Crítica | Um Tira da Pesada

estrelas 4

Eddie Murphy, mais um comediante egresso do sensacional Saturday Night Live, teve um início de carreira na Sétima Arte raro de se ver. Afinal, ele já começou acertando logo em seu primeiro longa, contracenando com Nick Nolte em 48 Horas, sob a direção de Walter Hill. E seu segundo papel, o de Billy Ray Valentine, ao lado de Dan Aykroyd em Trocando as Bolas, somente sedimentou essa sua persona carismática do espertalhão de bom coração e demonstrou que seu tino para comédias, sem recorrer a caretas vazias, era próximo do perfeito (uso o verbo no passado, pois Murphy perdeu esse tino há bastante tempo).

Mas talvez tenha sido Axel Foley, o detetive de Detroit perdido em Beverly Hills em Um Tira da Pesada. seu papel mais lembrado e adorado por todos. E com razão. Apesar de ele fundamentalmente repetir a fórmula de seus papéis anteriores, Murphy consegue literalmente sequestrar a batida temática do “estranho em terra estranha” e transformá-la em algo único. Repare que, apesar de ele ser o estranho na estrutura clássica que mencionei, ele está longe de ser um “perdido”. Ao contrário, a malemolência que Foley ganhou  em suas atividades como policial nas ruas da violenta Detroit lhe dá toda a vantagem sobre os policiais certinhos e by the book de Beverly Hills, convertendo tanto a cidade quanto seus habitantes em folclóricos E.T.s completamente alienados da realidade dura do resto do país.

A naturalidade de Eddie Murphy em transmutar-se de policial querendo vingar-se da morte de seu amigo em Detroit para “repórter da Rolling Stone”, “inspetor de segurança”, “amante homossexual” e outros é impressionante e hilária. E o melhor: Murphy faz tudo sozinho, sem precisar nem mesmo trocar de figurino que é, literalmente, um só, formado de um prosaico par de tênis, uma surrada calça jeans surrada, uma simples camiseta cinza e um despojado moletom azul com capuz. O resto é simplesmente a capacidade de se transformar em um piscar de olhos e, ao mesmo tempo, de cativar a plateia com uma personalidade inerentemente boa, simples e fácil de criamos o necessário rapport.

O roteiro, do então estreante Daniel Petrie Jr., é linear e tem o mérito de não complicar em nada a história. Além disso, há um certo grau de unidimensionalidade em todos os personagens para o foco permanecer em Axel Foley, realmente o grande chamariz da fita. Não que os demais personagens e atores não sejam importantes, pois o são, mas eles, aqui, mais do que em outras obras do gênero, são meros apoios à estrela. Mesmo assim, vale mencionar, especificamente, a inocência bobalhona de Rosewood, vivido por Judge Reinhold e a rabugice engraçada de Taggart, vivido por John Ashton, que formam a dupla de policiais que, se em um primeiro momento antagoniza Foley – mas sempre de maneira muito polida, como manda a Código de Ética Policial, claro! – não demora muito e se desarma com a simpatia do policial de Detroit.

Mas não há roteiro que faça, no papel, aquilo que Murphy faz na tela. O trabalho é fundamentalmente todo dele, mas Petrie Jr. consegue dar seu toque, com críticas ferinas ao estilo de vida absurdo dos habitantes de Beverly Hills. Suas estocadas criaram cenas memoráveis como a de Foley passando por dois “Michael Jacksons” na rua e o esnobismo que vemos nas sequências na galeria de arte e no clube exclusivo em que Foley vai para ter uma conversa com o vilão, Victor Maitland (Steven Berkoff, encarnando o tom vilanesco de filmes da franquia 007 – e ele foi um na verdade, no ano anterior, em 007 Contra Octopussy), depois de se livrar de seu capanga Zack (Jonathan Banks, em papel que literalmente poderia ser interpretado como sendo a versão jovem de seu Mike Ehrmantraut, em Breaking Bad).

A direção de Martin Brest é inexpressiva. Ele não tenta, em momento algum, sair de sua zona de conforto e entrega um resultado que seria burocrático, não fosse, novamente, Eddie Murphy em plena forma em papel que, pasme, foi primeiro oferecido para Mickey Rourke (mas era um roteiro bem diferente). Ele recebe, justificadamente, toda a atenção das câmeras e, sozinho, consegue arrancar a fita do lugar comum que a ela seria reservado não fosse seu timing fenomenal.

O único real e duradouro destaque no lado mais técnico é mesmo a trilha sonora composta por diversos autores, valendo especial destaque para “Axel F”, por Harold Faltermeyer, que se tornou verdadeiro ícone dos anos 80 e passou a ser adotada, remixada, sampleada e tudo mais por dezenas e dezenas de artistas até hoje. Não foi sem querer que a trilha ganhou o Grammy de melhor trilha sonora de audiovisual.

Um Tira da Pesada é, em toda sua gloriosa simplicidade, um filme que vence facilmente a barreira do tempo e é capaz de agradar a espectadores de todas as idades. Eddie Murphy está irresistível e carrega o filme nas costas sem esforço, firmando-se no inconsciente coletivo como um dos maiores comediantes dos anos 80.

Um Tira da Pesada (Beverly Hills Cop, EUA – 1984)
Direção: Martin Brest
Roteiro: Daniel Petrie Jr.
Elenco: Eddie Murphy, Judge Reinhold, John Ashton, Lisa Eilbacher, Ronny Cox, Steven Berkoff, James Russo, Jonathan Banks, Stephen Elliott, Gilbert R. Hill, Paul Reiser
Duração: 105 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.