Crítica | Um Time Show de Bola

estrelas 3,5

Essa co-produção Argentina e Espanhola dirigida pelo argentino Juan José Campanella, de filmes laureados como O Segredo dos Seus Olhos, Clube da Lua e O Filho da Noiva é uma tremenda surpresa. Não que o diretor não fosse capaz de comandar um desenho, mas sim por que ela não deixa muito a dever, em termos de qualidade técnica de animação a muita coisa que sai dos grandes estúdios americanos.

O design dos personagens humanos, apesar de caricato, é muito detalhado, o que dá personalidade bem distinta a cada um deles, mesmo considerando que eles descambam um pouco para a unidimensionsalidade. Mas o que realmente chama a atenção do espectador é o cuidado com o design dos objetos inanimados e do cenário, especialmente a cidade sem nome, no interior de um país sem nome (mas que claramente remete à Argentina). Uma combinação de cores fortes e curvas góticas com toques de art déco emprestam um ar diferente e marcante para tudo que vemos no terço inicial da fita, de longe a melhor parte da projeção.

Quando somos apresentados a Amadeo (David Masajnik) em sua infância, aprendemos que ele é um craque excepcional em  futebol de mesa (ou totó ou pebolim, depende de que parte do Brasil você é) e acaba infligindo uma derrota a Grosso (Diego Ramos), o craque de futebol de verdade do povoado. Esse momento não fica esquecido e Grosso, já adulto e transformado no melhor jogador de futebol do país, volta para se vingar, destruindo tudo aquilo que Amadeo e sua paixão platônica Laura (Lucía Maciel) mais adoram. No meio da confusão, um entristecido Amadeo vê seus amados jogadores de totó ganharem vida.

Esse belo e poético início, que é apresentado por um homem já mais velho a seu filho como uma história de ninar, se perde um pouco em peripécias hollywoodianas no segundo terço do filme, com longas sequências que tentam emular Toy Story 3, com direto até ao ferro velho. Não é uma cópia, vejam bem, apenas uma espécie de “desvio de caráter” que Campanella acaba se permitindo para seguir uma fórmula já testada e aprovada e capaz de agradar os pequenos. Mas o problema continua na longa sequência na mansão de grosso, com aparatos e experiências biotecnológicas que são tão estranhas quanto desnecessárias, já que não acrescentam absolutamente nada à narrativa.

Mas a forma do diretor volta no terceiro ato, com o grande jogo de futebol (o verdadeiro) entre um time mambembe – e muito engraçado – formado por Amadeo, com direito a ladrão, mendigo que mora em caverna, padre e um desfile de seres estranhos e surreais contrastando com a enormidade e perfeição do time de Grosso. É como se o time de Amadeo de repente ficasse tão pequeno quanto os diminutos times de totó que ficam “no banco” durante grande parte do desigual jogo.

O charme do trabalho de Campanella está não só em dar vida a personagens estranhamente adoráveis (destaque para o jogador Beto – Fabián Gianola – que fala em terceira pessoa e tem cabelo de palha de aço) como em abordar de forma dúbia e inconclusiva a “transformação” dos pequenos jogadores de metal em seres vivos. Reparem que a interação deles só ocorre com Amadeo, jamais com os demais personagens e, mesmo quando interferem no jogo, não conseguimos vê-los pelas “1.500 câmeras” do estádio. Imaginação ou realidade? A contraposição desses dois extremos que o diretor nunca exatamente resolve mesmo com o fechamento da narrativa inicial (do pai e filho na hora de dormir) juntamente com a edificante mensagem – padrão, eu sei – de que devemos tentar sempre fazer o melhor de nós para ultrapassar obstáculos aparentemente intransponíveis, retira esse trabalho do lugar comum da animação.

E os pequenos provavelmente ficarão perdidos com as referências cinematográficas que abundam no filme, sendo digna de nota a sensacional abertura que faz mímica do início de 2001, de Kubrick. Simplesmente perfeita a sequência que, sozinha, já valeria o preço do ingresso.

E o trabalho de câmera é absolutamente irretocável. Filmando rente ao chão nos jogos de futebol (tanto o “verdadeiro” quanto o totó), Campanella dá um show de fluidez e comando do espaço cênico em cenas de ação. Não me lembro de ver futebol filmado dessa maneira e as sequências são de tirar o fôlego. Pena que sejam tão poucas e tão esparsas (ou talvez por isso mesmo sejam tão especiais…).

O 3D nativo até funciona nas grandiosas sequências dos jogos e no miolo cheio de perseguições, mas, em última análise, não é mais do que um artifício desnecessário, que não ajuda efetivamente na narrativa, o que definitivamente não é de se espantar.

Um Time Show de Bola é uma animação acima da média e muito divertida, que agradará facilmente os pequenos e seus pais, sendo mais uma bola dentro de Campanilla em sua carreira cinematográfica. Resta saber quando o Brasil terá um filme de animação desse nível.

Um Time Show de Bola (Metegol, Argentina/Espanha – 2013)
Direção: Juan José Campanella
Roteiro: Juan José Campanella, Gastón Goralli, Eduardo Sacheri, Roberto Fontanarossa (conto)
Elenco (vozes do original): David Masajnik, Fabián Gianola, Miguel Ángel Rodríguez, Horacio Fontova, Pablo Rago, Lucía Maciel, Diego Ramos, Coco Sily, Natalia Rosminati, Ernesto Claudio, Lucila Gómez, Mariana Otero
Duração: 106 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.