Crítica | Um Sonho Distante

“Tell me you like my hat! Why can’t you say it, Shannon?” – Tom Cruise forçando um sotaque terrivelmente Joseph Donnelly

Um Sonho Distante representa o que se poderia chamar de uma empreitada ambiciosa por parte do diretor Ron Howard no subgênero do romance histórico. Tendo como pano de fundo as crises de terras da Irlanda e a expansão da fronteira dos Estados Unidos, o filme conta a história de dois imigrantes irlandeses unidos pelo acaso e tentando dar um rumo para suas vidas no final do século XIX. O filme foi vendido na época como uma produção portentosa de duas horas e meia de duração se estendendo por dois continentes, rodado no raro formato de 70 mm, com um orçamento relativamente elevado para o gênero e estrelando os já consagrados Tom Cruise (em seu maior cachê até então: 13 milhões, contra apenas 1 milhão por Top Gun, por exemplo!) e Nicole Kidman.

Um épico que toma alguns conhecidos eventos históricos e inscreve neles uma história de amor entre o pobre sonhador e a jovem socialite entediada com seu modo de vida, contracenando com um elenco de personagens um tanto caricatos em uma trama que tenta equilibrar tonalidades mais sóbrias com um clima aventuresco e romântico, de forma a resultar em um filme que, embora traga temas pedregosos e cujo foco seja sem dúvida o romance, acaba sendo capaz de, na prática, cativar um público-alvo muito mais amplo do que aquele tradicionalmente associado ao subgênero. Soa familiar? Sendo esta a visão por detrás da produção, por que o resultado final passou longe daquele obtido por uma versão mais refinada do conceito, que viria a se tornar um fenômeno cinematográfico apenas cinco anos mais tarde?

As insuficiências de Um Sonho Distante são várias, mas em sua maioria se encontram em torno justamente da dificuldade em sintetizar tudo aquilo que o filme quer ser sem se perder no processo. O primeiro ato da película nos apresenta a história de Joseph Donnelly (Tom Cruise), jovem irlandês que trabalha nas terras de um proprietário extremamente explorador, com o sonho e a esperança de um dia poder lavorar uma terra que seja sua. Trata-se de um misto de tragédia e comédia um tanto inusitado: ao invés de trazer qualquer tipo de humor ácido ou crítica social, o segmento alterna entre um humor situacional e prático e uma trama trágica envolvendo a morte gratuita e sem sentido do Sr. Donnelly em um acidente nascido do confronto dos aldeões com seu odiado senhor. Leia-se: a mesma cena que retrata a morte do velho Donnelly carrega linhas dramáticas lado a lado com piadas que soariam exageradas em uma paródia escrachada.

O resultado é algo que estranhamente se assemelha a uma daquelas adaptações animadas de uma obra literária onde as partes mais pesadas são contornadas de forma a se atenuarem ou contrabalanceadas com alívios cômicos e uma apresentação caricata. Não se tratando aqui obviamente do caso, é intrigante a opção da produção por essa rota. Ao menos de início não há inconsistência tonal, já que a forma como a família Donnelly e o conflito nas fazendas irlandesas são retratados guarda ares de livro de histórias infantil, e pelo menos aqui podemos falar em uma caricatura eficiente e que envolve o espectador em uma narrativa carismática. A missão de Joseph em vingar a morte do pai, planejando assassinar o senhor de terras Daniel Christie (Robert Prosky), também é entregue como se assistíssemos a uma dessas adaptações em live-action de uma animação da Disney perdida. O desajeitado herói parte com sua espingarda sob sequências carregadas com um humor tão leve e descompromissado que é praticamente garantido ao espectador que aquela provação não resultará em nenhuma perda de vida.

É na casa do nêmese Daniel que Joseph conhece sua filha Shannon Christie (Nicole Kidman), que denuncia a presença do camponês e o ataca, frustrando sua tentativa de assassinato que acaba na hilária cena em que o mosquete estoura em sua mão e o derruba com o coice, ao que a família aristocrata acolhe o jovem para recuperar-se de seus ferimentos para que possa então posteriormente sentir a forca. Neste contexto temos uma série de sequências bem divertidas mostrando um pouco mais de nossos dois protagonistas, a forma como eles se conhecem e se conectam sendo especialmente bem trabalhada ao evocar alguns clichês inevitáveis com sutileza o suficiente para que soem empolgantes. Nisso reside outro ponto forte do filme – a referencialidade aos grandes romances hollywoodianos, que consegue ser explícita sem no entanto pesar a mão, fazendo com que toda a interação do casal seja interessante, ainda que o desenvolvimento dos personagens em si seja bastante falho.

No segundo ato acompanhamos a fuga impulsiva dos jovens para os Estados Unidos, impulsionados pelo desejo de independência de Shannon, que se vê fascinada pela promessa de uma vida moderna e de ter suas próprias terras em Oklahoma. É interessante como a dinâmica entre o casal vai se transformando aos poucos, na medida em que o inicialmente hesitante e apático Joseph vai se animando com a prospectiva, enquanto que Shannon vai vendo seus sonhos se tornarem mais distantes ao compreender o quão complicada a empreitada toda será. Temos uma mudança tonal que coincide com a mudança da ambientação da Irlanda rural para o amontoado urbano de Boston – escolha acertada que se apoia sobre uma boa realização do pano de fundo histórico, que adquire ares mais realistas em contraposição à atmosfera de conto-de-fadas do ato inaugural.

