abalada do personagem. Tudo isso em um único quadro!

Zárate, por sua vez, colabora imensamente com a imersão do leitor na psique do personagem através de sua arte. O uso de cores esmaecidas, nas sequências de lembranças, e em preto e branco, para retratar os sonhos de Timothy, permitem que o leitor se localize a todo momento. Porém, perceba como Zárate deixa pistas visuais (importantíssimas para o desenvolvimento e conclusão da história) em algumas passagens: a sequência da conversa no bar entre Timothy e o garoto (na qual Timothy pede um chopp e o garoto pede um refrigerante da marca Vimto) e a forma discrepante como alguns personagens são retratados nas memórias de Timothy e na realidade presente são alguns exemplos. Numa primeira leitura muitas dessas dicas podem passar batidas, mas já na segunda o leitor começa a se questionar como não havia percebido tais coisas antes.

Mas, e o tal do assassinato, onde está? É um dos muitos que às vezes cometemos ao longo da vida, valores e princípios que deixamos de lado gradativamente à medida em que a vida adulta e o mundo real crescem e se avolumam sobre nós. É a culpa: coisas que muitas vezes nos arrependemos de fazer e, por isso, criamos uma fantasia em nossas mentes para que a realidade seja mais suportável; ou seja, contamos mentiras para nós mesmos e acreditamos nelas, suprimindo o que somos de verdade. E Timothy, em seu íntimo, se culpa por muitas coisas, desde os insetos presos no pote (que é a maior metáfora da obra), passando pelo fim do seu casamento até sua carreira como publicitário.

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O fato de Timothy ser publicitário é emblemático. A publicidade, como ferramenta essencial do capitalismo, compõe o contraponto do contexto utilizado no roteiro, uma vez que, do outro lado, está a Rússia comunista dos anos 80, público alvo do comercial que será desenvolvido pelo protagonista. E aí reside o viés político proposto pela dupla Moore/ Zárate, já que vemos um publicitário que vive em negação, incapaz de entender os valores, necessidades e o próprio perfil do seu público-alvo (e até de pessoas próximas). Notaram alguma semelhança com o padrão de comportamento de grandes nações?

Hoje, porém, o protagonista sente a necessidade de se redimir dos seus próprios erros. E então chegamos ao tema cerne da obra de Moore e Zárate, que é a redenção. A jornada de Timothy termina em redenção, com a possibilidade de um novo começo e, desta vez, com escolhas melhores. E a primeira escolha que Timothy faz na nova etapa de sua vida, logo após o seu “renascimento”, é a mais simples e acertada possível: ele compra Vimto numa prateleira cheia de Flite. “Tava aqui no fundo, esperando por você”, diz a atendente; sua jornada foi tortuosa, mas o que ele procurava sempre esteve lá.

O final remete, em certos aspectos, à conclusão de Cidadão Kane, com a revelação de Rosebud. O singelo valor representado pela infância de cada um que, de formas diferentes, se perdeu ou foi suplantado ao longo da vida. Pode-se dizer que Rosebud está para Charles Foster Kane assim como Vimto está para Timothy Hole. A diferença é que Moore e Zárate deram a Timothy um final feliz, diferente do fim melancólico de Kane.

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Um Pequeno Assassinato é uma obra surpreendente, sensível e altamente realista. Seus vários pequenos mistérios e o texto verossímil tornam a leitura viciante, fazendo com que seja quase impossível largar o volume após começar a leitura. Porém, não se engane achando que esta seja uma experiência simplória, que você termina e pensa “ah, legal”. Pelo contrário, é um trabalho profundo e reflexivo, que nos faz voltar algumas vezes em trechos específicos para termos certeza se é isso mesmo que estamos entendendo. Difícil é compreender ou especular o motivo de um trabalho desta qualidade não ter saído antes aqui no Brasil; por pouco o lançamento não comemora os 30 anos da publicação original! O mais sério pequeno assassinato que eu consigo imaginar talvez esteja na consciência de alguém que teve a oportunidade de publicar este material por aqui e não o fez.

A Small Killing — Reino Unido, 1991
No Brasil: Um Pequeno Assassinato (2017)
Texto: Alan Moore
Desenhos: Oscar Zárate
Capa: Oscar Zárate
Editora no Brasil: Pipoca e Nanquim
116 páginas (edição nacional)

DANIEL TRISTÃO . . . Paulistano, gosto de quadrinhos desde criança, aos 10 anos me interessei por literatura ao ler suspenses infantojuvenis e ainda adolescente já assistia filmes como um dos meus principais hobbies. Alan Moore, Neil Gaiman, Warren Ellis, Stanley Kubrick, Martin Scorsese, Christopher Nolan, Agatha Christie e H.P. Lovecraft são alguns dos autores que mais admiro. Sou formado em Administração e trabalho com TI; leio livros, gibis e assisto filmes mais do que muita gente considera normal, mas menos do que eu gostaria.