Crítica | Um Santo Vizinho

estrelas 3

Em um mundo adornado por guerras, conflitos pessoais, fome, doenças incuráveis, dentre outras celeumas, os seres humanos precisam de histórias sobre redenção para continuar o processo de construção de uma crença na qual dias melhores virão. Um Santo Vizinho é uma comédia dramática que segue esta linha. Com um enredo redondinho, personagens equilibrados e divertidos, uma trilha sonora empolgante e uma direção competente, a produção funciona como um bom entretenimento, mesmo que não seja o suprassumo cinematográfico.

O campo da crítica e os espectadores que postam as suas opiniões em blogs e redes sociais possuem um discurso homogêneo: o filme é bom, mas é clichê e não traz nada de novo. Compreendo e aceito em partes. Mas não consigo me conter: o que é ser novo em um contexto narrativo milenar? Retornarei ao questionamento no arremate final desta reflexão.

Em Um Santo Vizinho, Maggie (Melissa McCarthy) é uma mulher recém-divorciada, enfermeira, repleta de plantões para cumprir, tendo ainda que dar conta da criação do seu filho adotivo Oliver (Jaede Lieberher). Ao chegar em sua nova vizinhança, entra em conflito com St. Vincent (Bill Murray), um morador implicante, chato, inconveniente e incompreensivo. A partir daí, o roteiro se incube de aproximar os dois, num dia em que Maggie não consegue chegar do plantão e o menino precisa passar o dia com o complicado St. Vincent.

Dou um doce para quem adivinhar o que vai acontecer. E não é que os dois se aproximam, vivem aventuras incríveis neste encontro de gerações, com direito a dicas de defesa pessoal para Oliver enfrentar os abusos dos colegas da escola, bem como uma saída “adulta” para um bar, e, concomitantemente, St. Vincent num rejuvenescedor processo de reflexão da sua vida ao lado de uma criança que lhe traz esperança para enfrentar os atavismos de um homem que já esteve na guerra? Para completar o quadro, há a divertida namorado de St. Vincent, interpretada pela versátil Naomi Watts, num ótimo desempenho.

Ao refletir sobre Um Santo Vizinho, as conclusões possíveis até então são as seguintes: é uma história baseada no velho chavão de conflitos de gerações, com lições de moral e aprendizados. Podemos observar que é uma temática recorrente, haja vista filmes como Os Intocáveis, Encontrando Forrester, Um Mestre em minha vida, Gran Torino, dentre outros, cada um, de fato, comparado salva as suas devidas proporções e estilos.

Em suma, é um filme pretensioso e oportunista, pois não só a forma como foi montado e exibido, mas as estratégias e a época de lançamento buscam a aceitação entre algumas das categorias do Oscar, um prêmio que funcionam como instância de legitimação. Ponha as estatuetas na arte do seu cartaz, DVD ou BLU-RAY e garanta um aumento nas vendas. Como sempre, indústria e entretenimento de mãos dadas, num relacionamento de sucesso.

As observações anteriores, portanto, não foram apontadas para desqualificar o filme. Um Santo Vizinho não é um filme ruim, mas só parece comida requentada. O feijão e arroz nosso de cada dia oferecendo alguns poucos momentos de oxigenação narrativa. Um deles, talvez o mais interessante, é a interpretação da atriz Melissa McCarthy, uma das profissionais do ramo que até então eu sentia vergonha alheia.

Na maioria dos seus filmes anteriores, Melissa McCarthy interpretou mulheres estereotipadas. Quase sempre a “gorda engraçadinha”, a palhaça do circo de horrores das comédias escatológicas hollywoodianas. Foi assim em Missão: Madrinha de Casamento, Uma ladra sem limites e As Bem Armadas. Em Um Santo Vizinho, o diretor conseguiu tirar o melhor da atriz, que, assim, entrega uma performance emocionante e equilibrada, sem detratar-se como profissional e como ser humano.

Para muitos espectadores, é interessante o escárnio em relação aos gordos, homossexuais, deficientes físicos, cegos, dentre outros grupos. Melissa era uma atriz que estava envolvida neste círculo vicioso de autoflagelação. Um Santo Vizinho, no entanto, é um saldo positivo em sua carreira, não em aspectos financeiros, mas em questões de amor próprio e respeito como ser humano e profissional.

Com 103 minutos de duração, Um Santo Vizinho possui um interessante panorama narrativo, haja vista os enquadramentos que parecem inspirados em outro filme de Bill Murray, Flores Partidas, um drama que dividiu a crítica e o público por volta de uma década atrás. O som das bandas The Clash e The National tornam algumas cenas empolgantes, mas não se espante se achar que já viu este filme antes. Provavelmente na Sessão da Tarde, na Tela Quente, no Telecine, ou até mesmo, no cinema. Assim como a vingança, o amor e o sexo, este conflito de gerações é uma temática frequente. Basta que cada diretor saiba como tornar o seu filme uma peça única, o que de fato, não acontece em Um Santo Vizinho, mas é algo que não o torna um filme ruim.

Sendo assim, voltando ao questionamento preambular, ser novo é saber capitalizar em cima de ideias batidas. Pode ser através de uma sutileza em um determinado personagem ou pela extração dos famigerados finais em que o exaltado vai se redimir perante a sociedade, como acontece em Um Santo Vizinho. Um filme que pode iluminar esta questão? Crash- No Limite, de Paul Haggis. Os jogos narrativos envolvendo poder, xenofobia, política e psicologia social estão bem costurados, numa trama que pretendeu ser bastante “realista”, mas ai nos minutos finais, os personagens se redimem e a torre de reflexões realistas erguida tende a ruir.

Desta forma, observamos que não é preciso destituir a estrutura narrativa clichê, mas relativizar ou adorná-las com toques sutis diferenciais. Ser novo em 2015 é muito desafiador, talvez estejamos caminhando para impossibilidade neste processo de busca pelo “original”, tamanha as fronteiras desbravadas com a internet (acesso a cinematografias antes desconhecidas, roteiros, ideias e histórias alheias que circulam na esfera virtual) e a quantidade de profissionais atuando no mercado audiovisual.

Como últimos ângulos a iluminar, a direção de Thedore Shapiro é competente e as indicações aos prêmios anuais da indústria cinematográfica são óbvios, afinal, antigo soldado mudando a sua postura ranzinza e abrindo o seu coração para a amizade com uma criança é algo que os envolvidos na cerimônia do Oscar adoram, não tanto quanto as atrizes que se transformam para interpretar os seus personagens, mas é algo que está sempre “lá”, envolvido com todo o sentimento de pertença dos estadunidenses, sempre heróis salvadores da pátria. Ademais, como crítica de cinema não é guia de consumo, aconselho ao leitor que assista e tire as suas próprias conclusões, e depois, se possível, retorne para um debate. O que acham?

Um Santo Vizinho (St. Vincent, EUA – 2014)
Direção: Theodore Melfi
Roteiro: Theodore Melfi
Elenco: Bill Murray, Melissa McCarthy, Naomi Watts, Chris O’Dowd, Terrence Howard, Jaeden Lieberher, Kimberly Quinn, Lenny Venito, Nate Corddry, Dario Barosso, Donna Mitchell, Ann Dowd
Duração: 102 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.