Crítica | Um Pequeno Favor

É fácil olhar para Um Pequeno Favor e imediatamente conectá-lo em similaridades com Garota Exemplar, que nos apresentou a icônica Amy Dunne. De fato, muito da estrutura do filme de David Fincher (baseado no livro de Gillian Flynn e roteirizado pela mesma) se repete/confunde na nova empreitada de Paul Feig (baseada no livro de Darcey Bell), mas ambos os filmes não poderiam ser mais distantes em sua substância e olhar peculiar para o delicioso cinema farsesco: enquanto que Fincher satirizava a instituição do casamento e a subversão de papéis, Feig opta por um olhar mais debochado sobre si mesmo, buscando inspirações e referências nos thrillers rocambolescos da Hollywood nos anos 40/50 para elaborar sua brincadeira de verdades e mentiras.

A curiosidade por Um Pequeno Favor, em especial, nasceu principalmente da vontade de um diretor cômico como Feig (do fabuloso Missão Madrinha de Casamento, dos péssimos As Bem-Armadas e A Espiã, e do fracassado Caça-Fantasmas) fugir de sua veia inicial na qual já estava totalmente atrelado na indústria para abraçar um gênero que lhe seria novidade e lhe abriria oportunidades para um novo experimento. De fato, Um Pequeno Favor é o melhor encontro de Paul Feig com um script desde o excessivo, mas muito divertido Missão Madrinha de Casamento.

Blake Lively e Anna Kendrick juntas em cena, em especial, garantem um charme magnético que jamais imaginaríamos entre as duas atrizes. Kendrick (de Amor Sem Escalas) é Stephanie, uma mãe e vlogueira amadora, que se comporta e traja roupas infantilizadas, floridas, tímidas, que anseia pelo apreço de terceiros. Quando conhece Emily (Lively, de Águas Rasas), Stephanie dá de cara com seu total oposto. Emily é dona de uma personalidade imprevisível, dura, mordaz, sexualmente indomável, constantemente traja trajes masculinos e adora um bom dry martini em qualquer horário do dia. Apesar das divergências, logo as duas mulheres se tornam amigas e encontram uma na outra sentimentos como fascínio, malícia e diversão. Até que num dia, após pedir que Stephanie pegasse seu filho na escola, Emily misteriosamente some, deixando o filho e o marido Sean (Henry Golding).

Roteirizado por Jessica Sharzer, já com um roteiro rocambolesco na bagagem pelo acelerado Nerve – Um Jogo Sem Regras, Um Pequeno Favor oferece o deleite ideal sobre identidades, máscaras, farsas e mistério para que Feig, Kendrick e Lively, num encontro muito feliz, se conectem com os desdobramentos de tal forma que tudo aquilo pareça um gigantesca e debochada brincadeira, em especial na dubiedade com que os personagens são submetidos, e entre a possibilidade de um crime ou de uma brincadeira (ou os dois?), o espectador dá de cara com um número cada vez mais inusitado de desdobramentos, todos absurdos e novelescos, mas que ressaltam a aura kitsch escondido sobre a imagem de figurinos coloridos e pesados, ou de casas gigantescas e suntuosas, que são o palco para nossas duas protagonistas trocarem segredos sórdidos.

Rapidamente abandonando o suspense inicial e preferindo o jogo de surpresas e revelações (o clímax, em especial, está entre os mais caricatos e absurdos deste ano, e por isso mesmo divertidíssimo), Feig surpreende por igualmente manter um pé nos ensinamentos de Alfred Hitchcock e moldando ao seu favor o senso do poder da informação entre personagens e público: por vezes, sabemos de algo que as personagens não sabem; e em outras, as personagens parecem saber de algo que ainda não chegou ao nosso conhecimento. Nesse jogo de manipulação, Feig elimina as certezas e pistas concretas em prol de um desnorteamento organizado, mas igualmente descontrolado, nos desafiado à adivinhação que, a cada virada, nos é cada vez mais incerta.

Como se nota, Um Pequeno Favor é um thriller que deita e rola sobre si mesmo, imediatamente afastando-o de grande parte dos filmes comerciais, tão controlados e sufocados por fórmulas para atender expectativas exatas do público massificado. Não que o filme de Feig queira ser algo além de undeground, muito pelo contrário. A veia comercial do projeto é pulsante e notória, mas se recusa a chegar até o espectador de tal forma que o mesmo esqueça-o com o apagar das luzes. E por isso Um Pequeno Favor mantém sua identidade num tom de sarcasmo tão elevado, que não se leva a sério ao mesmo tempo em que valoriza suas nuances enquanto um quebra-cabeça filmado, de forte teor sexual e pequenos toques subversivos dentro da chacota american dream, ressaltado por pequenas brincadeiras visuais como a sombrinha de bolinhas sendo levada pelo vento em meio a chuva enquanto Emily entra em cena. Lively, em especial, cresce cada vez mais no circuito como uma atriz de versatilidade latente, algo comprovado por seus três últimos projetos tão diversificados entre si (Café Society, o já mencionado Águas Rasas e Por Trás dos Seus Olhos). Sua presença é magnética, sedutora, provocante e maravilhosamente imprevisível. E Kendrick, por mais que pareça inicialmente estar reprisando um papel que lhe é tão característico e confortável, logo se revela disposta a embarcar nas mudanças de sua personagem, agora tão dúbia em suas decisões quanto qualquer um dos outros rostos em cena. Não há simplificação de personagens aqui, e a narrativa é adulta o suficiente para lidar com isto.

Feig, assim, entrega seu filme que melhor compreende a noção do que é fazer cinema: a manipulação. Nós, espectadores, gostamos de ser manipulados, moldados, enganados e surpreendidos, e as escolhas narrativas de Um Pequeno Favor ressaltam o gosto deste suspense tragicômico pelo prazer da surpresa, da aversão às expectativas (por mais que se entregue a um bom número de furos para isto) e no prazer de se perder em meio a tantas direções possíveis. Um filme que foge da realidade com muito bom gosto, e muita diversão.

Um Pequeno Favor (A Simple Favor) – EUA, 2018
Direção: Paul Feig
Roteiro: Jessica Charzer, baseado em livro de Darcey Bell
Elenco: Anna Kendrick, Blake Lively, Ian Ho,  Andrew Rannells
Duração: 117 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.