Crítica | Um Senhor Estagiário

estrelas 2

Quem é familiar com o nome Nancy Meyers, sabe bem o que esperar de basicamente qualquer um dos filmes que tragam seu nome na direção ou roteiro. Comédias românticas moralistas e temperadas com uma excessiva dose de açúcar, que, não por surpresa, acabam deixando o resultado final meloso demais. Queria acreditar que Um Senhor Estagiário seria algo diferente, que olhasse para a interação entre a velha geração e a internet de uma forma mais original do que a infeliz comédia Os Estagiários, mas não passa de mais um espaço para Meyers.

A trama nos apresenta a Ben Whittaker (Robert De Niro), um viúvo de 70 anos que simplesmente não consegue lidar com sua tediosa aposentadoria. Encorajado a tentar algo novo, ele entra para o programa de estágio de uma empresa de internet especializada em vendas de roupas, chefiada pela durona Jules Ostin (Anne Hathaway). Diferenças vêm, diferenças vão, os dois começam a estabelecer uma forte amizade.

Nada que você nunca tenha visto numa Sessão da Tarde da vida (e também na filmografia de Meyers), e o pior é que realmente começa na promessa de um estudo sólido sobre as dificuldades que idosos têm de entrar no mercado de trabalho, ainda mais um dominado por empresas online. Ora, apenas um mero pretexto para que Meyers faça exatamente o mesmo filme de sempre, com seu texto logo ignorando o fato de que Ben mal sabe ligar um computador, apenas para acelerar a “construção” de sua amizade com Jules – que claramente o odeia no início, mas torna-se sua inseparável companheira posteriormente -, em um festival de lugar comum. A única coisa que faltava, era os personagens principais desenvolverem um romance, porque, de resto, o roteiro de Meyers mergulha sem dó ou originalidade nos clichês. Afinal, o que dizer de um filme que, em pleno ano de 2015, ainda aposta na vergonhosa situação de trazer um personagem dirigindo apenas para que este flagre um outro com sua amante? Ou melhor, uma súbita sequência de heist envolvendo um grupo de personagens que planeja… bem, invadir uma casa para deletar um e-mail desastroso, uma ideia tirada diretamente do final dos anos 90 e a era pré-internet; algo que deve soar tão engraçado para a diretora/roteirista quanto piadas batidas de ereção súbita e “ato não-sexual que é confundido com um ato-sexual”. Além da direção nada sutil de Meyers, a trilha de Theodore Shapiro se esforça na melancolia e obviedades, como se quisesse fazer o espectador pensar que está na realidade vendo uma novela de mal gosto.

Se há um elemento realmente eficiente aqui, certamente é Robert De Niro. O veterano ator é carisma puro como o simpático protagonista, sendo capaz de dominar todas as cenas em que aparece e criar uma figura absolutamente admirável – ainda que não esconda o fato de se tratar de um maniqueísmo idealizado, mas que sustenta toda a projeção. Sua química com Hathaway também funciona, especialmente na constante inversão de seus papéis, e Meyers revela um mínimo de esperteza ao remeter à Conduzindo Miss Daisy durante as cenas em que Ben dirige para Jules. Só é uma pena que Rene Russo tenha sido desperdiçada em um papel cartunesco e mal desenvolvido. 

Um Senhor Estagiário tinha a oportunidade de ser uma comédia inteligente sobre o contato da meia-idade com o mundo digital, mas limita-se a um roteiro clichê, moralista e dominado pelo irritante maniqueísmo da açucarada Nancy Meyers. 

Um Senhor Estagiário (The Intern, EUA-2015)
Direção:
Nancy Meyers
Roteiro: Nancy Meyers
Elenco: Robert De Niro, Anne Hathaway, Rene Russo, Anders Holm, Andrew Rannells, JoJo Kushner, Zack Pearlman, Jason Orley, Christina Scherer
Duração: 121 min.

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.