Porém é também no segundo ato que os problemas começam a surgir. A mudança de tom não vem sem cobrar um preço sobre a consistência da narrativa. Conforme perdem espaço as piadas, o ritmo arrastado do filme começa a se revelar de forma mais explícita, e o enfoque dramático que a direção tenta atingir não se vê sustentado pela trama simplista que até então bastava para embalar uma aventura mais rasa. Embora as atuações de Cruise e Kidman permaneçam energéticas, o alongamento da trama no tempo levanta uma série de desafios que prova os limites do equilíbrio fino que as sequências na Irlanda foi capaz de alcançar. Para retomar nossa comparação de logo antes: parte da magia de Titanic se deve ao fato de que o central da trama se passa basicamente ao longo de quatro dias. A passagem do tempo em saltos acaba lançando o espectador para uma perspectiva mais distante e fazendo esfriar o clima de aventura que embalava a narrativa desde o início, em troca de uma tentativa de desenvolvimento de personagens que não foge dos estereótipos esperáveis. Na troca da leveza pela sobriedade, a produção sai perdendo.

Enquanto que a subtrama do boxe acaba servindo de atalho para importar alguns clichês da temática para embalar este segmento central da película, temos Shannon perdendo o espaço gradativamente, deixando um pouco de lado seu protagonismo e iniciativa em favor de uma postura hesitante. O problema se agrava e termina de se realizar com a passagem para o terceiro ato do filme, que é onde a coisa toda desaba. Todos os aspectos aproveitáveis da construção de personagem, qualquer simpatia que o casal tivesse despertado até então, tudo é posto por terra após o despejo da dupla e a absurda chegada da família Christie em Boston. A cena em que o casal invade uma casa para roubar comida e simula um jantar é tão horrorosa que é capaz de quase fazer zerar o envolvimento com a narrativa, e saindo dela o espectador é conduzido a mais um salto temporal e uma sequência arrastada de mais de 40 minutos no Oklahoma, que consegue acabar de vez com quaisquer possibilidades de redenção da história.

A impressão que temos é que a inserção da Corrida Pela Posse de Terra de 1889 entra como exigência externa do roteiro, um cenário final para a trama que foi estipulado sem se pensar os pormenores de como a coisa toda montaria para colocar nossos personagens ali. Para evocar uma última vez o filme de James Cameron: imagine se Titanic passasse três quartos de sua duração em duas cidades do norte da Inglaterra, e o embarque no navio e subsequente naufrágio surgisse do nada nos 40 minutos restantes da película após um salto de 8 meses, sucedendo um desfecho que já serviria de clímax para o filme (ainda que deixando o casal protagonista separado). É deste nível de incongruência que estamos falando!

Claro que brinco aqui, uma vez que a intenção do roteiro é justamente essa amplitude épica de levar nossos personagens por três ambientes tão diferentes e situar seu romance em uma panorama histórico complexo e diversificado, que é inclusive muito bem representado pela fotografia do filme. Porém o fato é que a trama perde o fôlego ao longo do segundo ato e encontra no final do segmento em Boston um clímax prematuro que faz todo o setting da Corrida Para o Oeste soar desnecessário, como um epílogo desajeitado. Não ajuda que a presença dos caricatos Christie e do igualmente cartunesco antagonista Stephen Chase (Thomas Gibson) se intercale com um melodrama arrastado e desinteressante entre Shannon e Joseph, a coisa toda se degenerando em cenas dignas de novela (das bens ruins). É curioso que a tábua de salvação do terrível terceiro ato acabe por ser o “núcleo Disney”, com o burlesco Daniel e o infame Stephen demonstrando algum carisma em meio a um documentário histórico pontuado pelo dramalhão.

Ambicioso em escala e desajeitado na execução, Um Sonho Distante seria um filme excelente se conseguisse encontrar equilíbrio entre seu primeiro ato e os fios narrativos  que melhor funcionam dentro das tramas de Boston. O misto de tonalidades por si só não seria problema, caso fosse mantido algum equilíbrio ao longo de toda a (excessiva) duração da película. As mudanças e viradas bruscas do roteiro são capazes de puxar o tapete até mesmo das atuações energéticas de Cruise e Kidman, e não ajuda que ao longo da maioria do filme falte qualquer fagulha criativa nos diálogos, sendo que as linhas melhores acabam restritas igualmente às sequências iniciais. Com tudo isso dito, trata-se de um filme capaz de entreter e que vale a pena ser assistido neste contexto, no mínimo pelas sequências em que realmente acerta a visão que tenta seguir, mas que frequentemente deixa escapar.

Um Sonho Distante (Far and Away) – EUA, 1992
Direção: Ron Howard
Roteiro: Bob Dolman, Ron Howard
Elenco: Tom Cruise, Nicole Kidman, Thomas Gibson, Robert Prosky, Barbara Babcock, Cyril Cusack, Eileen Pollock, Colm Meaney, Douglas Gillison, Michelle Johnson, Wayne Grace, Niall Toibin,
Duração: 140 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.